Espectro

Espectro

 “As leis naturais são feitas e relacionadas umas com as outras como se a Faculdade de Julgar as houvesse produzido para o seu próprio uso.” Goethe.

A vingança tem as mesmas cores que o arco-íris. Um espectro completo de vermelho a roxo.

Agora eu tenho certeza disso.

Toda aquela mistura de sensações, de satisfação, o desespero que corria no meu sangue. A arca da aliança de Noé.

Minha respiração era pesada, o peito subia e descia em um compasso ritmado. Minhas mãos estavam mais pesadas, o liquido quente e grosso escorria por entre os dedos e pingava no chão, pintava tudo de vermelho.

O corpo ali embaixo do meu já não respirava mais. O relógio tiquetaqueava alto naquele insano silencio de vitória. Uma contraposição de saciedade e vazio, branco e preto, silêncio e grito, bombados para todo o corpo a cada batida do meu coração.

Aquilo começou na primavera de 92, um parto difícil de uma gravidez indesejada. De lá pra cá tudo desandou monstruosamente. Como um penhasco, sentia que minha vida começara no alto e despencava a cada novo segundo.

Quando ainda enrolada na manta rosa do hospital eu chegara em casa, ela esqueceu de me alimentar, preferiu sair e encontrar os amigos. Por quase um dia, contou a vizinha, chorei. Um grito de desespero por um único gole de leite materno.

Quando completei quatro meses de vida me jogou em uma creche qualquer. Lá eu ficava desde que o dia amanhecia até o inicio da noite. Quando voltava pra casa, era direto pro colchão no chão, já que berço era caro demais.

Como eu me lembro disso? Porque essa rotina se manteve por anos a fio.

Aprendi a andar, a falar e a brincar na escolinha. Pessoas estranhas me ensinaram aquilo que minha própria mãe não fez questão de me ensinar. Foi na escolinha que aprendi a rezar também, e por anos eu rezei todas as noites para que minha mãe que me amasse.

Ainda pequena sem festa de aniversário, sem brinquedos. Repleta de deveres. Aos seis anos me obrigou a lavar minha primeira louça. O inicio de uma escravidão caseira.

As orações nunca funcionaram.

Me recordo durante minha infância que ela preferia passar o dia longe de mim. Apesar da pouca idade, desde os seis anos eu passava a noite sozinha na casa de dois cômodos que morávamos. Antes disso, ficava sempre na casa dos vizinhos.

Eu era magra, vivia com fome. Não tinha qualquer atenção.

Quando completei oito anos parei de chamá-la de mãe. Foi com essa mesma idade que descobri como um Natal era vivido. Pude vive-lo na casa de uma colega. Foi também nessa época que ela começou a trazer homens estranhos pra casa.

Ela me odiava. Eu tive plena certeza disso quando ela estava beijando um deles e percebeu que eu a olhava. Perguntou por que eu não morria logo.

E eu tentei. Um gole de pinga com os remédios estranhos que ela tomava.

Não funcionou.

Pra minha tristeza precisei passar dois dias em um hospital imundo. Ela não me visitou durante os dias, nem se importou com o que os médicos disseram quando foi me buscar. Chegando em casa, aproveitou para me bater. Tirou sangue de mim.

Percebi então que quem deveria morrer logo não era eu.

Junto com minha pré-adolescência começaram as brigas se intensificaram. Eu não queria mais cozinhar, lavar, nem usar os trapos velhos que meus vizinhos me davam.

Passei a odiar aquela mulher asquerosa.

Ela passou a me bater com uma freqüência desleal por motivos espúrios. Queria a todo custo arrancar meus cabelos, cuspia na minha cara o quanto me odiava, o quanto eu havia estragado a vida dela.

Quieta, eu ouvia tudo. Guardava em meu coração cada uma daquelas palavras.

Mas eu ainda tinha esperança.

Foi nessa época que procurei um trabalho, larguei a escola.

Foi também nessa época que percebi o quão desprezível era minha vida.

Passei apenas mais cinco anos ali, e quando completei 18 anos saí de casa. Retomava ai minha esperança, minha cura;

Amarelo

Não foi fácil me estabilizar. Percebi que emocionalmente eu estava desequilibrada. Quando coloquei os pés naquele quarto imundo que eu chamaria de casa minha primeira reação foi desabar em lágrimas.

Passei dois anos em terapia intensiva, dada pelo governo.

E após me acertar comigo mesma eu resolvi voltar e repor a paz com aquela mulher que me trouxe ao mundo. Decisão difícil que me fez sentir um gosto amargo na boca por quatro dias.

Laranja

Bati na porta da casa velha que morei por anos. Ela saiu. Descabelada, com a aparência velha e enrugada. Fumava um cigarro vagabundo.

A primeira coisa que fez foi gritar “puta”. Me arrependi amargamente naquele momento. Ela saiu pra me bater. E me bateu. Com um cabo de vassoura velho, disse que me odiava que não queria me ver de novo. Ai de mim se voltasse ali.

Cuspiu na minha cara, disse que eu fui o maior erro de sua vida.

Tive certeza que a odiava. Senti o amargor daquelas palavras em minha boca por quase seis meses. Fiquei angustiada, desorientada.

Por dois dias eu chorei. Chorei por ser um ninguém. Chorei por odiá-la, por ela me odiar.

Lavei a alma daquela insuficiência e então decidi que o problema nunca fui eu, sempre foi ela. Meu sangue passou a ser substituído por ódio.

Não foi difícil organizar tudo, planejar tudo. Demorei alguns meses planejando.

Até que o grande dia chegou.

Chovia. Um fatídico dia que começou cheirando molhado.

Quando cheguei só conseguia enxergar a casa de paredes alaranjadas.

Entrei sem fazer barulho, sem bater ou me anunciar. Minha roupa molhada pingava marcando o chão empoeirado.

Para minha surpresa, o corpo da mulher que era minha mãe estava caído no chão.

Passei alguns segundos observando até que agachei ao lado dela e tentei sentir a respiração com um dedo próximo ao nariz. Era fraca, mas ainda respirava. Felizmente, para mim, ela estava viva.

Me assustei ao sentir a mão dela segurar meu braço. Com extrema dificuldade, a voz dela saiu pedindo ajuda, sussurrou dizendo que o peito doía demais.

Pedi que acalma-se e vi nos olhos dela, lacrimejados, que realmente precisava de ajuda.

Não pensei duas vezes.

Levantei, peguei a faca de açougueiro que trouxe na bolsa. Sorri e voltei até ela.

Me lembro apenas de ver o vermelho do sangue escorrer do pescoço dela. Ouvi uma tentativa de grito, lembro das mãos dela tentando me segurar.

xxxxxxxx

Não sei quanto tempo passei ali depois de cortar a garganta daquela mulher.

Do penhasco que fui jogada quando nasci eu sentia agora que voltava ao inicio. O topo de onde poderia novamente me jogar.

Quando me retiraram da casa já não chovia mais, estava ensolarado. No céu eu pude então ver as cores da minha vingança, de roxo a vermelho ele brilhava no céu. A minha então, liberdade.

 

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