O carteiro e o poeta

O carteiro e o poeta

Antonio Skármeta

O autor: Skármeta, assim como eu, nasceu em um 7 de novembro. Ele é do ano de 1940. É um escritor Chileno e ganhou diversos prêmios na literatura.

Sinopse*: Sucesso também no cinema, esta novela tem como cenário o refúgio de Pablo Neruda em Ilha Negra, no Chile. Narra a amizade do carteiro Mario Jiménez com o poeta, e como nasce a admiração pelas poesias e a cumplicidade entre os dois, até a morte de Neruda.

Resenha: E 2018 começou repleto de leitura, né? Terceira que eu trago pro blog esse mês e estou muito feliz com isso!  Já fazia muito tempo que eu queria ler esse livro e tomei coragem agora nessas férias. Cheio de poesia e com uma leitura bem fluída, chegamos a vida do carteiro que aos 17 anos consegue o emprego de carteiro (algo que ninguém queria) e se deslumbra com a possibilidade de poder conhecer Neruda (seu vizinho).

Começa em um trabalho de entrega de carta, mas além de se conhecerem, vai fluindo pra uma amizade que Mario – o carteiro- leva para a vida toda. Amizade essa que começa com o pedido de Mario para aprender a fazer metáforas no objetivo de conquistar uma moça. Vemos essa amizade inclusive transformar Mario de outras maneiras, acompanhamos sua evolução pessoal e intelectual ao longo da narrativa. Anos dessa vivência são contados e o envolvimento do poeta -além da história dele também- fazerem parte do todo.

No livro da pra se entender também um pouco da questão política no Chile e como a influência dessa política transforma o local, seus moradores e o próprio poeta. O próprio Neruda é parte dessa política que leva o poeta a ser um possível candidato à presidência do país e transcorre até o momento que ele é cercado dos tanques de exército.

É um livro pequeno, de leitura gostosa e com uma prosa muito bonita. Recomendado!

* (sinopse do Skoob)
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Meu primeiro ano na Letras

Em 2017 um dos meus sonhos se realizou: passei no curso de Letras da USP!

Esse sonho já era antigo, mas só consegui realizar ele nesse ano de 2017. Eu queria estudar literatura, língua e viver disso. Escrever, fazer oficinas de escrita criativa e criar esse blog foi parte desse sonho também. E agora, estudando Letras pude finalmente chegar mais no fundo desse sonho e o post de hoje é pra contar desse primeiro ano estudando Letras.

O primeiro ano é o ano base da Letras, onde temos quatro matérias que nos introduzem a esse mundo. Claro que ainda é tudo introdutório, porém temos uma imersão bem grande nas matérias e leituras (literárias e técnicas) que nos levam de uma maneira bem intensa a começar os estudos. Nunca imaginei que seria tão intenso e maravilhoso como foi.

A primeira matéria que foi pra mim uma surpresa agradável foi a Introdução aos Estudos Clássicos. Imaginei tão pouco sobre ela, mas essa matéria entrou em uma das favoritas da vida. Estudamos basicamente Grécia e Roma e as produções literárias deles. Começamos com Grécia e aqui tem o que já conhecemos (antes de entrar na Letras): Ilíada e Odisseia. Mas não só lemos os livros, que no seu original eram orais e não escritos, mas estudamos um pouco mais a fundo cada um deles, fazendo até ligações e análises de Homero como um todo. Também nessa matéria que lemos, tanto no primeiro quanto no segundo semestre, a Poética do Aristóteles. Tivemos a Poética de Horácio, mas a base dos estudos foi Aristóteles. E por fim no primeiro semestre também tivemos uma épica latina, Eneida. Tivemos alguns outros textos paralelos, mas todos girando em torno da análise poética e a significância delas, além de estudar mais a fundo as suas relações e a imitação. No segundo semestre os ensinamentos do primeiro vieram conosco, principalmente as referencias dos dois grandes nomes de Homero e Vigílio, porém estudamos retórica, comédia, tragédia, oratória e diálogos, focando em autores como Platão, Cícero, Ésquilo, Aristóteles, Górcias e alguns outros mais filósofos e tragediógrafos gregos e romanos. Lemos obras como Em defesa do Poeta Arquias, Fedro, Sete contra Tebas e Édipo Rei. Aqui também estudamos a relação deles, as imitações, os textos e aprofundamos em cada um deles. A importância aqui é entender principalmente as origens, nossas e da literatura que hoje produzimos e lemos. Claro que não são leituras fáceis, porém, esses autores e textos precisam ser estudados por todos nós.

Outra das matérias que me surpreendeu e inclusive me fez querer a formação também em Português foi Introdução aos Estudos de Língua Portuguesa. Diferente do que se imagina, não aprendemos gramática, isso já é algo que deve vir conosco, além disso não é o foco da USP forma apenas gramáticos, mas estudiosos da língua. Aprendemos sobre variação, sobre texto oral e escrito, sobre dialetos e história da língua. É maravilhoso, me fez ver e amar a nossa língua de uma maneira que não imaginei ser possível. Aqui temos contato com autores como Pretti, Castilho, Basso e Jubran. Aprendi muito sobre as variantes e variações da língua, sobre, principalmente, preconceito linguístico. E apesar de não ter gramática, aprendi também sobre gramática e alguns termos técnicos. O mais legal nessas matérias foram os trabalhos, nos dois semestres, onde fizemos transcrição de áudios. Podemos aqui entender muito mais dos processos da língua, fala e organização. Graças aos ótimos professores que tive, optei por seguir na  habilitação em português pra aprender ainda mais sobre nossa língua, que é tão rica e linda.

Já Elementos da Linguística foi uma matéria que me deixou bem desolada. Era a que eu mais aguardava, pois a habilitação de Linguística era a que eu almejava, mas os dois semestres foram bem ruins -pra mim- e me fizeram desistir da habilitação. Mas linguística, a ciência que estuda as línguas, é maravilhosa, e estudamos ela em todos as línguas, só optei por não seguir exclusivamente nesse estudo. Mesmo com a experiência ruim, foi ótimo entender mais de fonética, fonologia, semiótica, semântica, pragmática e todas as outras frentes de segmentação para estudo de línguas. Focamos em 2 livros principais, com textos de vários autores e organizados pelo Fiorin, um dos professores da própria USP. A base que se leva aqui é ótima pra entender de maneira mais técnica todos os precedentes da língua. Você estuda alguns detalhes tão a fundo, que mesmo parecendo óbvios depois, são desapercebidos quando não estudamos.

Por fim, mas não menos esperada ou importante, a matéria de Estudos Literários. No primeiro semestre estudamos poesia, aprendi tanto sobre estrutura de poesia, história e análise. Eu, mesmo envolvida com a literatura, não fazia ideia da imensidão que poesia tinha e sua complexidade. Meu professor focou em Drummond e durante o semestre lemos muitas poesias dele e fizemos 2 trabalhos (estão aqui no Blog também), lemos também algumas outras: Sonetos de Shakespeare, Goethe, Manuel Bandeira e alguns poetas contemporâneos. Para as leituras teóricas tivemos muito Antonio Candido, mas também tivemos Rosenfeld, Jackobson, Bosi, Auerbach, Kayser e Adorno. Tudo isso pra aprender poesia, sua complexidade, suas analises, psicologia, história e estrutura. Já no segundo semestre nós tivemos prosa, mais precisamente conto e romance. Como base e análise para o trabalho final, lemos O Morro dos Ventos Uivantes, que coloquei aqui no blog também. Mas os contos todos foram focados principalmente em Machado de Assis. Em relação aos contos, lemos também Poe, Kafka, Clarice Lispector, Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Cortazar. Para os textos técnicos tivemos Antonio Candido, Pamuk, Carpeaux, Eagleton, Franco Moretti, Ian Watt, Claudio Magris, Walter Benjamin, Osman Lins, Friedman, Tomachevski e Modesto Carone. Devo dizer que, até entrar na USP eu achei que entendia de literatura e sabia fazer análises críticas, mas isso mudou radicalmente quando vi uma análise e com os trabalhos que tive que fazer. Senti que amadureci muito com isso, aprendi mais e abri minha cabeça de uma maneira única pra literatura (o que interferiu diretamente na minha escrita também).

Agora em 2018 entro no meu segundo ano, vou seguir com a habilitação em português e decidi como segunda língua Italiano. Um pouco pela literatura, outro ponto pelo meu desempenho nesse primeiro ano (a escolha da habilitação é de acordo com o número de vagas e sua classificação pela média ponderada do ano). Fora isso, inglês eu já sei, alemão estudei e ainda estudo um pouco. E por fim, Italiano é a língua da minha família, então tem um Q especial na escolha. Apesar das escolhas, meu objetivo é fazer como optativa matérias do maior número possível de literaturas (de cada habilitação) e as teóricas. Fora as matérias de tradução, que serão foco pra mim também, quero me aprofundar e fazer tradução literária.

O que posso afirmar é que estou amando adentrar esse mundo, cada aula é uma felicidade sem fim pra mim, cada aprendizado… As aulas e os trabalhos me pegaram uma boa parcela de tempo, e a desatualização do blog são a prova viva disso, mas meu crescimento pessoal e profissional tem sido maravilhosos. Muita coisa boa vem por aí.

Por que fazemos o que fazemos?

Por que fazemos o que fazemos?

Mario Sergio Cortella

O autor: Cortella é escritor, professor, educador e palestrando brasileiro, hoje sua fama vem principalmente da sua participação em programas e discussões sociais ligadas à filosofia contemporânea.

Sinopse*: Dividido em vinte capítulos, ele aborda questões como a importância de ter uma vida com propósito, a motivação em tempos difíceis, os valores e a lealdade – a si e ao seu emprego. O livro é um verdadeiro manual para todo mundo que tem uma carreira mas vive se questionando sobre o presente e o futuro.

Resenha: Um pouco diferente do que costumo ler, esse livro foi um presente de amigo secreto. Li rapidinho (em 2 dias) e resolvi trazer um pouco dele aqui também, afinal, é uma das leituras do ano. Começamos bem esse 2018 né?

Indo ao livro, Cortella traz aqui alguns temas referente ao trabalho e a felicidade. No meu atual momento profissional, foi ótimo ler o livro pra ter um direcional sobre: é o que quero? eu gosto do que faço? por que eu faço? qual meu propósito?

A partir daí, comecei a me questionar em alguns pontos, tentando entender onde quero chegar e até onde quero chegar. No livro também, entendemos até que ponto estamos sendo bons funcionários motivados e até onde somos trouxas. Não é só uma questão de motivação pessoal, mas as empresas também precisam entregar algo além de um salário em troca do nosso tempo. É uma via de duas mãos.

Se você se questiona sobre sua vida profissional, sobre sua empresa, sobre sua dúvida em relação ao que quer ou não, esse livro é super indicado. Inclusive se você tiver em um momento de angustia ou se questionando sobre sua capacidade e motivação.

 

(Sinopse do Skoob)

Neve

Neve

Orhan Pamuk

O autor: Pamuk é um escritor e professor de literatura na Universidade Columbia. Nasceu em Istambul em 1952. Ele venceu o Nobel de Literatura em 2006, o primeiro turco a conseguir o prêmio.

Sinopse*: Neve conta a história de Ka, poeta exilado na Alemanha, que viaja a uma pequena cidade turca sob o pretexto de investigar a onda de suicídios entre jovens muçulmanas que assola o vilarejo. Durante essa visita, uma nevasca bloqueia todas as estradas, insulando a cidade do resto do mundo. É nesse clima de isolamento que um veterano ator e sua mulher aproveitam para liderar um golpe militar. Embora tenha se distanciado da política há muitos anos, Ka é alçado a protagonista involuntário dessa revolução. Nada menos apropriado para um escritor cujos desejos são apenas registrar as poesias que lhe escapam há anos, mas que agora passam a fluir com extrema naturalidade, e se casar com Ìpek, antiga colega de escola. Mas o turbilhão provocado pelo golpe traz à tona a truculência das forças de segurança, antigos ajustes de contas e o radicalismo de alguns militantes islâmicos. Enquanto Ka tenta se equilibrar entre as diversas facções em choque, vê a cidade se tornar um microcosmo dos conflitos raciais, políticos e étnicos da Turquia, além de palco da sua tragédia pessoal.

Resenha: Neve foi o primeiro livro terminado de 2018, foi quase um ano entre começar e continuar sua leitura. Me interessei pelo livro/autor depois de em uma oficina de criação literatura eu descobrir o livro O Romancista Ingenuo e o Sentimental, e depois rever o livro na faculdade de Letras. Pois bem, depois de me encantar um pouco com a escrita e a maneira de ensinar escrita e literatura do Pamuk, corri para ler Neve, mas confesso tristemente, que foi uma pequena decepção. O livro não é de todo ruim, mas talvez minhas expectativas fossem altas demais.

O romance conta a história de Ka, um poeta turco exilado na Alemanha. Ele volta à Istambul devido a morte da mãe e aproveita para ir à Kars, sua cidade natal, para investigar -de maneira jornalistica- os suicídio por jovens muçulmanas. Assim que chega, Ka fica preso na cidade pois a neve bloqueia as estradas. Após começar sua investigação, Ka descobre que a questão do suicídio e a religião está muito mais profunda do que podia imaginar. O livro nos dá uma pequena aula sobre a religião num país que nem sempre temos acesso. São quase 500 páginas entre uma disputa de crenças e a discussão sobre mulheres cobrirem ou não suas cabeças. Há até mesmo um golpe militar na cidade. A neve é algo tão presente na cidade que sentimos o frio e o gelo que acoberta Kars e as pessoas. Até quem nunca viu neve, pode ter a sensação pela narrativa. Durante sua estadia na cidade, Ka volta a escrever poemas, coisa que não fazia há algum tempo, ele retoma suas origens e crenças.

Por fim, Ka também descobre o amor de Ipek, o que o ajuda na questão da escrita, porém, ela e a irmã estão envolvidas com a questão religiosa e política de uma intensa e acima do que ele poderia imaginar.

Apesar de toda a complexidade da história, a narrativa envolvente e o assunto de interesse, talvez as 500 páginas de livro tenham sido um exagero, e me fez chegar ao fim da leitura cansada e querendo que o livro acabasse logo.

Recomendo a leitura, pois o livro é bom, fala das complexidades de ser turco e a distancia com o ocidente, mas minha experiência com ele não foi das melhores.

(Sinopse do Skoob)

O Morro dos Ventos Uivantes

O morro dos ventos uivantes.

Emily Brönte


O autor:
 Inglesa, Emily Brönte viveu de 1818 a 1848. Dentre as irmãs Brönte ela é a que se tem menos informações, e de acordo com a própria irmã era uma pessoa reclusa.

Sinopse*: Na fazenda chamada Morro dos Ventos Uivantes nasce uma paixão devastadora entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino. Mas a união do casal é mais forte do que qualquer tormenta: um amor proibido que deixará rastros de ira e vingança. “Meu amor por Heathcliff é como uma rocha eterna. Eu sou Heathcliff”, diz a apaixonada Cathy.

O único romance escrito por Emily Brontë e uma das histórias de amor mais surpreendentes de todos os tempos, O Morro dos Ventos Uivantes é um clássico da literatura inglesa e tornou-se o livro favorito de milhares de pessoas, incluindo os belos personagens de Stephenie Meyer.

Resenha: O Morro Dos Ventos Uivantes foi um dos romances que li esse ano para fazer uma análise pra faculdade. Depois de um ano nessa luta por absorver e crescer literariamente, o romance foi parte de um trabalho de análise do qual precisei desenvolver esses conhecimentos. E a principal parte de fazer esse trabalho veio na maneira diferente de ler o livro, que depois de muito estudo pude entender. Eu já havia lido o livro há alguns bons anos, e pra mim, nada era muito novo na história e ela em si nem tinha nada demais. Porém, após entender um pouco mais de teoria e crítica literária, ler os textos de apoio e ter uma ajuda do professor, eu vi e reli um romance totalmente novo par mim. Essa resenha se torna especial por causa disso também. Cuidado que tem muitos spoilers a partir de agora.

O livro conta a história de dois lugares e seus moradores, no interior da Inglaterra, o Morro dos Ventos Uivantes e a Granja Thrushcross. A história é inclusive dividida, em tese, em duas partes. Na primeira, temos foco direcionado para a história de amizade e amor de Catherine e Heathcliff. Na segunda, temos alguns desenrolares da história e de certa maneira a finalização de um ciclo intenso. De uma estrutura cronológica linear na contagem da história e principalmente mais pro fim a segunda parte, a história é composta também por outras histórias, que seguem uma cronologia passada, mas linear. Já a narração pode ser comparada a uma caixa e a um jogo parecido com Matrioskas, a cada abertura uma nova narrativa e uma nova história dentro de cada narração. O ponto de vista é principalmente a visão de Nelly, uma das empregadas, então, sempre duvidosa uma vez que é sua opinião em centro. Apesar da inicial simplicidade, a história vem cheia de uma complexidade não só narrativa, mas psicológica. Ela conta a história do que aconteceu nas casas para um inquilino que chega à Granja. Parte da narrativa também é contada por ele.

No Morro, a família Earnshaw recebe -vindo com o pai- uma criança sem família e desemparada vinda de uma cidade portuária. Essa chegada mexe diretamente com a família que vivia até então bem. Os filhos não aceitam o rapaz, a esposa fica revoltada e os empregados ficam sem entender muito bem o papel daquele menino que chegava.  Heathcliff chega para mudar completamente a história daquela família. As coisas se acertam de certa maneira com o decorrer dos dias e a filha mais nova, Catherine, passa a ter uma amizade muito forte com o irmão adotivo. Já o irmão mais velho deixa claro que não o aceita de maneira alguma e inclusive mal trata o garoto. No decorrer das semanas a mãe falece e algum tempo depois o pai também. Com isso, Hindley, o irmão mais velho, assume a direção da casa. A vida de Heathcliff, que apesar de tudo já não era fácil, passa a ser pior. Em uma noite, fugindo do irmão, Heathcliff e Catherine chegam a Granja, a menina é mordida por um cachorro e precisa ficar na casa dos vizinhos. Ao voltar, está mudada. A Granja, casa que representa a calmaria e o “padrão” familiar, molda a menina de uma maneira única, a molecagem da garota ficou no Morro, local de caos e indisciplina. Sua volta é marcada por uma aproximação dos Linton, os moradores da Granja, e essa proximidade gera o segundo ponto de grande impacto na história: Catherine, ou Cathy, é pedida em casamento por Edgar, o primogênito dos Linton. Buscando uma espécie de salvação para Heathcliff pelo dinheiro da família Linton, em um dos diálogos mais enigmáticos da literatura (talvez um dos mais estudados), ela conta a empregada sobre o pedido e a aceitação, para salvar o amigo, que estava no canto ouvindo. Heathcliff foge após ouvir a declaração. Anos se passam e nesse meio tempo Cathy e Edgar casam e Hindley vai se afundando cada vez mais em dívidas e em bebidas. Nesse momento do romance, a Granja se torna ainda mais forte o lugar da boa convivência e das tradições, com a família composta por Cathy, Edgar e Isabela, irmã de Edgar. Enquanto no Morro só restam Hindley, seu filho e um empregado. Heathcliff volta rico, disposto a vingar-se de toda a humilhação que passou. Compra o Morro, faz de Hareton, filho de Hindley, uma espécie de empregado, ajuda no processo de adoecimento de Cathy ao brigar com Edgar e casa-se com a Isabela.

O livro, por si só, já trás personagens de grande impacto social e psicológico. Cathy e Heathcliff são um casal formado não é por circunstancias não aceitas socialmente –no período-, mas ultrapassam até mesmo a morte e invadem o imaginário local. Heahtcliff é um garoto que sofre os diferentes tipos de perturbações sociais, não possuí uma origem certa e vive a humilhação social de sua condição. As casas também são personagens importantes, símbolos de caos e calmaria, elas são essenciais para pontuar os momentos e a história.

O fim é também conturbado, apesar da aparente resolução de problemas. Inicialmente, um lado pode ser escolhido e a aparente paz estabelecida, mas o ponto é questionável.

Por fim, há elementos essenciais na história que nos trazem interpretações diversas, desde a psicologia ao social. O que meu professor pontuou em sala, e que me fez ler o livro de uma percepção diferente é a Janela. Há uma sempre envolvendo o relacionamento e a presença de Cathy e Heathcliff. Essa janela representa essa divisão entre eles. Quando Cathy aceita o pedido de casamento de Hindley a janela é fechada em um dia quente, porém quando Heathcliff volta, a janela é aberta em um da de neve e frio. Cathy morre em direção à janela, Heathcliff também. Depois de ver isso, passei inclusive a contar às janelas que apareciam na história. Mas esse ponto merece um aprofundamento.

Há ainda uma ligação importante sobre o momento histórico inglês, o fim do gótico e a passagem para o realismo, que pode também ser parte de uma leitura. Além é claro, da história da própria Emily.

Os textos de apoio que usamos para a leitura do romance, e esse aprofundamento na leitura, foi um do Terry Eagleton chamado The Bröntes, um da Sandra Gilbert e Susan Gubar chamado Looking Oppositely: Emily Brontë Bible Of Hell. Também tivemos alguns textos teóricos de estrutura de romance como Temática do Tomachévski e o Século Sério do Franco Moretti.

Recomendadíssima a leitura e inclusive a re-leitura, caso você tenha tido a mesma impressão que eu na primeira. Entrou na lista de livros favoritos. O Morro dos Ventos Uivantes é muito mais do que apenas uma história de um amor sem limites.

 

Museu – Wisława Szymborska

Voltando aos poucos com o blog, eis que umas das ganhadoras do Nobel chega para alegar esse fim de sábado chuvoso. De nome quase impronunciável (pra nós, adeptos a língua portuguesa) de uma lucidez poética única.

Ler poesia é essencial pra escrita, é ar, é vida. E volta aos sábados para nos inspirar.

Museu

Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezentos anos.

 

Há um leque — onde os rubores?

Há espadas — onde a ira?

e o alaúde nem ressoa na hora sombria.

 

por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias.

Um bedel bolorento tira um doce cochilo,

o bigode pendido sobre a vitrine.

 

metais, argila, pluma de pássaro

triunfam silenciosos no tempo.

só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do egito.

 

a coroa sobreviveu à cabeça.

a mão perdeu para a luva.

a bota direita derrotou a perna.

 

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

minha competição com o vestido continua.

e que teimosia a dele!

e como ele adoraria sobreviver!

Em 1996, a polonesa ganhou seu Nobel, era quase desconhecida. Teve obras bloqueadas pelo regime comunista. Mas como li em um ensaio da Revista Piauí, a poesia de Szymborska é pura e transparente como a água. E essa pureza nos choca. E temos em Museu uma clara crítica ao excesso e ao vazio que tentamos preencher com objetos. O sobreviver sobrepondo-se ao viver. Museu nos traz a realidade do fútil, tão presente em cada um de nós. Até quanto o ter vencerá o ser?

Machado, essencial para o que somos.

Machado de Assis é sempre um tabu. Há aqueles que o odeiam, outros o amam. Porém, um dos mestres da literatura brasileira tem muito a nos dizer e ninguém explicou direito isso pra gente.

Parte do ódio empregado as obras de Machado vêm da obrigatoriedade de leitura decorridas nos anos de ensino médio e vestibulares. Com uma linguagem bem distante da nossa, situações que hoje não fazem tanto sentido e uma infeliz cultura de distância literária faz isso conosco. Eu também passei por isso.

Fui obrigada a ler meu primeiro romance no ensino médio. Eu já lia bastante naquela época e curtia muito literatura (apesar de no período estar mais focada em Shakespeare). Mas ainda era uma jovenzinha sem grande bagagem cultural. Foi tão complicado ler aquele livro. Passei quase a não curtir literatura brasileira. Depois foram meses de vestibular e uma nova leitura obrigatória. Ninguém me explicava muito bem o que era, pra que era, nem nada que me fizesse gostar daquele homem ou seus livros. Anos depois reli algumas coisas, gostei do resultado final, mas nada me mostrava tanto a importância dele, apesar de eu entender já nesse ponto sua genialidade. Entrei então na faculdade e tava lá, pronto pra mim, a leitura de contos do Machado.

Ao ler o primeiro, minha bagagem adquirida nesses anos me fez gostar um pouco mais. Porém, foi só quando a leitura detalhada que o professor fez conosco que percebi a imensidão que é aquele homem e sua literatura. Fiquei primeiro besta, de nunca ter notado todos os detalhes apresentados na leitura dele, depois fiquei encantada com o mar de coisas que ele sempre tentou nos passar, que estavam ali embaixo daquela linguagem rebuscada que é difícil sim para os nossos dias, mas não é impossível. Eu me apaixonei por tudo o que ele tem a nos dar. Quero que um dia, todos possam sentir a imensidão que vem dele.

Entendi então o amor que as pessoas têm por ele, entendi porque dele ser obrigatório nas nossas vidas e ele precisa mesmo. Não concordo com a maneira como essa leitura de Machado nos é jogada goela abaixo, mas que todos deveríamos ler, é um fato. Talvez devessem nos ensinar de uma maneira diferente quem é e o que faz Machado por nós. Há tanta coisa para mudar no ensino de literatura, tanta coisa para melhorarmos como ser humano. Não tem como não ver Machado de Assis como parte dessas mudanças.

Considerando como ponto central do meu foco na faculdade nesse semestre, o estudo de literatura se abriu de uma maneira tão abrangente e clara que sinto a necessidade de reler e escrever tudo o que já fiz. Quero trazer mais dessas análises feitas em sala de aula, tanto de prosa quanto de poesia. Aguardem os próximos posts!

Dias de inverno

Nesse agosto chuvoso e frio fez-se 30 anos da morte de Drummond. A data passaria despercebida pra mim em meio a loucura que andam os dias, mas nesse 2017 ela se tornou mais especial do que eu jamais imaginaria.

O primeiro semestre acadêmico terminou, com ele e as aprovações, trouxe de volta Poema de Sábado com Drummond e meu trabalho sobre A Falta que Ama. Despretensiosa que alguém o leria, o julguei longo demais pra um blog, a surpresa viria nessa última quarta, dia 16. Através do formulário de contato aqui do blog uma mensagem chegou, solicitava meu e-mail pra envio de um presente. Fiquei ansiosa com aquilo, no mundo em que blogs e vlogs ganham muitas coisas eu cheguei a pensa: nossa, não achei que alguém fosse querer me dar um presente. Respondi com meu contato pessoal, não imaginando que o presente que ganharia não seria nada comum.

Eis então que durante minha volta do almoço recebo um e-mail. Ele iniciou com o título que dou a esse post: Dias de Inverno. Uma referencia direta ao que viria. Quem me mandou foi a Maga (como ela carinhosamente assina). Nele vinha sua pequena e emocionante história: assim como eu, mas num passado próximo, ela era uma estudante de letras que também precisou analisar A Falta que Ama (mas no seu caso, o livro todo). Nesse tempo, primavera de 1985, Drummond ainda vivo recebeu uma ligação dela (ele morava no Rio e alguns contatos a ajudaram a chegar até ele). Uma primeira conversa quase aula e uma permissão pra enviar-lhe uma carta com suas dúvidas. Foi então que a resposta chegou até ela:Altruísta e maravilhosa, meu presente era a cópia dessa carta. 30 anos após sua morte, era eu quem recebia um presente maravilhoso como esse e que, assim como pra ela, mudou muita coisa em mim. A Maga chegou até esse blog e consequente até mim enquanto preparava uma aula sobre Drummond, e como parte de uma atitude maravilhosa, ela compartilha essa carta com todos aqueles que se envolvem com Drummond. Nesse dia a escolhida fui eu. Nas palavras dela “Penso que essa carta é um documento literário, não posso ser egoísta com ela, sempre passo para as pessoas que por algum motivo se envolvem com o poeta.” .

O motivo pra ela fazer isso? Deixar Drummond cada vez mais vivo. E de fato ela o fez.

Fiquei horas pensando sobre a atitude dela, sobre a carta, sobre a preciosidade do momento. Perguntei, inclusive, se poderia fazer uma publicação sobre essa carta, e cá estou, contando um pouco da incrível atitude que ela toma e da felicidade que ainda sinto quando vejo essa carta. E termino essa postagem com a resposta da Maga:

Semeie Drummond o planeta está carente de poesia. Essa carta só tem sentido circulando, viva!!

Emergir

É noite de domingo, aqui no meu sofá parei pra pensar na avalanche de coisas que aconteceram nos últimos seis meses. Passei dois anos de reclusão, planejando e executando mudanças. Elas vieram, estão aqui rolando e remexendo o que nem eu pensei que elas fariam. Eu sempre digo, e repito aqui, que esse blog foi o primeiro passo das minhas mudanças. Lá em 2014 toda essa mudança começou com aquele primeiro post. Ainda tenho muito caminho a se fazer, mas aprendi também que cada dia com sua angustia.

A ausência, que eu tanto justifico aqui, foi necessária. E apesar das próximas mudanças (bem próximas), o blog voltará à ativa, ainda sem tantos textos, porque voltar a escrever é parte dos objetivos pra se organizar agora, mas tem tanta coisa pra dizer sobre a imersão literária dos últimos meses. Viva!

Dos leitores, o que mais quero é agradecer, pela presença aqui mesmo sem tanta atualização. Continuem aqui, vem bastante coisa por aí!

A falta que Ama – Drummond

Uma das coisas que mais fiz nesse semestre na faculdade foi analisar poemas. Tivemos aula sobre Drummond durante o semestre todo e o trabalho final não foi diferente. Como faz muito tempo que poema de sábado não vai ao ar, trago hoje A Falta que Ama e a analise que fiz sobre ele.

A FALTA QUE AMA

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

 

O poema A Falta que Ama foi publicado em 1968, sendo parte do livro que recebe o mesmo nome e é composto por 28 poemas nos quais quinze são de verso livre e os outros são metrificados. O livro é preenchido por um lirismo filosófico, realismo social e conotações metafísicas, como pontuado pela análise de Merquior em seu livro: Verso universo em Drummond. O autor diz ainda que de modo análogo, uma parte expressiva de A Falta que Ama celebra a imprevisível epifania do ser. Considerado dentro da dialética do eu x mundo como parte da visão do eu igual ao mundo. As obras de Drummond da fase de 70 e 80 são repletas dessas recordações, A Falta que Ama é inclusive lançado no mesmo ano que Boitempo, livro que traz muito das lembranças do poeta.

Quando analisamos especificamente o poema A Falta que Ama, chegamos a um poema composto em métrica de redondilha maior com sete sílabas poéticas, é um poema longo de vinte e oito versos. Possuí uma rima alternada em esquema A B A B em todas as estrofes, estabelecendo uma consistência sonora de homofonia final toante. Indo mais fundo nessa analise interpretativa do poema, podemos iniciar com uma passagem de Merquior sobre ele:

“Desejo é uma noção-chave no mundo lírico de A falta. O poema titular do livro (FQA, 144) alia precisamente o tema do oferecimento do ser (a “canção”) ao tema da falta que deseja (não é a definição platônica do amor?).”.

A Falta que Ama trata de um desejo, expresso já em seu título de organização sintática forte, e um possível arrependimento, marcado por tudo o que se poderia ter ou não ter vivido. É também uma espécie de aceitação do próprio destino e do fim a que se chegou. O jogo de palavras do título já exprime essa primeira sensação de perda, falta, arrependimento e busca. A dicção do título nos dá em um primeiro momento estranheza, a troca sintática das palavras e uma estranha sensação de falta de complemento.

Drummond rompe de certa maneira as regras sintáticas no título, que poderia ser “o amor que faltou” ou “o amor que se quis e não encontrou” nos dando uma pista mais concreta daquilo que quer dizer, mas ele é “a falta que ama”, e a inversão sintática nos leva a pensar se é a falta de amar ou algum amor que faltou em si. O título em principio nos tem uma sonoridade estranha, dando uma noção de falta de um sujeito que ama. Essa estranheza que nos prende a tentar decifrar quem ama e o que falta, mas esse entendimento só se fará concreto quando terminado o poema. O título também nos remete um sentimento de perda, o amar aquilo que agora entendemos como nos falta ou algo que não foi valorizado enquanto o tinha. Uma possível busca por entender algo que agora nos faz parte, seja factível ou não.

Analisando a primeira estrofe, no primeiro verso encontramos um lugar em que temos a sensação de ser amplo, composto apenas por areia, sol e grama, e apesar da sensação de abertura do lugar pela descrição, ele ainda assim nos remete a algo limitado. A descrição nos leva a um campo aberto, aparentemente sem sombra. Ainda obscuro para o entendimento inicial, mas que como parte do todo do poema pode nos remeter a um cemitério. Ou ainda esse lugar nos leve a um plano interior, um lugar vazio composto apenas de três pilares (talvez essenciais pra sua formação, mas apenas isso). É então seguido por três versos que falam indiretamente sobre o ter e não ter, nos remetendo a uma possível busca. No segundo verso há a afirmação de que nos esquivamos daquilo que damos a outras pessoas, uma constância em um processo de desviarmos de coisas ou sentimentos que não nos é importante ou essencial, mas que damos direta ou indiretamente aos outros em nosso convívio, talvez algo ríspido e que não queremos para nós próprios, mas damos àqueles que são parte de nossa vida. Um ato de egoísmo, onde não queremos algo para nós e nos esquivamos dele, mas entregamos aos demais. Paralelamente, no terceiro verso, complementar ao anterior e posterior nos leva como um todo a falta que o que o poeta tem de um determinado amor está sendo procurada em alguém que não há. Uma possível busca eterna por alguém/algo que não existe. Talvez uma busca por algo distante e não alcançável o que nos faz também ignorar aquilo que nos está dado e próximo, ou a perda de tempo por buscar algo que nos faltou. Aqui temos um desejo precedido por uma esquiva e uma busca aparentemente vazia. Em geral, nos três últimos versos dessa estrofe fala sobre nos esquivarmos daquilo que não nos é importante e isso respingar aos outros, dando a eles o que esquivamos de nós mesmo, enquanto a falta de amar, ou a falta de um amor puro e real nos faz buscar em vão alguém que não existe. Basicamente, buscando algo que achamos querer para complementar nossos próprios sentimentos, ignoramos aquilo que nos está presente e esquivando-nos da rejeição a damos a alguém que está próximo.

Na segunda estrofe somos contemplados com alguém sendo coberto por terra, o que é complementar ainda ao primeiro verso da primeira estrofe, moldando ainda mais o lugar amplo que foi descrito e temos a primeira ideia direta de um sepultamento/cemitério. Essa pessoa é então jogada no vazio do esquecimento, torrado, seco e o nada. O sepultar desse corpo o levará ao esquecimento, jogado o corpo em um lugar que lhe fará ser esquecido para os que ainda vivem. E esse esquecimento é aprofundado nos versos seguintes, onde, a visão daqueles ainda vivos se pegará apenas ao que está na superfície, à vista será focada apenas na flor (dália) depositada e crescendo ali em cima do cimento da sepultura, a única vida que teremos naquele lugar, nos remetendo mais uma vez ao esquecimento. A inexistência –ou a perda da memória- será ainda retomada nos versos à frente complementando aqui o sentido do esquecer.

De certa maneira, esse esquecimento é retomado já na terceira estrofe, mas com um tom diferente, voltado agora para onde todo ângulo obscuro é coberto de uma transparência durante aquele momento, um sentido de esquecimento do que se era quando vivo na hora de sua morte, seja um ângulo bom, mas principalmente um obscuro. Sendo que tudo ou parte do que se foi vivo, se é deixado à deriva no momento em que se está morto, só nos resta aquilo de não obscuro lembrado na hora da morte. No verso onze passamos pelas cantigas, típicas de sepultamentos interioranos, momento em que não há mais saída e consequentemente não se precisa mais implorar por nenhuma coisa praquele morto (perdão, saúde…) e não há também motivos para se rir. Uma estrofe que nos mostra os ritos de morte e o momento do enterro.

Indo para quarta estrofe, chegamos a um vácuo sepulcral do enterro, tendo ali uma visão mais forte do ser em processo de enterro, ele já não escuta mais os sons externos e nem mesmo o da poeira que corre em cima de si, ele é incapaz de ouvir a terra espalhada – pelo gesto de jogar punhados de terra em cima do caixão – que acontece fora dali, sendo essa terra espalhada por cima de si do caixão. E é então no décimo quinto e décimo sexto verso que o resumo da vida é fixado em um epitáfio, quando “A vida conta-se inteira, em letras de conclusão”, de toda uma vida, o que lhe restará será de lembrança será apenas aquelas palavras fixadas ali. Outra referencia ao esquecimento daquilo que quis ser em vida, dos pensamentos jogados à luz e caídos na deriva: só sobrará aquilo que foi colocado nas letras de conclusão, que se remete ao que sua vida foi, sua lembrança pelo que os outros se lembram ou associam a ele: um epitáfio e uma dália enfeitando o túmulo.

Vem então o desejo daquilo que não se viveu, a quinta estrofe trás as indagações ou as melancolias sobre a perda de tempo ou a não cura de muitas das dores que se teve. Em “nunca se escoa o tempo, chaga sem pus?” chegamos a uma dor não física, uma ferida de sentimento e que o tempo agora não mais valioso nunca levou embora. Nos primeiros versos vemos ainda uma indagação sobre os nossos pensamentos, a sua essência, que será jogado à toa. Temos então uma sensação de que o poeta tem medo de que tudo o que construiu através de suas ideias e pensamentos em vida tenham sido em vão, jogado em um vazio do esquecimento. Em sumo temos um desejo, um questionamento, sobre a herança intelectual e a dor que não é física que o tempo não retira, ou escoa, de si. Aqui podemos remeter novamente ao início do poema, em que a procura é por alguém que não há. Chaga é também um termo que remete a uma referência bíblica com “as chagas de Cristo”, e aqui Drummond pode indiretamente fazer uma referência a isso também, será que as chagas que teve em vida o salvariam em morte, apesar de sua chaga não ser física?

A última estrofe, inicialmente tão enigmática na poesia e parecendo, em uma primeira leitura, desligada do poema, mas parte essencial do entendimento, nos trás o renascer a partir da morte, uma última esperança. Inicialmente, temos um inseto petrificado em uma concha, uma referencia ao corpo, petrificado em seu caixão, já sem vida e logo sem movimentos e calor, preso nessa concha. É isso que no fim nos tornamos? O tédio do passado e da lembrança une-se ali ao futuro. No verso vinte e quatro faz referência à energia, que é a vida, no solo em que apesar de abrigar a morte, pode fazer brotar uma semente (passado e futuro), a vida onde se tem morte. Seguida de um questionamento sobre o recomeçar. Uma possível esperança na vida que ficará em seu lugar. Porém, ele ainda se questionada sobre o fato de todo esse sentimento ser a falta de algo vivido ou sobre sentir demais esse verbo amar.

De modo geral, o poema nos leva a um sepultamento, sendo o poeta aquele preso à sepultura e ao fim inevitável de sua vida. Com uma visão de quem está sendo enterrado, e aceitando, em parte, esse destino, ele nos trás seus medos pelo esquecimento de tudo o que suplantou com suas ideias e pode agora ser perdido em uma memória vazia sobre aquilo que foi, está ainda em uma busca final pra entender por ter vivido algo que não se viveu ou amado o que não se amou e sua pontada de fé na vida que nasce pela morte. A Falta que Ama pode ser ainda, assim como essa fase poética de Drummond uma recordação melancólica de tudo aquilo que não fez ou que fez demais. O poema é uma indagação sobre o esquecimento e o vazio daquilo que ele próprio foi. O medo, talvez, de uma lembrança sem importância de tudo aquilo que se é e foi.

Em Inquietudes na poesia de Drummond, de Antônio Candido, um dos temas analisados é justamente esse sufocamento e o sepultamento como parte de uma das inquietudes encontradas nas obras de Drummond, aonde em parte da poesia de Drummond chega a assumir a forma de morte antecipada, que parece não só em A Falta que Ama, mas em outros poemas do mesmo livro. Candido ainda pontua que:

“pode dar lugar à exumação do passado, transformando a memória numa forma de vida ou de ressureição.”.

A Falta que Ama trata justamente dessa memória, do medo dessa perda com os pensamentos jogados à luz, a ausência de som, o vácuo. O poema, e até o livro A Falta que Ama, trata da inquietude do medo, da morte e do vazio. A partir de Claro Enigma, essa aceitação do passado passa a ser parte da poesia de Drummond, e Antônio Candido pontua em seu texto que:

“(…) essa serenidade é também fruto de uma aceitação do nada -, da morte progressiva na existência de cada dia; da dissolução do objeto no ato poético até à negação da própria poesia.”.

Em A Falta que Ama há de certa maneira essa aceitação da morte e seu destino, mas há também a busca pela memória e o questionamento sobre a vida, o que se fez e faz. Retomando Merquior, que se refere ao livro como uma possível definição de amor platônico, pode-se considerar que a Falta que Ama é referente ao amor como virtude e sua vivencia ainda em vida, no seu mais puro amor, sobre aquilo que no fim nos fará falta, gerando então um possível arrependimento sobre aquilo que não foi amado no tempo certo, a falta que ama, talvez o sentir demais, e o buscar eterno pela pureza de um amor, aquela falta de ter vivido e vivenciado mais (ou demais) o verbo amar.

 

Se você chegou até aqui, parabéns! O texto é de fato grande e uma analise bem mais detalhada do que o padrão pra colocar aqui. Mas ela é importante pois consolida muito do que aprendi e de como evoluí nas leituras de poema. Quero voltar com Poema de Sábado, com analises mais profundas e melhor elaboradas, aproveitando tudo o que aprendi nesse primeiro semestre na Letras!