A CIDADE E O PROGRESSO PRESENTE NAS OBRAS DE MARIO DE ANDRADE E OSWALD DE ANDRADE

A CIDADE E O PROGRESSO PRESENTE NAS OBRAS DE MARIO DE ANDRADE E OSWALD DE ANDRADE

 

Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.

 

O modernismo trouxe ao Brasil contrapontos importantes da reflexão do nacional e do caráter brasileiro, especialmente em um país que recém libertou seus escravos e vivia um ainda novo sistema político, o progresso vinha como promessa de um futuro que até então era distante daqueles praticados na Europa. O símbolo desse futuro era a cidade, foco principal em São Paulo, que passava por um processo de industrialização e se tornou ponto importante dessa representação do futuro. Muito brevemente o Modernismo entendeu o peso da realidade difícil que aquele progresso trazia e que aproximava de maneira conflituosa parte do Brasil aos espelhos Europeus e que afastava uma outra parte de si deixando de lado naquele momento o histórico do seu o linguajar e a cultura que se formara até então. O país seguia por uma divisão clara que se formou e permeou entre o progresso e o primitivo.

Mario de Andrade, em Macunaíma, extrapola e expõe as relações divisórias desse país separado por uma linha imaginária, onde tinha primitivismo representado pelo rural, e a cidade, que representava o progresso presente na sociedade naqueles anos e tema presente nas diferentes fases do Modernismo. Essa divisão é também externada por Oswald de Andrade em seu livro Pau-Brasil, onde temos um ponto importante sobre a abordagem da linguagem que permeava e que correlacionava com a mesma abordagem que Mario nos direcionava em relação a esse progresso, para seguir com essa correlação analisaremos a temática no poema Pronominais e o capítulo das Cartas a Icamiabas no livro Macunaíma de Mario.

Quando olhamos para a rapsódia de Mário, um dos pontos importantes em Macunaíma é seu conteúdo que de resgata essa linguagem do populário, sendo um livro escrito com um vocabulário vasto contemplando o linguajar indígena e popular. Alfredo Bosi em Situação de Macunaíma diz que “Quanto a dicção complexa de Mario, retoma processos de composição e de linguagem da narrativa oral indígena ou arcaico-popular.”. Em relação a estrutura, pontuado por Gilda de Mello e Souza, o livro é quase uma catalogação daquilo tudo que Mario captou em suas viagens ao Brasil e seu contato com a cultura popular. É um livro repleto da tradição oral e dos símbolos que acompanhavam o popular brasileiro. Porém no decorrer de seus dezessete capítulos essa relação linguística do popular se destoa no que seria o centro do livro, o nono capítulo, no qual com uma linguagem robusta e erudita que se destoa do restante temos a carta de Macunaíma às Icamiabas. Como pontuado por Bosi, carta essa em tom paródico, sendo ela uma sátira com conteúdo antiparnasiana e antiprovinciana, sendo responsável pela dialetização interna dos fatores estruturais da história oral, Macunaíma é a fusão dos códigos popular e erudito.

No capítulo em questão, Macunaíma conta para as Icamiabas sobre a cidade de São Paulo, na qual havia chegado há pouco tempo com seus dois irmãos e se instalara ali para buscar seu tesouro roubado: a muiraquitã. Macunaíma, o herói brasileiro nascido negro e índio narra sua chegava ao símbolo do progresso e conta sobre as diferenças que permeavam entre aquele novo e o antigo mundo do herói. A carta se inicia com a informação sobre São Paulo ser a maior cidade do universo -de acordo com seus prolixos habitantes-, e que lá a erudição permeava por todos os arredores, o que pesou para eles no início de sua jornada. Porém essa erudição torna tudo mais heroico, relembrando assim a tradução e a pureza antiga. Um resgate crítico do clássico uma vez que esse só é possível com o uso de linguajar sofisticado, porém dito por um então herói que até esse momento da narrativa não usa tal linguajar. Pontuo ainda que, sendo o herói nascido no mundo indígena e no rural há um contraste claro dessa afirmação da necessidade de resgate pelo falar erudito, ele inclusive faz uso desse linguajar sofisticado para escrever a carta, porém essa é direcionada para pessoas que possuem uma mesma origem e formação que ele e consequentemente distantes do erudito, o que pode ser entendido como uma crítica dessa imersão erudita. O herói narra então, nesse linguajar, as estranhezas que aquela cidade trouxe a ele, os nomes dados ao que ele conhecia como guerreiros e que ali eram chamados de civis. Contrapontos da diferença e dessa separação que o Brasil sofria. Mas um dos fatos importantes apontado em toda a carta é a questão da imersão da língua lusitana, aquela inclusive é forma da carta e que a destoa de todos os demais capítulos. Macunaíma ainda aponta que a palavra muiraquitã, objeto inclusive pelo ele está ali, é uma “ferida aos ouvidos latinos”. Uma importante referência ao progresso que a cidade trazia e a renegação do linguajar (e a cultura) popular, até então presente no país e que agora era parte apenas do rural, do chamado primitivismo. No decorrer da carta, essa crítica ao linguajar erudita e a renegação daquele populário se faz presente em diversos pontos. Macunaíma diz  ainda que “ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra.”. E essa mesma questão da distância linguista nos leva a Oswald de Andrade e é encontrada no poema Pronominais, onde Oswald crítica a questão da norma culta versus a linguagem o oral, e faz uma crítica em relação à distância, entre o falado e o escrito.

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro.

Schwarz, em A carroça, o bonde e o poeta moderno, apresenta a fórmula de Oswald para a poesia de Pau-Brasil: “A sua matéria-prima se obtém mediante duas operações: a justaposição de elementos próprios ao Brasil-Colônia e ao Brasil burguês, e a elevação do produto-desconjuntado por definição à dignidade de alegoria do país.”. Oswald apresenta no poema a questão gramatical como ponto de divisão e distancia, por um lado a forma erudita e bem aceita da língua que se divide com o linguajar popular, essa justaposição de elementos. No poema os bons negros e bons brancos, ou aqueles do populário, ignoram a questão da erudição e usam do falar popular para se comunicar, o que não altera inclusive qualquer questão de significado no pedido, novamente uma crítica a questão da distância entre o falado e o escrito. Há ainda um resgate do social e das pessoas do popular, o negro, ainda em condições precárias na sociedade, excluído do rótulo de professor ou aluno é apenas um sabido que não necessariamente aprendeu toda a erudição e inclusive a erudição da língua portuguesa, mas que tem um conhecimento importante para a classe social que está presente. Temos ainda em Schwarz a questão da dualidade, presente em Oswald: “Esta dualidade, cujos dilemas remontam à Independência e desde então se impõem inexoravelmente ao brasileiro culto, suscitou atitudes diversas; talvez não seja exagero dizer que ela animou a  parte crucial de nossa tradição literária.”.

O ponto de correlação entre Mario e Oswald se fincam aqui com a importância desse linguajar, essa justaposição e dualidade formadas pela linguagem. Enquanto Macunaíma, que só usava do linguajar popular usa a carta como forma de erudição, de exposição e retorno da civilidade europeia, apresentando de forma crítica a situação, em Oswald temos um sujeito que sendo um bom brasileiro não precisa, ou não quer, seguir essas regalias da erudição da gramática, criticando os mesmos pontos que Mario. Ambos criticam a distância e a exaltação das formas normativas contra a forma popular que se proliferava.

A carta às Icambias traz outros pontos importantes para analisarmos e que também nos expõe a questão da cidade e o progresso, um deles, e ponto importante da carta que nos mostra ainda mais fortemente essa divisão com o primitivismo se faz presente na passagem:

“mas não devemos esperdiçarmos vosso tempo fero, e muito menos conturbarmos vosso entendimento, com notícias de mal calibre”

Macunaíma narra aí os primeiros sinais do progresso que a cidade trazia consigo, a pressa e a inundação impostas pelo capitalismo aos moldes europeus que se fazia presente. O dinheiro, forte símbolo do sistema, também é um contraponto importante para Macunaíma, ele narra sobre a importância que os papeis monetários tem na cidade e o quanto isso vale para eles em outras importâncias. Fica clara a divisão e o uso do dinheiro como poder. Ele inclusive expõe que diferente daquilo que ele tinha gratuitamente no ambiente distante da cidade, em São Paulo, as moças cobravam pelos prazeres carnais do qual ele gostava tanto de disfrutar.

Há ainda a clara referência da influência europeia e da erudição presente nos dois escritores e nas duas obras, onde os moldes europeus eram fonte de importância para diferentes fatores. A crítica à europeização e a importação dos costumes em Macunaíma se faz presente na passagem “Tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes! Em breve seremos novamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!”, seguindo ainda por uma crítica clara a essa divisão com a afirmação de que “os paulistas são a única gente útil do país, e por isso locomotivas” onde traz um importante símbolo do progresso: o transporte. A questão da influência europeia sobre o Brasil se faz presente ainda em outras partes importantes da narrativa, como pontuado por Gilda, a europeização se faz presente logo no início do livro com a transformação da aparência do herói para então uma figura bela e aristocrática e esse pontos acontecem não de maneira inconsequente, mas como um símbolo intencional sobre essa nossa flutuação cultural. Depois da transformação física de Macunaíma, o linguajar, exposto na carta, é um passo para a representação dessa civilidade que o herói precisava tomar. A questão da europeização é também presente em Pronominais de Oswald, a divisão clara no poema entre as tonalidades de pele, a separação clara entre negros e brancos. A civilização e o progresso europeus eram marcados pela predominância branca e a dominação negra. Em Oswald eles aparentemente caminham juntos “o bom negro e o bom branco”, mas sua separação é clara e se faz tão mais intensa com a separação entre o aluno, o professor e o negro, como terceiro ponto e não enquadrado aos demais quadros sociais.

Voltando a Macunaíma, temos a descrição da cidade de São Paulo de maneira épica, seguindo alguns dos moldes clássicos, relação direta entre o erudito e o heroico, segundo o que ele próprio aponta no início da carta em referência ao linguajar culto:

É São Paulo construída sobre sete colinas, à feição tradicional de Roma, a cidade cesárea, “capita” da Latinidade de que provimos; e beija-lhe os pés a grácil e inquieta linfa do Tiêtê. As águas são magnificas, os ares tão amenos quanto os de Aquisgrana ou de Anverres, e a área tão a eles igual e salubridade e abundância, que bem poderá afirmar, ao modo fino dos cronistas, que de três AAA se gera espontaneamente a fauna urbana”

A questão da cidade e do progresso se faz presente em capítulos antecedentes ao analisado, com a chegada de Macunaíma à cidade e que dão base para a análise do capítulo em questão. Há um processo análogo nos capítulos antecedentes para nos apresentar São Paulo, de acordo com a Gilda, que aponta ainda a questão de a cidade ser descrita, antes da carta, como “a cidade macota de São Paulo, esparramada à beira-rio do igarapé Tietê”.

A narração de Macunaíma segue trazendo pontos importantes daquela cidade que se contrapunha tanto com os costumes até então. Porém o principal contraponto que afirma essa separação e a traz como nociva é explicitada na passagem:

“Enfim, senhas Amazonas, heis de saber ainda que a estes progressos e luzida civilização, hão elevado esta grande cidade os seus maiores, também chamados de políticos. Com esse apelativo se designa uma raça refinadíssima de doutores, tão desconhecido de vós, que os diríeis monstros.”.

Em Oswald esse ponto narrativo heroico não é presente de forma direta, porém com sua crítica ao linguajar culto e automaticamente ao linguajar heroico apontado por Macunaíma, a crítica ainda assim se faz presente.

Como relação entre as obras de Oswald e Mario, tanto Macunaíma quanto o poema Pronominais abordam o progresso e a cidade, expondo as linhas divisórias entre o que o progresso trazia, fortemente embalado pela linguagem e a expressão normativa e culta em contraponto ao populário, o oral e o primitivo em oposição ao progresso. Ambos, cada qual a sua maneira, expõe e criticam àquela europeização e modelo de civilidade que se demonstravam como padrão e de certa maneira negavam o populário.

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O pai da menina morta

O pai da menina morta – Tiago Ferro

Um texto composto por fragmentos que formam um tipo de caleidoscópio trazendo o luto de um pai jovem que perde a filha de 8 anos.

Ler esse livro é quase um soco no estômago. Ele traz o mais intimo que o Tiago poderia trazer de si mesmo e do seu luto. Indo e vindo, sua história, descobertas e medos aparecem. Um homem comum que experimenta a morte precocemente.

O que eu mais gostei no livro são os fragmentos, a maneira como a dor é contada. Nos faz entrar em um mundo nem sempre tão conhecido, não é só o luto, é a perda de uma filha ainda criança, tanta precocidade muda o rumo de toda uma vida. A mistura entre o passado e o presente ajudam a compor as palavras que expressam a dor e o futuro.

Um livro lindo de se ler, de uma escrita simples e profunda, que leva a autoestima, a sexualidade, o humor e a memória em torno do luto.


O autor: Tiago Ferro nasceu em São Paulo em 1976. É um dos fundadores da e-galáxia e da revista Peixe-Elétrico. Escreve ensaios sobre cultura para Piauí, Cult e Suplemento Pernambuco. O pai da menina morta é seu primeiro romance.

As intermitências da morte

As intermitências da morte – José Saramago

Iniciei minha jornada com Saramago por Intermitências. Um belo dia, em um país, a morte resolveu tirar uma “folga” e ninguém morreu.

Um situação como essa é caótica. A morte afeta inclusive a rainha, que a beira de dizer adeus ao mundo, fica moribunda sofrendo e aguardando a situação se resolver. Durante os dias seguintes, uma família com dois moribundos descobre que a fronteira é a solução, bastava levar os quase mortos pra fora daquele país. Uma espécie de comercio ilegal começa a lucrar com a levada de quase mortos para outros países. As funerárias precisavam lucrar. Ninguém sabia o que acontecia.

Diversos pontos de vista são atrelados ao enredo. Primeiro a família e os fatos que vem rondando o lugar. Depois o medo de um dos chefes de estado que recebe uma carta lilás da própria morte – e sua crença e descrença perante aquela história de carta – e finalizamos com a visão da própria morte, seu ponto de vista e sua distração.

A morte voltou a entregar as cartas lilás, que informavam proximidade do fim da vida de quem a recebeu; porém nesse processo uma das cartas é devolvida. As cartas nunca eram devolvidas. Exceto essa, de um músico que desperta então a curiosidade da dona morte. E leva também a própria morte aos pequenos questionamentos e divertimentos da vida. Quase um paradoxo circular envolvendo um tema tão peculiar.

Saramago tem uma narrativa bastante particular, a pontuação, a mistura narrativa entre dialogo… Detalhes que tornam a narrativa única, difícil de ler, é verdade.

Eu senti em Intermitências uma espécie de circulo. No fim não da pra ter certeza que é um começo, se é um recomeço, a narrativa final nos faz pensar no todo, é a morte discutindo a vida. É lindo!


O autor: José Saramago é um escritor português, nascido em 1922. Morreu em 2010. Ganhador de vários prêmios, era conhecido por uma técnica de narrar voltada ao oral.

Macunaíma

Macunaíma – Mario de Andrade

Macunaíma é um livro essencial pra nós, brasileiros. Alvo das temidas provas de vestibular, pude agora entender um pouco mais da sua importância social e nacional. Eu não tinha essa ideia até ler e estudar um pouco a mais dele e do Mario de Andrade. Mas não se engane, não é um livro fácil de ler ou que de primeira já seja possível captar toda a essência dele, na verdade é bem difícil de adentrar ao clima e ao contexto do livro. Por vezes eu me sentia cansada da leitura, mas no fim é um esforço que vale.

A rapsódia foi escrita em seis dias em um período de férias em 1926, editada no ano seguinte foi publicada em 1928. Momento importante para o Modernismo que caminhava para a sua segunda fase. O livro traz de certa maneira uma catalogação de tudo o que Mario pode capturar do Brasil nos anos anteriores à publicação, no euforismo daquele primeiro modernismo e a busca por entender o caráter e a identidade nacional fez de Mario um grande estudioso da cultura popular brasileira, ele viajou pelo país captando cantigas e histórias dos povos que àquela altura eram quase esquecidos por uma sociedade e um Brasil que entrava no modernismo e no progresso que as cidades e as inovações europeias nos traziam.

A classificação de rapsódia foi dada pelo próprio Mario, uma vez que o livro não se enquadrava em nenhuma outra categoria. Rapsódia ainda é atrelada a música, e desde a Grécia, aonde era o processo de decorar e proclamar a fragmentação de poemas. A fragmentação tem ainda uma associação direta a um tema presente em Mario. Sobre o tema da música no livro, a Gilda de Mello e Souza tem um livro chamado O tupi e o alaúde que nos mostra a associação da música à obra. Vale lembrar que Mario era músico e foi responsável por muita coisa relacionada à arte no período.

Macunaíma é o herói sem caráter nenhum, e já se engana quem começa o livro achando que caráter tem relação com os valores sociais. O caráter aqui é relacionado a característica, ao enquadramento em um país que buscava ainda entender sua própria característica como nação. Pois bem, Macunaíma é um índio e negro, o que em tese une duas frentes de sociedades bastante oprimidas no Brasil, os negros e os índios. É o herói do povo brasileiro. Nascido no norte, o menino só começou a falar depois dos 6 anos, morava com a mãe e os irmãos em uma tribo indígena, era totalmente dependente deles e desde o início já traz a preguiça como característica marcante. Preguiça essa que vai com ele por todo o livro. Ressaltando que esse sentimento não se relaciona diretamente com a vagabundagem, mas está relacionado ao ócio e tem uma crítica diretamente os novos meios de produção e negócios.

Por um descuido a mãe de Macunaíma morre. Na jornada o herói encontra um amor, se torna rei e ganha um tesouro importante: a muiraquitã. Esse tesouro é perdido no meio do caminho e ele vai em busca de recupera-lo. Recheado de episódios que giram em torno dessa busca, Macunaíma e os irmãos percorrem um caminho longo até chegar na cidade. Lá eles encontram o progresso, e tudo se torna uma máquina, automático, diferente daquilo tudo que eles conheciam e vivam antes. Macunaíma segue a busca pela muiraquitã que está com Visceslau Pietro Pietra, o gigante. Faz tudo o que pode, engana todos, engana o gigante e vai atrás desse objeto tão precioso. Em sua busca faz inclusive um acordo com Vei, a Sol, que encontra por mais de uma vez na narrativa. Depois retorna a casa, mas o retorno termina com seu encontro com a Iara (Uiara), a serei mitológica, e ele se transforma em constelação.

O herói é dominando no livro todo por um desejo sexual aflorado, brinca – como chama o ato em si – com diferentes mulheres no decorrer da história. O prazer carnal é característico direto de Macunaíma. Ele é também um alguém muito esperto, prega peças em todos e sai-se bem de qualquer situação.

Podemos considerar que o livro é dividido em duas grandes partes, a primeira do rural, do otimismo, das origens, do primitivo e a segunda da cidade, da fome, do progresso e a distância das raízes. Essa divisão nos mostra já um Mario, que diferente daquele que escreve Pauliceia Desvairada, chega agora a uma nova fase e o otimismo começa a se esvair e a melancolia começa a tomar conta, uma relação direta com o percurso que os intelectuais tomavam no conhecimento daquele Brasil. A divisão do livro nos mostra também os dois pontos extremos em que o próprio Macunaíma adentra, relacionado no início ao positivismo, as raízes brasileiras e ao primitivismo. A segunda parte adentra a melancolia, ao progresso, a cidade que se criava. Uma co-relação direta também ao capitalismo, que num país recém saído da República e liberto seus escravos havia em seu início um gosto doce que aos poucos vai se amargando com a realidade que o toma.

O livro é repleto da linguagem popular, dos ditos e das criações desses ditos populares. Linguisticamente é um livro rico em detalhes do oral. É o popular pra elite. Mas confesso que adorava ver as lendas, as invenções do Mario e principalmente essa riqueza linguística do populário e das raízes sociais brasileiras. É também cheio do mítico, das lendas indígenas e de origem, o livro é cheio do maravilhoso. Há o mito e o real se propondo ao primitivo e o progresso.

No fim do livro o herói se torna constelação. Ursa Maior.

Mario não nos traz nessa rapsódia a história do Brasil, ou até qualquer definição do que seja o brasileiro. Mas nos traz um Brasil no seu mais interior, nas suas lendas e origens. Afastado daquele europeu que trazia pro Brasil o novo e o “de fora”.

Há muito sobre o livro e sobre Mario que ainda preciso explorar, mas essa pequena resenha é quase como uma catalogação próprio do início dos meus estudos sobre o modernismo de Mario, quero ainda aprender e entender muito além disso.


O autor: Mario de Andrade é um dos principais autores do modernismo brasileiro. Paulista, nasceu em 1893 e morreu em 1945). Responsável por diferentes movimentos artísticos no Brasil, ele foi além de escritor um músico importante.

Garotas Mortas

Garotas Mortas – Selva Almada

Garotas mortas é um livro de não ficção, mas durante toda a leitura a gente até deseja que seja ficção. Selva Almada traz um livro importante para um assunto atual e que ainda precisa de muita atenção e discussão: o feminicidio. O livro descreve o assassinato de Andrea Dunni, Maria Luísa Quevedo e Sarita Mundin, todos ocorridos em cidades interioranas nos anos 1980 momento da redemocratização argentina. Todos acometidos por um mesmo motivo: a violência de gênero.

A partir das histórias desses assassinatos, em uma narrativa jornalística e eu arriscaria a dizer investigativa no sentido de buscar informações (e não de encontrar culpados), vamos adentrando ao mundo cruel em que todas as mulheres estão suscetíveis: o de serem mortas pelo simples fato de serem mulheres. Estar viva, como apontado em no próprio livro, é pura questão de sorte.

Entre os assassinados que somos expostos, o fato comum da impunidade é o que permeia entre eles. Em nenhum o verdadeiro assassino foi encontrado, mesmo depois de tantos anos. Considerados casos de um crime “menor”, durante anos foram arquivados e não resolvidos sem que nem mesmo a grande mídia se voltasse a eles, principalmente por serem ocasionados em cidades do interior, sem grande destaque nacional. Há outros fatos que se repetem nas histórias: a pobreza, o machismo e a violência.

As histórias vão sendo contadas entrelaçadas, no meio dos nós outras são recordadas.  Todas se entrelaçam diretamente com a dela e indiretamente com a nossa. Selva passou anos com aquelas histórias ecoando em sua mente até ir atrás dos pontos, sem julgar diretamente os processos, mas garimpando histórias a fim de entender o que acontecia e trazer ao mundo a desvalorização na morte de uma mulher pelo seu gênero. A violência contra a mulher, seu corpo e sua vida são postas em jogo nos três casos e Selva nos conta um pouco de suas histórias, mas há outras tantas que passam por sua memória com histórias de violência presente no dia a dia, e outras tantas assassinadas tão cruelmente como Andrea, Maria Luísa e Sarita.

O livro nos traz a discussão do femínicio, da morte pelo gênero, do feminino, a importância social que esses crimes têm. Um livro que todos deveríamos ler e trazer nas discussões, e nos perguntarmos qual o valor da vida de uma mulher. As histórias nos fazem ainda permear pelo questionamento da sorte de estar viva sendo mulher. Não é uma questão simples, mas o que Selva diz é que qualquer mulher poderia ter passado o mesmo, em qualquer momento de sua vida.

Um livro essencial, eu diria. De um assunto abordado ainda sem grande abrangência ou discussão, mesmo sendo tão comum a todos. Leiam, leiam e leiam!


A autora: Selva é uma escritora contemporânea argentina. Nasceu em abril de 1973 na cidade de Entre Rios. Um dos principais nomes femininos da literatura argentina atual.

Norma

Norma – Sofi Oksanen

Um li

Norma foi um livro que me consumiu mais pela curiosidade do que pela narrativa em si. O enredo não chega a ser complexo, a história por vezes me pareceu confusa, mas é aquele livro gostosinho que te prende por algumas boas horas. Cheguei até ele sem querer, eu já queria ler algo da Sofi e algo da Finlândia e no meio de uma promoção da FNAC ele brilhou na prateleira e me arrisquei. Fazia algum tempo que eu precisava de um livro assim, só pela distração, depois da faculdade minhas leituras se tornaram tão obrigatórias que Norma foi um resgate a literatura sem obrigações pra mim.

O enredo conta a história de Norma logo após a morte de sua mãe, que se suicidou no metro de Helsinque. Em meio a um estranho que aparece no cemitério e a tentativa de descobrir o porquê do suicídio, Norma se envolve em uma rede grande de trafico de cabelos e clínicas de fertilização e precisa lidar como pessoas perigosas as quais a mãe havia se envolvido e estavam diretamente ligadas a sua morte. Parece em si uma história de mistério e quase um romance policial: buscas por pistas, histórias mal contadas, pessoas misteriosas, fatos estranhos; porém tons fantásticos tornam todo o enredo um pouco mais interessante: Norma e sua mãe guardam o segredo de que os cabelos de Norma crescem misteriosamente (1metro por dia) e variam de acordo com seu humor. A partir daí inicia uma trama mais interessante que mistura o passado e o presente, o efeito e a causa nas decisões e de certa maneira a vingança.

Um ponto que destaca o romance é a relação normalidade x anormalidade e a apresentação social do diferente. Sofi traz à tona a exploração do corpo alheio, o bizarro, a rejeição. Pontos que no passado afetaram diretamente no que Norma é hoje e que ainda precisa lidar, não só para se entender como também para se livrar dos problemas que a mãe lhe causou. Norma entende ao longo da narrativa que o mundo criado por sua mãe era repleto de mentiras e que ela própria era uma vítima daquela situação. Através de vídeos que sua mãe deixou gravados ela descobre a história do passado de sua família, da situação a qual sua mãe indiretamente a envolveu e principalmente a capacidade que ela própria tem.

Um livro gostoso de ler, fácil e rápido, em uma tarde ele pode ser devorado, apesar de alguns pontos serem bem tediosos de ler.  É um livro que a partir do meio se torna bastante previsível, mas nada disso estraga a história em si. O final, apesar de parecer um pouco confuso no sentido do desenrolar dos problemas, abre uma margem importante para explorar um futuro pós-final.


A autora: Sofi é uma escritora Finlandesa, nascida em 1977. Estou literatura e teatro e hoje é uma das principais vozes da escrita contemporânea da Finlândia.

Somos todos feministas

Somos todos feministas – Chimamanda Ngozi Adichie

Um livro pequeno e tão grande em nobreza e pontos e esclarecimento. Li em uma hora e meia, mas assim que fechei ele respirei fundo e pensei “que bom que temos pessoas como a Chimamanda”.

Uma mulher incrível, nigeriana e contemporânea. Esse livro é na verdade uma palestra que deu (e se bem me lembro num TED), e conta um pouco da sua vida e da situações de trauma que a fizeram entender como as mulheres eram “seres inferiores”, como eram menosprezadas e como todo esforço de uma mulher precisa ser o dobro para ser reconhecido. A partir daí ela conta sobre situações de discriminação de gênero e pequenos detalhes que são presentes no dia a dia e provam isso. Então explica o porquê que devemos todos sermos feministas e urgentemente batalharmos pela igualdade entre gêneros.

Não é bem um livro literário, mas é um livro necessário para nós em dias como hoje. Recomendadíssimo a leitura.


A autora: Chimamanda é uma escritora contemporânea nigeriana. Conhecida como uma das mais importantes escritoras jovens anglófonas e ajuda a dar atenção a literatura africana.

Léxico Familiar

Léxico Familiar – Natalia Ginzburg

Léxico familiar nos conta um pouco da história de Natalia e sua família, os Levi. Adentramos a sua casa, conhecemos sua família, os amigos, as falhas, os problemas e as pequenas alegrias que circundam essa família italiana. Suas lembranças são expostas e transportam-se no decorrer dos anos indo até o pós-guerra, conta das suas lembranças que se fragmentam perante os regimes totalitários e expõe os pormenores de uma família que precisa lutar e se libertar dos regimes opressores.

Os Levi não ficam em um único lugar no país, com um pai professor universitário e amante das montanhas, passam a infância ouvindo a mãe reclamar das mudanças e das distancias. Letrados, judeus (exceto a mãe, que é a única não-judia que a avó de Natalia aceitou com tal condição) e apoiadores da esquerda,os Levi nos deixam conhecer diferentes figuras importantes para a história e que fizeram parte do fluxo familiar e da vida de Natalia.

Minimalista, como é classificado por tantos, mas de um envolvimento absurdo, nas primeiras páginas já somos parte dessa família de cinco filhos, do qual Natalia é a mais nova e de pais tão singulares e aparentemente opostos. No decorrer do crescimento e o passar dos anos vamos chegando aos detalhes desse dia a dia: jantares, vizinhos, avó, viagens às montanhas, os ódios, amores, a mãe que esconde o quanto gasta, o pai que reclama e grita demais… A religião fica de certa forma ausente, mas a política é um fator importantíssimo que permeia pela família e a história toda. De Natalia só começamos a ver detalhes mais pro fim, o que deixa o livro distante de uma autobiografia.

A mágica do livro começa no título: Léxico. Nos estudos, o Léxico é o dicionário, o conjunto de vocábulos de uma língua. Mas aqui é o Léxico, um léxico familiar. Um livro tão singular como Natalia, que se casou com Leon Ginzburg, um judeu russo exilado, foi a primeira tradutora de Proust em Italiano, foi uma poderosa editora (que trabalhou inclusive com Italo Calvino) e que nunca abandonou sua posição política que foi formada em si desde pequena em uma família ligada ao movimento da esquerda e o comunismo.

É um livro de narrativa musical, de leitura leve apesar de o conteúdo, em muitas vezes, ser carregado.


A autora: Natalia é de Palermo, capital da Sicilia. Nascida em uma família judia. Durante anos trabalhou na editora Einaudi ao lado de Pavese e Calvino. É um dos grandes nomes femininos da literatura italiana.

A invenção de Morel

A invenção de Morel – Adolfo Bioy Casares

Um livro de 1940 quase nunca é tão fácil de descrever, um como A Invenção de Morel, parte essencial da literatura argentina, aclamado e obra mais conhecida de Bioy torna o processo ainda mais complicado. Um livro que carrega consigo a dificuldade de entendimento, uma quase surrealidade e uma responsabilidade grande foi um desafio maravilhoso e que entrou em minha vida para ser parte fundamental do meu desenvolvimento.

Um grande paradoxo. Difícil de entender, de engolir, descer. Apesar das poucas páginas -pouco mais de cem- somos inundados por uma maré de informações, fatos e angustias dentro do livro. Se você assistiu Dark (a série alemã) ou alguns episódios de Black Mirror vai conseguir fazer analogias e ligações claustrofóbicas do labirinto que o livro te leva. Se não assistiu, não tem qualquer problema. O labirinto é o mesmo, aquele que questiona nossa fragilidade perante o mundo e as nossas certezas.

A história é feita em -quase- em um formato de diário, parece mais um caderno de relatos para um futuro. Nele o narrador conta sobre sua chegada na ilha, um fugitivo da justiça venezuelana condenado à prisão perpétua que busca manter sua liberdade e para isso escolhe se prender em uma ilha aparentemente deserta. Os primeiros dias no lugar ele passa sozinho reconhecendo o campo, o lugar e as possibilidades, mas quando menos se imagina surgem pessoas. Se alimentando de raízes, cansado e já um pouco fora de si, ele está certo de que vieram captura-lo e fica confuso sobre como elas chegaram até ali, ele passa a observa-las e a tentar entender quem são. Uma dessas pessoas, Faustine, se torna a paixão daquele solitário homem, que buscando fugir da prisão prende-se a uma ilha vazia e desconhecida. A aproximação é lenta, ocorrida por fatos estranhos que vão percorrendo a história, inexplicáveis situações aparecendo e nos questionamos o que daquilo é loucura e o que é verdade.

A aproximação finaliza com a descoberta da invenção de Morel, uma máquina imortalizadora. Começa um segundo processo, de entender o funcionamento, de se fazer parte daquilo. Se eu contar mais, vou acabar contando o livro todo, então paro por aqui.

Envolto por questionamentos atuais que mexem com nossos conceitos, esse pequeno grande livro merece a leitura. Não uma, inclusive, apesar de não parece, ele tem uma complexidade rica. Já começa com um prefácio de Borges e traz pra nós uma qualidade absurda da literatura argentina.

O autor: Argentino, morto em 1999, é conhecido por sua narrativa em mundos fantasmagóricos, de uma lógico peculiar e marcado por um realismo verossimilhante. Foi um grande amigo de Borges e é parte essencial da literatura argentina.

Pauliceia Desvairada

Pauliceia Desvairada

Mario de Andrade

A autora: Mario de Andrade é um autor brasileiro, foi um dos pioneiros na literatura modernista e uma grande referência (inclusive, muito estudado nos vestibulares).Nasceu em São Paulo em 1893 e morreu, na mesma cidade, no ano de 1945.

Resenha: Comecei a recomendação de livros pra faculdade desse semestre ainda nas férias. Pauliceia comecei a ler -quase que propositalmente, mas embalado por uma certa coincidência- no dia 25 de Janeiro, aniversário da cidade de São Paulo. Apesar de já ter visto vagamente o livro e o tema na escola, depois de anos fora, precisei dar uma recuperada. Pauliceia foi publicada em 1922, semana de arte moderna e que mudou os padrões a visão brasileira de arte. Mario de Andrade rompeu radicalmente com suas obras anteriores e nessa faz uma analise da cidade e da sociedade paulistana. A cidade começava um processo intenso de industrialização, deixando de lado a vida rural. O cenário é descrito por Mario em seus poemas, descrevendo pessoas, lugares e o movimento que a cidade passava. Além da questão social e crítica dos poemas, ressalto a mudança estética e estrutural da forma poética (e na época de grandes vertentes da arte). Um dos poemas mais conhecidos é Ode ao Burgues.

Eu recomendo a leitura para todos. É um livro de rompimento histórico e social, porém, se você é de São Paulo (ou conhece/mora na cidade), vai ter um encanto diferente por cada um dos poemas. São uma delícia de ler e ainda tem um prefácio maravilhoso cheio de pensamentos e de explicações. Como é pra faculdade a leitura, com certeza precisarei reler e terei novas analises pra compartilhar!