Amarelo

O dia amanhecera claro naquela manhã primaveril. A luz clara adentrava ao quarto branco e tonalizava de leve aqueles móveis sem cor. A cortina pesada estava propositalmente amarrada, Joana havia deixado assim na noite anterior, pois gostava de apreciar cada novo amanhecer. Sabia que não o veria daquela maneira para sempre.

Ficou na cama nos primeiros 20 minutos em que o Sol erguia-se diante do mundo. Abriu lentamente os olhos de pele engenhada e observou o levantar do astro rei.

Naquela manhã em especial preferiu não sair da cama como costumava fazer depois daqueles minutos de paz. Não sentia vontade de sair dali e deixar de admirar a luz amarelada que entrava por sua janela. Joana não se preocupou em retirar o lençol fino de cima de si. Típico sinal de que não sairia daquela cama tão cedo. Respirou pesado e sorriu enquanto passava seus olhos pelo quarto silencioso. Não era comum aquele silencio naquela hora do dia, a não ser que o Sol tenha nascido mais cedo do que o costume.

Os olhos de Joana passaram pela pequena escrivaninha, depois pela cama ao lado com a qual Maria dormia e depois pela poltrona que ficava atrás da porta, e foi lá que Joana tomou um leve susto. Uma garotinha estava sentada ali. A senhora exprimiu os olhos para tentar ver melhor.

A menina era loira, de um cabelo fino, olhos azulados e pele pálida. Os lábios eram de uma tonalidade rosada que combinava perfeitamente com suas bochechas, também rosadas. Usava um vestido de cor amarela com um lindo barrado bordado, complementava o visual infantil com sapatos brancos com meias cano baixo e que tinham um lindo bordado na barra.

– Bom dia – disse a voz fina e adocicada da garota. Ela se levantou e caminhou até próximo da cama de Joana.

A senhora em um reflexo rápido recolheu-se para trás. Ela não estava necessariamente com medo, mas ainda não havia de fato reconhecido quem era a garota, talvez fosse neta de Maria.

– Quem é você? – perguntou ainda afastada

– A senhora está com medo? – a voz da garota carregava um leve desapontamento. – Eu não ou um monstro.

Joana sorriu da dedução da garota. Era obvio que ela não era nenhum monstro. Não poderia ser com aquele rosto bem desenhado e bochechas rosadas.

– Eu sei que não é um monstro – respondeu com a voz levemente rouca – Mas não sei quem é você, não sabia que já era hora de visitas.

A garotinha deu os ombros e voltou para a poltrona. Sentou e deixou as pernas suspensas balançando em um ritmo infantil.

– Não vai me dizer seu nome? – Perguntou Joana. Ela sentia o corpo pesado e acomodou-se novamente deitada.

– Mas você sabe qual é. – a garota loira pareceu não dar atenção. Algo típico para seus aparentes 5 anos de idade.

Joana ergueu levemente o corpo e forçou os olhos para tentar ver melhor o rostinho daquela garota misteriosa. Sua memória se revirou e lá no fundo ela sentia que sabia quem era.

– Não sei seu nome. – insistiu.

A garotinha suspirou. Deu um leve salto e saiu caminhando em volta do quarto.

Ela olhou os papeis que estavam em cima da escrivaninha, sorriu enquanto olhava um deles em especial. Depois andou até a cama da Maria, que ainda dormia e parecia não ouvir nada daquela conversa. Deu um beijo na testa da outra senhora e a cobriu. Foi até a janela e desamarrou a cortina pesada deixando que o peso encobrisse toda a clareza que vinha de fora.

– Não faça isso. – disse Joana levemente irritada com a garotinha. Queria levantar e tirar aquela pequena intrusa dali, mas seu corpo pesava tanto que desistiu da idéia.

A garotinha não se importou com a lamuria de Joana. Ela apenas andou calma e parou em frente à senhora.

Joana se ajeitou novamente. O corpo parecia não obedecer. Foi então que, apesar da escuridão ela pode observar melhor aquela garotinha, que agora sorria suavemente e transmitia uma paz estranha. Em seus 93 anos jamais imaginou vê-la novamente. Mas ela via. Via a si mesma com apenas 5 anos de idade, usando seu vestido amarelo favorito.

Joana sorriu.

E agora entendia o porquê daquela garotinha estar ali. Ela havia vindo buscar-lhe.

Joana então estendeu a mão e tocou o dedo suave de seu próprio eu. A garotinha sorriu e com a mão livre retirou mechas do cabelo embranquecido que caia sob os olhos. A pequena garota sorriu em resposta ao sorriso da senhora idosa.

Uma lágrima fina escorreu dos olhos de Joana, que não retirou o sorriu sereno do rosto.

E então ambas fecharam os olhos.

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