João

João.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” – Oscar Wilde

João voltou apressado do refeitório sem nem ter terminado seu café da manhã. Naquela manhã em particular, não estava com vontade de ouvir a costumeira zombaria de seus amigos. Acordara deveras chateado. Foi direto para seu quarto escuro e trancou a porta. A única vantagem de sua deformação era aquela: um quarto exclusivo para si.
Deitou na cama dura e pequena e abraçou as próprias pernas. Aquele era o único lugar no mundo onde se sentia bem consigo mesmo.
Chovia lá fora. Uma garoa fina e barulhenta. Era outono.
João mantinha-se imóvel ainda. A respiração difícil parecia mais pesada que o natural.
“Nesta rua, nesta rua tem um bosque…” começou com a voz rouca “que se chama, que se chama solidããoo”
Sempre cantava aquela cantiga quando estava triste. Isso significava que era cantada quase todos os dias.
E ali, cantarolando baixinho ele ficou até a enfermeira bater na porta.
Tomou os dois comprimidos rotineiros. Ela começou então a examiná-lo.
João ficou ali vendo a mulher de meia idade ouvir seu coração, depois medir sua pressão. Naquela hora era bem provável que os demais garotos estivessem arrumando seus pertences para a ida a escola. João não ia para a escola. Com sua deformidade o padre e as freiras que cuidavam do orfanato preferiam que ele ficasse em casa.
Ele foi abandonado ainda recém-nascido, com a placenta ainda envolta em seu corpo pequeno. Ele não tinha nenhum cabelo, nem sobrancelha. E apesar disso, inicialmente nenhuma pessoa desconfiou de nada. Lhe batizaram de João, mesmo nome do discípulo mais amado de Jesus. Afinal, concluíram as freiras, Jesus amou tanto aquele menino que o colocou ali para ser cuidado. João duvidava um pouco disso, mas nunca questionou.
Já no primeiro ano de vida do menino todos tiveram uma certeza: ele não era normal. A cabeça era muito grande, o maxilar era muito pequeno. Ele era muito pequeno. A pele branca em excesso, fina e enrugada demais. Nenhum cabelo…
Ninguém sabia de fato o que era aquilo. A enfermeira do local começou então a investigar. A primeira atitude foi a de separar o garoto dos demais. Afinal, os garotos normais poderiam machucá-lo. Vai se saber o que João tinha afinal, mas que era frágil, todos sabiam.
Quando completou dois anos, começou a tomar vitaminas. Nunca mais parou.
Só que o pior não era isso. O pior era como os demais garotos gostavam de zombar dele e parecia que ninguém adulto se importava. Todos os possíveis nomes eram cuspidos na cara de João todos os dias.
Ele fingia não se importar. Mas nunca o deixavam em paz.
Depois de medir o punho de João com o próprio punho a enfermeira levantou e abriu a cortina preta.
João fechou os olhos e fez uma leve careta.
– Você precisa tomar Sol. – resmungou guardando os instrumentos médicos em uma bolsa.
O menino não protestou, mas também não entendeu porque a mulher abriu a janela se lá fora não tinha Sol. Estava nublado e garoando.
– Hoje você parece mais cansado.
Fez um sim com a cabeça.
A enfermeira deu os ombros. – Se precisar de alguma coisa, ou se não se sentir bem, me avise. Seu coração parece cansado também.
João fez outro sim com a cabeça e logo que a mulher saiu ele fechou novamente a cortina.
Não gostava muito de luz, pois muita luz significava que veria seu reflexo em alguma coisa. E ele não gostava de se ver em nada. Seu quarto não tinha espelhos e quando ia escovar os dentes ele fazia com a cabeça bem baixa para que não precisasse se olhar.
Aprendera a não gostar de si próprio. Sua cabeça era bem maior do que a dos demais meninos. Seu corpo era bem menor que o dos demais meninos.
Ele voltou à cama, abraçou novamente as próprias pernas e continuou cantarolando.
Meia hora depois, uma das freiras entrou no quarto, acendeu a luz e o chamou para as aulas matinais. Como não ia para a escola, as próprias mulheres do orfanato o ensinavam a ler e escrever.
Teve aulas até a hora do almoço. Ainda assim, ele estava sem fome. Só foi comer porque a freia professora ordenou que fosse comer.
Ela não pareciam notar ou se importar com o fato de ele estar sem fome.
A contra gosto ele foi. E bastou por o pé dentro do refeitório e começou a ouvir os murmúrios e risos de deboche. Ouviu diversos: “Cabeça de elefante”, “Bicho papão”, “mostro do lago” “velho estranho” e outras demais coisas que ele não quis se lembrar.
Pegou apenas purê de batatas, arroz e um pedaço pequeno de carne. Sentou no canto próximo ao banheiro e comeu de cabeça baixa. A comida não parecia tão gostosa como ele podia se lembrar.
Deixou metade do prato ali e saiu enquanto ouvia mais zombarias a seu respeito. Andou cambaleando de leve até chegar ao corredor que dava acesso aos quartos. O ar parecia escasso, mas ele conseguiu respirar fundo e conseguir mais fôlego.
Chegou ao quarto e praticamente jogou seu próprio corpo na cama.
Ficou ali até conseguir recuperar novamente todo o ar que precisava para viver e só se levantou quando percebeu que a comida que acabara de ingerir não iria ficar em seu estomago.
Depois de se libertar daquela comida de gosto azedo ele voltou pra cama. E só saiu de lá no fim da tarde.
Não chovia mais e ele podia ouvir o barulho das crianças correndo lá fora. Olhou por uma fina brecha que abrira na cortina e observou as crianças normais correndo na grama recém molhada.
A enfermeira e as freiras haviam dito durante toda sua pequena vida que ele não era normal, e por isso, ele sabia que não poderia correr lá fora com aqueles que eram normais. Mas dali de seu quarto ele pode sentir a felicidade que era ser um menino normal.
Deixou de observar os garotos lá fora depois de sentir uma dor estranha no peito. Doía demais e o fazia se contorcer deitado no chão frio. A dor o fazia sentir novamente a ausência de ar nos pulmões. As mãos tremiam e suavam.
Ficou ali se contorcendo até aos poucos aquela sensação estranha ir amenizando. Quando notou, suas mãos pequenas estavam juntas em cima do peito.
Depois do ocorrido ouviu a chamada para o jantar. Mas preferiu não sair do quarto. Ficou ali na cama, no mundo escuro que havia criado para si.
Adormeceu.
Ele não viu exatamente que horas eram, mas imaginou que já era de madrugada quando acordou. O sono pesado havia deixado na memória um monte de sonhos estranhos para aquele pequeno velho garoto de 12 anos.
Resolveu tomar um banho morno, mas desistiu quando recordou que se fosse a “hora do banho” poderia encontrar algum dos garotos ali. Preferia evitá-los. Principalmente na hora do banho.
Sabia que já não era tão cedo e que pelo silencio lá fora sinalizava que poderia dormir novamente.
E foi o que fez. Sentiu aquela dor estranha dor no peito voltar enquanto ouvia a chuva voltar a cair lá fora.
Quando amanheceu, o refeitório estava com o espaço próximo ao banheiro vazio.
Naquela manhã os garotos do orfanato não teriam o costumeiro João para rirem. Naquela manhã em especial o velho garoto não acordou.
Nunca mais acordaria.

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