Museu – Wisława Szymborska

Voltando aos poucos com o blog, eis que umas das ganhadoras do Nobel chega para alegar esse fim de sábado chuvoso. De nome quase impronunciável (pra nós, adeptos a língua portuguesa) de uma lucidez poética única.

Ler poesia é essencial pra escrita, é ar, é vida. E volta aos sábados para nos inspirar.

Museu

Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezentos anos.

 

Há um leque — onde os rubores?

Há espadas — onde a ira?

e o alaúde nem ressoa na hora sombria.

 

por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias.

Um bedel bolorento tira um doce cochilo,

o bigode pendido sobre a vitrine.

 

metais, argila, pluma de pássaro

triunfam silenciosos no tempo.

só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do egito.

 

a coroa sobreviveu à cabeça.

a mão perdeu para a luva.

a bota direita derrotou a perna.

 

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

minha competição com o vestido continua.

e que teimosia a dele!

e como ele adoraria sobreviver!

Em 1996, a polonesa ganhou seu Nobel, era quase desconhecida. Teve obras bloqueadas pelo regime comunista. Mas como li em um ensaio da Revista Piauí, a poesia de Szymborska é pura e transparente como a água. E essa pureza nos choca. E temos em Museu uma clara crítica ao excesso e ao vazio que tentamos preencher com objetos. O sobreviver sobrepondo-se ao viver. Museu nos traz a realidade do fútil, tão presente em cada um de nós. Até quanto o ter vencerá o ser?

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Machado, essencial para o que somos.

Machado de Assis é sempre um tabu. Há aqueles que o odeiam, outros o amam. Porém, um dos mestres da literatura brasileira tem muito a nos dizer e ninguém explicou direito isso pra gente.

Parte do ódio empregado as obras de Machado vêm da obrigatoriedade de leitura decorridas nos anos de ensino médio e vestibulares. Com uma linguagem bem distante da nossa, situações que hoje não fazem tanto sentido e uma infeliz cultura de distância literária faz isso conosco. Eu também passei por isso.

Fui obrigada a ler meu primeiro romance no ensino médio. Eu já lia bastante naquela época e curtia muito literatura (apesar de no período estar mais focada em Shakespeare). Mas ainda era uma jovenzinha sem grande bagagem cultural. Foi tão complicado ler aquele livro. Passei quase a não curtir literatura brasileira. Depois foram meses de vestibular e uma nova leitura obrigatória. Ninguém me explicava muito bem o que era, pra que era, nem nada que me fizesse gostar daquele homem ou seus livros. Anos depois reli algumas coisas, gostei do resultado final, mas nada me mostrava tanto a importância dele, apesar de eu entender já nesse ponto sua genialidade. Entrei então na faculdade e tava lá, pronto pra mim, a leitura de contos do Machado.

Ao ler o primeiro, minha bagagem adquirida nesses anos me fez gostar um pouco mais. Porém, foi só quando a leitura detalhada que o professor fez conosco que percebi a imensidão que é aquele homem e sua literatura. Fiquei primeiro besta, de nunca ter notado todos os detalhes apresentados na leitura dele, depois fiquei encantada com o mar de coisas que ele sempre tentou nos passar, que estavam ali embaixo daquela linguagem rebuscada que é difícil sim para os nossos dias, mas não é impossível. Eu me apaixonei por tudo o que ele tem a nos dar. Quero que um dia, todos possam sentir a imensidão que vem dele.

Entendi então o amor que as pessoas têm por ele, entendi porque dele ser obrigatório nas nossas vidas e ele precisa mesmo. Não concordo com a maneira como essa leitura de Machado nos é jogada goela abaixo, mas que todos deveríamos ler, é um fato. Talvez devessem nos ensinar de uma maneira diferente quem é e o que faz Machado por nós. Há tanta coisa para mudar no ensino de literatura, tanta coisa para melhorarmos como ser humano. Não tem como não ver Machado de Assis como parte dessas mudanças.

Considerando como ponto central do meu foco na faculdade nesse semestre, o estudo de literatura se abriu de uma maneira tão abrangente e clara que sinto a necessidade de reler e escrever tudo o que já fiz. Quero trazer mais dessas análises feitas em sala de aula, tanto de prosa quanto de poesia. Aguardem os próximos posts!

Dias de inverno

Nesse agosto chuvoso e frio fez-se 30 anos da morte de Drummond. A data passaria despercebida pra mim em meio a loucura que andam os dias, mas nesse 2017 ela se tornou mais especial do que eu jamais imaginaria.

O primeiro semestre acadêmico terminou, com ele e as aprovações, trouxe de volta Poema de Sábado com Drummond e meu trabalho sobre A Falta que Ama. Despretensiosa que alguém o leria, o julguei longo demais pra um blog, a surpresa viria nessa última quarta, dia 16. Através do formulário de contato aqui do blog uma mensagem chegou, solicitava meu e-mail pra envio de um presente. Fiquei ansiosa com aquilo, no mundo em que blogs e vlogs ganham muitas coisas eu cheguei a pensa: nossa, não achei que alguém fosse querer me dar um presente. Respondi com meu contato pessoal, não imaginando que o presente que ganharia não seria nada comum.

Eis então que durante minha volta do almoço recebo um e-mail. Ele iniciou com o título que dou a esse post: Dias de Inverno. Uma referencia direta ao que viria. Quem me mandou foi a Maga (como ela carinhosamente assina). Nele vinha sua pequena e emocionante história: assim como eu, mas num passado próximo, ela era uma estudante de letras que também precisou analisar A Falta que Ama (mas no seu caso, o livro todo). Nesse tempo, primavera de 1985, Drummond ainda vivo recebeu uma ligação dela (ele morava no Rio e alguns contatos a ajudaram a chegar até ele). Uma primeira conversa quase aula e uma permissão pra enviar-lhe uma carta com suas dúvidas. Foi então que a resposta chegou até ela:Altruísta e maravilhosa, meu presente era a cópia dessa carta. 30 anos após sua morte, era eu quem recebia um presente maravilhoso como esse e que, assim como pra ela, mudou muita coisa em mim. A Maga chegou até esse blog e consequente até mim enquanto preparava uma aula sobre Drummond, e como parte de uma atitude maravilhosa, ela compartilha essa carta com todos aqueles que se envolvem com Drummond. Nesse dia a escolhida fui eu. Nas palavras dela “Penso que essa carta é um documento literário, não posso ser egoísta com ela, sempre passo para as pessoas que por algum motivo se envolvem com o poeta.” .

O motivo pra ela fazer isso? Deixar Drummond cada vez mais vivo. E de fato ela o fez.

Fiquei horas pensando sobre a atitude dela, sobre a carta, sobre a preciosidade do momento. Perguntei, inclusive, se poderia fazer uma publicação sobre essa carta, e cá estou, contando um pouco da incrível atitude que ela toma e da felicidade que ainda sinto quando vejo essa carta. E termino essa postagem com a resposta da Maga:

Semeie Drummond o planeta está carente de poesia. Essa carta só tem sentido circulando, viva!!

Emergir

É noite de domingo, aqui no meu sofá parei pra pensar na avalanche de coisas que aconteceram nos últimos seis meses. Passei dois anos de reclusão, planejando e executando mudanças. Elas vieram, estão aqui rolando e remexendo o que nem eu pensei que elas fariam. Eu sempre digo, e repito aqui, que esse blog foi o primeiro passo das minhas mudanças. Lá em 2014 toda essa mudança começou com aquele primeiro post. Ainda tenho muito caminho a se fazer, mas aprendi também que cada dia com sua angustia.

A ausência, que eu tanto justifico aqui, foi necessária. E apesar das próximas mudanças (bem próximas), o blog voltará à ativa, ainda sem tantos textos, porque voltar a escrever é parte dos objetivos pra se organizar agora, mas tem tanta coisa pra dizer sobre a imersão literária dos últimos meses. Viva!

Dos leitores, o que mais quero é agradecer, pela presença aqui mesmo sem tanta atualização. Continuem aqui, vem bastante coisa por aí!

A falta que Ama – Drummond

Uma das coisas que mais fiz nesse semestre na faculdade foi analisar poemas. Tivemos aula sobre Drummond durante o semestre todo e o trabalho final não foi diferente. Como faz muito tempo que poema de sábado não vai ao ar, trago hoje A Falta que Ama e a analise que fiz sobre ele.

A FALTA QUE AMA

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

 

O poema A Falta que Ama foi publicado em 1968, sendo parte do livro que recebe o mesmo nome e é composto por 28 poemas nos quais quinze são de verso livre e os outros são metrificados. O livro é preenchido por um lirismo filosófico, realismo social e conotações metafísicas, como pontuado pela análise de Merquior em seu livro: Verso universo em Drummond. O autor diz ainda que de modo análogo, uma parte expressiva de A Falta que Ama celebra a imprevisível epifania do ser. Considerado dentro da dialética do eu x mundo como parte da visão do eu igual ao mundo. As obras de Drummond da fase de 70 e 80 são repletas dessas recordações, A Falta que Ama é inclusive lançado no mesmo ano que Boitempo, livro que traz muito das lembranças do poeta.

Quando analisamos especificamente o poema A Falta que Ama, chegamos a um poema composto em métrica de redondilha maior com sete sílabas poéticas, é um poema longo de vinte e oito versos. Possuí uma rima alternada em esquema A B A B em todas as estrofes, estabelecendo uma consistência sonora de homofonia final toante. Indo mais fundo nessa analise interpretativa do poema, podemos iniciar com uma passagem de Merquior sobre ele:

“Desejo é uma noção-chave no mundo lírico de A falta. O poema titular do livro (FQA, 144) alia precisamente o tema do oferecimento do ser (a “canção”) ao tema da falta que deseja (não é a definição platônica do amor?).”.

A Falta que Ama trata de um desejo, expresso já em seu título de organização sintática forte, e um possível arrependimento, marcado por tudo o que se poderia ter ou não ter vivido. É também uma espécie de aceitação do próprio destino e do fim a que se chegou. O jogo de palavras do título já exprime essa primeira sensação de perda, falta, arrependimento e busca. A dicção do título nos dá em um primeiro momento estranheza, a troca sintática das palavras e uma estranha sensação de falta de complemento.

Drummond rompe de certa maneira as regras sintáticas no título, que poderia ser “o amor que faltou” ou “o amor que se quis e não encontrou” nos dando uma pista mais concreta daquilo que quer dizer, mas ele é “a falta que ama”, e a inversão sintática nos leva a pensar se é a falta de amar ou algum amor que faltou em si. O título em principio nos tem uma sonoridade estranha, dando uma noção de falta de um sujeito que ama. Essa estranheza que nos prende a tentar decifrar quem ama e o que falta, mas esse entendimento só se fará concreto quando terminado o poema. O título também nos remete um sentimento de perda, o amar aquilo que agora entendemos como nos falta ou algo que não foi valorizado enquanto o tinha. Uma possível busca por entender algo que agora nos faz parte, seja factível ou não.

Analisando a primeira estrofe, no primeiro verso encontramos um lugar em que temos a sensação de ser amplo, composto apenas por areia, sol e grama, e apesar da sensação de abertura do lugar pela descrição, ele ainda assim nos remete a algo limitado. A descrição nos leva a um campo aberto, aparentemente sem sombra. Ainda obscuro para o entendimento inicial, mas que como parte do todo do poema pode nos remeter a um cemitério. Ou ainda esse lugar nos leve a um plano interior, um lugar vazio composto apenas de três pilares (talvez essenciais pra sua formação, mas apenas isso). É então seguido por três versos que falam indiretamente sobre o ter e não ter, nos remetendo a uma possível busca. No segundo verso há a afirmação de que nos esquivamos daquilo que damos a outras pessoas, uma constância em um processo de desviarmos de coisas ou sentimentos que não nos é importante ou essencial, mas que damos direta ou indiretamente aos outros em nosso convívio, talvez algo ríspido e que não queremos para nós próprios, mas damos àqueles que são parte de nossa vida. Um ato de egoísmo, onde não queremos algo para nós e nos esquivamos dele, mas entregamos aos demais. Paralelamente, no terceiro verso, complementar ao anterior e posterior nos leva como um todo a falta que o que o poeta tem de um determinado amor está sendo procurada em alguém que não há. Uma possível busca eterna por alguém/algo que não existe. Talvez uma busca por algo distante e não alcançável o que nos faz também ignorar aquilo que nos está dado e próximo, ou a perda de tempo por buscar algo que nos faltou. Aqui temos um desejo precedido por uma esquiva e uma busca aparentemente vazia. Em geral, nos três últimos versos dessa estrofe fala sobre nos esquivarmos daquilo que não nos é importante e isso respingar aos outros, dando a eles o que esquivamos de nós mesmo, enquanto a falta de amar, ou a falta de um amor puro e real nos faz buscar em vão alguém que não existe. Basicamente, buscando algo que achamos querer para complementar nossos próprios sentimentos, ignoramos aquilo que nos está presente e esquivando-nos da rejeição a damos a alguém que está próximo.

Na segunda estrofe somos contemplados com alguém sendo coberto por terra, o que é complementar ainda ao primeiro verso da primeira estrofe, moldando ainda mais o lugar amplo que foi descrito e temos a primeira ideia direta de um sepultamento/cemitério. Essa pessoa é então jogada no vazio do esquecimento, torrado, seco e o nada. O sepultar desse corpo o levará ao esquecimento, jogado o corpo em um lugar que lhe fará ser esquecido para os que ainda vivem. E esse esquecimento é aprofundado nos versos seguintes, onde, a visão daqueles ainda vivos se pegará apenas ao que está na superfície, à vista será focada apenas na flor (dália) depositada e crescendo ali em cima do cimento da sepultura, a única vida que teremos naquele lugar, nos remetendo mais uma vez ao esquecimento. A inexistência –ou a perda da memória- será ainda retomada nos versos à frente complementando aqui o sentido do esquecer.

De certa maneira, esse esquecimento é retomado já na terceira estrofe, mas com um tom diferente, voltado agora para onde todo ângulo obscuro é coberto de uma transparência durante aquele momento, um sentido de esquecimento do que se era quando vivo na hora de sua morte, seja um ângulo bom, mas principalmente um obscuro. Sendo que tudo ou parte do que se foi vivo, se é deixado à deriva no momento em que se está morto, só nos resta aquilo de não obscuro lembrado na hora da morte. No verso onze passamos pelas cantigas, típicas de sepultamentos interioranos, momento em que não há mais saída e consequentemente não se precisa mais implorar por nenhuma coisa praquele morto (perdão, saúde…) e não há também motivos para se rir. Uma estrofe que nos mostra os ritos de morte e o momento do enterro.

Indo para quarta estrofe, chegamos a um vácuo sepulcral do enterro, tendo ali uma visão mais forte do ser em processo de enterro, ele já não escuta mais os sons externos e nem mesmo o da poeira que corre em cima de si, ele é incapaz de ouvir a terra espalhada – pelo gesto de jogar punhados de terra em cima do caixão – que acontece fora dali, sendo essa terra espalhada por cima de si do caixão. E é então no décimo quinto e décimo sexto verso que o resumo da vida é fixado em um epitáfio, quando “A vida conta-se inteira, em letras de conclusão”, de toda uma vida, o que lhe restará será de lembrança será apenas aquelas palavras fixadas ali. Outra referencia ao esquecimento daquilo que quis ser em vida, dos pensamentos jogados à luz e caídos na deriva: só sobrará aquilo que foi colocado nas letras de conclusão, que se remete ao que sua vida foi, sua lembrança pelo que os outros se lembram ou associam a ele: um epitáfio e uma dália enfeitando o túmulo.

Vem então o desejo daquilo que não se viveu, a quinta estrofe trás as indagações ou as melancolias sobre a perda de tempo ou a não cura de muitas das dores que se teve. Em “nunca se escoa o tempo, chaga sem pus?” chegamos a uma dor não física, uma ferida de sentimento e que o tempo agora não mais valioso nunca levou embora. Nos primeiros versos vemos ainda uma indagação sobre os nossos pensamentos, a sua essência, que será jogado à toa. Temos então uma sensação de que o poeta tem medo de que tudo o que construiu através de suas ideias e pensamentos em vida tenham sido em vão, jogado em um vazio do esquecimento. Em sumo temos um desejo, um questionamento, sobre a herança intelectual e a dor que não é física que o tempo não retira, ou escoa, de si. Aqui podemos remeter novamente ao início do poema, em que a procura é por alguém que não há. Chaga é também um termo que remete a uma referência bíblica com “as chagas de Cristo”, e aqui Drummond pode indiretamente fazer uma referência a isso também, será que as chagas que teve em vida o salvariam em morte, apesar de sua chaga não ser física?

A última estrofe, inicialmente tão enigmática na poesia e parecendo, em uma primeira leitura, desligada do poema, mas parte essencial do entendimento, nos trás o renascer a partir da morte, uma última esperança. Inicialmente, temos um inseto petrificado em uma concha, uma referencia ao corpo, petrificado em seu caixão, já sem vida e logo sem movimentos e calor, preso nessa concha. É isso que no fim nos tornamos? O tédio do passado e da lembrança une-se ali ao futuro. No verso vinte e quatro faz referência à energia, que é a vida, no solo em que apesar de abrigar a morte, pode fazer brotar uma semente (passado e futuro), a vida onde se tem morte. Seguida de um questionamento sobre o recomeçar. Uma possível esperança na vida que ficará em seu lugar. Porém, ele ainda se questionada sobre o fato de todo esse sentimento ser a falta de algo vivido ou sobre sentir demais esse verbo amar.

De modo geral, o poema nos leva a um sepultamento, sendo o poeta aquele preso à sepultura e ao fim inevitável de sua vida. Com uma visão de quem está sendo enterrado, e aceitando, em parte, esse destino, ele nos trás seus medos pelo esquecimento de tudo o que suplantou com suas ideias e pode agora ser perdido em uma memória vazia sobre aquilo que foi, está ainda em uma busca final pra entender por ter vivido algo que não se viveu ou amado o que não se amou e sua pontada de fé na vida que nasce pela morte. A Falta que Ama pode ser ainda, assim como essa fase poética de Drummond uma recordação melancólica de tudo aquilo que não fez ou que fez demais. O poema é uma indagação sobre o esquecimento e o vazio daquilo que ele próprio foi. O medo, talvez, de uma lembrança sem importância de tudo aquilo que se é e foi.

Em Inquietudes na poesia de Drummond, de Antônio Candido, um dos temas analisados é justamente esse sufocamento e o sepultamento como parte de uma das inquietudes encontradas nas obras de Drummond, aonde em parte da poesia de Drummond chega a assumir a forma de morte antecipada, que parece não só em A Falta que Ama, mas em outros poemas do mesmo livro. Candido ainda pontua que:

“pode dar lugar à exumação do passado, transformando a memória numa forma de vida ou de ressureição.”.

A Falta que Ama trata justamente dessa memória, do medo dessa perda com os pensamentos jogados à luz, a ausência de som, o vácuo. O poema, e até o livro A Falta que Ama, trata da inquietude do medo, da morte e do vazio. A partir de Claro Enigma, essa aceitação do passado passa a ser parte da poesia de Drummond, e Antônio Candido pontua em seu texto que:

“(…) essa serenidade é também fruto de uma aceitação do nada -, da morte progressiva na existência de cada dia; da dissolução do objeto no ato poético até à negação da própria poesia.”.

Em A Falta que Ama há de certa maneira essa aceitação da morte e seu destino, mas há também a busca pela memória e o questionamento sobre a vida, o que se fez e faz. Retomando Merquior, que se refere ao livro como uma possível definição de amor platônico, pode-se considerar que a Falta que Ama é referente ao amor como virtude e sua vivencia ainda em vida, no seu mais puro amor, sobre aquilo que no fim nos fará falta, gerando então um possível arrependimento sobre aquilo que não foi amado no tempo certo, a falta que ama, talvez o sentir demais, e o buscar eterno pela pureza de um amor, aquela falta de ter vivido e vivenciado mais (ou demais) o verbo amar.

 

Se você chegou até aqui, parabéns! O texto é de fato grande e uma analise bem mais detalhada do que o padrão pra colocar aqui. Mas ela é importante pois consolida muito do que aprendi e de como evoluí nas leituras de poema. Quero voltar com Poema de Sábado, com analises mais profundas e melhor elaboradas, aproveitando tudo o que aprendi nesse primeiro semestre na Letras!

Odisseia

Odisseia

Homero


O autor:
 Homero foi um poeta da Grécia antiga. Foi o criador das histórias Ilíada e Odisseia. Há diversas teorias sobre ele, e muitos estudiosos contemporâneos não acreditam na sua existência, mas resumidamente, Homero era um aedo (um artista da Grécia que cantava os épicos) e era um poeta cego. No século VIII a.C. houve um registro desses poemas épicos por alguém chamado Homero, e no século VII a.C. ele já era conhecido e havia muito questionamento sobre ele, mas foi no século VI a.C. que uma primeira edição foi feita, e em festas anuais era lido. Por fim, no século III a.C. chega a Biblioteca de Alexandria os possíveis originais que foram editados pelos bibliotecários. Se lemos o Homero original? Não, pelo fato de toda a transformação que um poema oral do século VIII a.C. sofreu, mas há registros de um aedo chamado Homero.

Sinopse*: “Odisseia” é uma narração que nos leva à Grécia de 3.000 anos atrás.Uma fantástica historia de aventura, onde Ulisses, rei da ilha de Ítaca, sai a combate na guerra de Tróia e luta ao lado do poderoso Aquiles.
Todos voltam para o seus lares depois da guerra, mas os deuses assim não quiseram para Ulisses, que então passa a vagar vinte anos pelos mares da Grécia.
Em sua longa viagem, ele se depara com monstros, sereias, feiticeiros e deuses que assumem a forma humana.
Durante esses vintes anos longe de Ítaca, a sua querida esposa Penélope sofre pelo seu marido e somente sobrevive por causa de seu filho Telêmaco e pela esperança de que Ulisses um dia volte e se vingue de todos os pretendentes de sua mão e que constantemente maquinam o assassinato de Telêmaco antes que esse assuma o trono.
Ajudado pela deusa Palas Atena ,filha de Zeus, Ulisses volta para o seu lar na forma de um mendigo, ninguém desconfia que tal mendigo seja Ulisses e passam a tratá-lo mal.
Com a ajuda da deusa Atena e de seu filho Telêmaco, Ulisses mata a todos os devoradores de sua casa e também aos servos infiéis.

Resenha: Odisseia foi meu favorito entre as épicas gregas. Aqui é narrado a história do retorno de Odisseu (ou Ulisses) pra casa, a ilha de Itaca.

Odisseu também luta na guerra de Troia e é ele, inclusive, que tem a ideia de montar o cavalo de Troia para conseguir adentras aos muros da cidade. Odisseu era astuto, o inteligente o polytropos. Ele foi um herói de palavra, e diferente de Aquiles (em Ilíada) ele foi pra guerra e voltou pra casa. Sabia se esquivar e andava praticamente as escondidas. Ele demora 20 anos pra retornar e nesse caminho passa por diferentes aventuras, inclusive, muitas delas ainda retratadas na literatura ocidental, como quando ele é amarrado no barco para ouvir o canto das sereias e não ser levado pelo encanto delas.

Ulisses também não queria ir pra guerra e se finge de doido, tentando se esquivar de Agamenon e Menelau, mas é descoberto e vai, mesmo contra vontade. Odisseu, apesar de contrariado é o grande herói que consegue a proeza de chegar a Troia e ajudar na derrota do inimigo. Para ir à guerra ele deixa o filho a esposa Penélope.

É na Odisseia que descobrimos também sobre a morte de Aquiles, que na Ilíada não é narrada. Odisseu vai a terra dos mortos em um dos cantos e lá conversa com a alma de Aquiles.

Mas a importância da Odisseia é única. Sua escrita foi imitada por outras diferentes clássicas escritas (Eneida, Os Lusiadas, entre outras, e é aqui também que “começa” a teoria sobre a maquina do mundo). A sequencia do retorno, começando com a tempestade que tem que enfrentar por ter matado um Ciclope e gerado a raiva de Poseidon é uma cena imitada inúmeras vezes e de fundamental importância pra literatura ocidental. Apesar de seu retorno ter sido lendo por vontade dos deuses, Odisseu também tem a ajuda de vários deles, e outras criaturas misticas, para seu retorno.

Assim como Ilíada, a Odisseia é uma obra que precisa ser estudada a fundo. A muito na obra que precisa ser detalhado e visto com cuidado. Mas é recomendadíssimo, eu adorei ler e quero depois reler, pra tentar absorver ainda mais da leitura depois de tudo o que aprendi na aula. Pra quem quiser ler, as edições que recomendo são da tradução do Frederico Lourenço ou do Christian Werner (disseram que essa tradução é “difícil”, mas apesar das palavras por vezes não-comuns, não é tão difícil não).

(Sinopse do Skoobl)

Ilíada

Ilíada

Homero

O autor: Homero foi um poeta da Grécia antiga. Foi o criador das histórias Ilíada e Odisseia. Há diversas teorias sobre ele, e muitos estudiosos contemporâneos não acreditam na sua existência, mas resumidamente, Homero era um aedo (um artista da Grécia que cantava os épicos) e era um poeta cego. No século VIII a.C. houve um registro desses poemas épicos por alguém chamado Homero, e no século VII a.C. ele já era conhecido e havia muito questionamento sobre ele, mas foi no século VI a.C. que uma primeira edição foi feita, e em festas anuais era lido. Por fim, no século III a.C. chega a Biblioteca de Alexandria os possíveis originais que foram editados pelos bibliotecários. Se lemos o Homero original? Não, pelo fato de toda a transformação que um poema oral do século VIII a.C. sofreu, mas há registros de um aedo chamado Homero.

Sinopse*: Na Ilíada, Homero conta como a cidade de Tróia foi sitiada pelos aqueus, que desejavam recuperar Helena, esposa do rei espartano, Menelau, e raptada por Páris. No poema, Homero fornece várias pistas sobre a posição da planície de Tróia e no século I, o escritor grego Estrabão ampliou a descrição desta planície, que na época se chamava Nova Ilium. Esta obra é considerada a Bíblia da antiga Grécia, uma obra-prima. Os combates travados diante de Tróia, provocados pela ira de Aquiles por Agamenon, e as relações familiares atingidas pela guerra compõem um cenário vivo em cores e real nos sentimentos. O autor é representado pelos artistas gregos como um velho cego, que anda de cidade em cidade recitando seus versos.

Resenha: A primeira coisa que vale pontuar aqui é que o filme Tróia conta sim parte do que tem na Ilíada, mas o livro é relativamente diferente, e o filme não conta só com o que tem na Ilíada, mas junta com o que se tem de relato da Odisseia e parte do que acontece no filme, não acontece nos livros. Outro ponto importante é que Ilíada é um recorte da guerra de Tróia, são contados alguns dias dessa guerra e o foco é o Aquiles e sua cólera.

Aquiles, o Peleu, não quer participar da guerra, e o motivo é que ele e Agamenon não são amigos ou nada do tipo, pelo contrário. Aquiles chega a pedir pra sua mãe ajuda-lo a não ir lutar. Mas o grande motivador da ida de Aquiles é a glória que alcançaria. São feitas profecias e como bom guerreiro, ele opta pela glória eterna e a vida curta. Aquiles sabia que morreria (e não é spoiler quando é um livro escrito antes de Cristo!). Mas enfim Aquiles resolve ir a guerra e aí está sua cólera.

Outro ponto importante no livro é que os deuses adoram brincar com os humanos e se dividem entre gregos e troianos. Parte das coisas que acontecem na guerra é inclusive por causa dessa divisão entre os deuses. O livro, inclusive, começa com Apolo jogando uma praga nos Aqueos e com Aquiles chamando o conselho pra discutirem a questão.

Pois bem, Páris sequestra Helena (que é filha de Zeus e nasceu de um ovo, fruto do estupro que ele fez em sua mãe fingindo ser um cisne), e ela já nasce com o destino traçado. Páris ganha Helena de presente de Afrodite. Menelau, irmão de Agamenon, decide então atacar Troia e tem o apoio do irmão, que já lutava pelas conquistas da Grécia. Páris é o “acovardado” da família e como um não-guerreiro, diferente do seu irmão Heitor, é por vezes “zuado” na narrativa.

Na Ilíada, por contar esse sofrimento de Aquiles, não há a narração da sua morte, e o livro acaba com o rito funeral de Heitor, morto por Aquiles após a fúria que o tomou ao ver Patroclo, seu amigo, morto por Heitor.

A Ilíada, assim como outras épicas greco-romanas, são importantes por uma série de referencias e base literária pro ocidente. Claro que só ler não é o suficiente, mas entender a essência e as referencias são essenciais pro conhecimento da obra. Não da pra trazer tudo o que aprendi na leitura e na aula nesse post, mas acredito que com essa resenha inicial já de pra ter noção. Leiam, sério. Não é uma leitura fácil, já digo de bate pronto, mas é ótimo.

Foi nesse livro também que entendemos sobre tradução, e aprendi muito sobre a importância dela. Depois falo mais disso, em outro post, mas minha recomendação de leitura da Ilíada é a tradução do Frederico Lourenço.

(Sinopse do Skoobl)

Poética

Poética

Aristóteles

O autor:
 Aristóteles foi um filosofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre o Grande. É visto como um dos fundadores da filosofia ocidental.

Resenha: Pode parecer estranho a primeira vista essa resenha. E talvez seja mesmo. Mas Poética foi o primeiro livro lido na faculdade de Letras e quis trazer a importância dele pra cá. De maneira resumida, bem resumida na verdade, trago essa resenha.

Primeiro vamos ao termo Poética, que, apesar de parecer falar apenas sobre poema, fala na verdade sobre a literatura. Temos esse pequeno impasse linguístico no português, mas a poética fala sobre toda a produção literária claro que da época em que fez parte, mas que ainda é usada e como toda a produção grego-latina serve como referente ao atual também.

De maneira sucinta, a poética trás um pouco sobre os gêneros literários e a fundamentação do Mimesis, ou a imitação, algo que hoje pode parecer um problema (o tal plágio) não era visto assim na era antiga e inclusive, era considerado um privilégio e era base literária. A partir daí há uma analise e a explicação da subdivisão por modos, meios e objetos. Na poética temos também a linguagem, harmonia e ritmo.

Tem muito o que se falar sobre a poética e classificação dos gêneros e suas subdivisão, mas como o blog não é necessariamente sobre resenhas e estudo, achei melhor trazer essa pequena resenha, pra que, quando puder ou quem quiser, possam aprofundar no assunto.

O que mais tenho aprendido na matéria de clássicos é a importância de se estudar esses autores, pois eles foram essenciais (e as obras greco-romanas como um todo) para a formação da literatura ocidental atual, e com o caminho que quero seguir, acredito ter sido essencial pra minha formação, inclusive, como escritora.

TAG Março/17

Já estamos em abril, mas antes que a nova edição da TAG chegue, trouxe a de março pra compartilhar com vocês. As edições continuam lindas (mais do que eram no ano passado) superando minhas expectativas, inclusive, faz um ano que participo do clube. Além disso, as edições que estão vindo são todas exclusivas, tem vindo muita coisa e acredito que vai vir muito mais. As edições estão contemplando muitas edições que não chegam ao Brasil em novas edições há um tempo e nos trás autores quase desconhecidos aqui.

Essa edição de março nos trouxe o livro A câmara Sangrenta e outras histórias da Angela Carter. Uma das principais escritoras inglesas do século XX, ela trás nesse livro algumas histórias folclóricas (como chapeuzinho vermelho) contadas na versão das meninas desses livros, a visão da “princesinha”. Junto com o livro, recebemos marcadores de página de ímã lindos de algumas dessas fábulas.

 

Comecei a ler um dos livros que recebi o ano passado, mas não me encantou muito e tive que pausar o livro para começar a ler os livros da faculdade. Uma pena, mas esse livro de março entrou pra lista de livros pra se ler urgente.

E a vida, como anda?

A galopes!

Há quase um mês as aulas na USP começaram (mais diretamente, dia 13/03). Como eu já imaginava, elas têm consumido bastante da minha energia, uma vez que disponibilizo pouco do que me sobrava de tempo pra estudar e ir as aulas. Mas, pós esse período de adaptação, já posso vir aqui dizer que estou amando e me tem feito um bem não imaginado (na verdade achei que estaria surtando nessa altura). O melhor disso tudo? Não estou apenas me aprofundando em literatura, e indiretamente escrita: estou me afogando nela!

Estou no ano básico, são 2 semestres focados em 4 matérias pra dar a base pra que eu faça uma escolha de habilitação. Quando descobri que era assim, julguei que seria uma certa perda de tempo, mas hoje vejo completamente diferente: essa base tem sido fundamental pra mim. Elas são:

Elementos Linguísticos I (Prof.: Felipe Venâncio)– Estudando a base da linguística, aquisição de fala, fonemas, estrutura de comunicação. É bem complexo todo o sistema, mas muito interligado com o que estudei de teoria da comunicação quando fiz comunicação social. É uma das minhas opções de habilitação, e tenho tido que estudar muito ela.

Introdução aos Estudos de Língua Portuguesa I (Profª.: Mariangela de Araújo) – Aqui, analisamos a história da língua, suas variantes e suas diferentes frentes. Me surpreendi com a matéria e o que tenho aprendido.  Já li muito sobre preconceito linguístico e ele tem se aprofundado aqui, fora que, tenho aprendido tanto sobre minha língua, minha raiz e minha cultura.

Introdução aos Estudos de Literatura I (Prof.: Edu Otsuka) – Essa é de longe a minha matéria favorita. Aprendendo a ler poesia, entender sobre métrica e um pouco sobre teoria literária. O professor leva muita coisa que já vi/li, mas aprofunda no tema de uma maneira que eu não fazia. Tenho aprendido mais do que a ler, é meu aprofundar. Essencial pra minha carreira com a escrita.

Introdução aos Estudos Clássicos I  (Prof.: Alexandre Hasegawa) – Julguei que essa matéria seria “inútil”, mas ela me surpreende a cada aula. Basicamente estudamos Grécia e Roma e suas obras clássicas. Agora estamos nas epopeias e aprendi muito sobre nossa origem, sobre o que e porque somos o que somos hoje. Você entende muito do atual vendo o antigo. Mas essa matéria me fez excluir de vez a opção de fazer Grego ou Latim.

O mais importante disso tudo? Tenho aprendido a ler, escrever e entender melhor todo esse mundo. Se tenho medo de me tornar ainda mais técnica e menos literária? Sim, claro. A academia faz isso conosco, mas não vou deixar isso interferir tanto, pelo contrário. Hoje o que vejo é que o que aprendi tem me afastado do técnico, o “certo” que todos criticavam.

A lista de livros técnicos que estou lendo também é grande (bem grande). E isso tem me ajudado indiretamente em vários aspectos, como  de ler mais rápido. Alguns preciso ler inteiros, outros apenas partes. E vou traze-los como parte do que tenho lido, e eles entrarão na lista de resenhas.

Hoje me sinto dentro daquilo que eu queria muito, que sou eu de verdade. Hoje sinto que valeu deixar de lado muita coisa pra isso estar acontecendo. Aquele fático 2014 e a oficina que deu voz ao blog foram o início disso. Aos poucos as coisas tem voltado ao seu devido lugar, e tempo. Por enquanto, tudo mágico aqui, ainda se ajeitando, mas aos poucos voltando ao que sempre deveria ter sido. Vou dando notícias.