Vasinho de trevo da sorte.

Era a terceira vez na mesma semana que eu acordava atrasada. Atrasadíssima.

Minha mãe é claro, se irritou comigo pela terceira vez na semana. Nós não combinávamos. Ela era ariana. Quando um ariano vai combinar com um canceriano? Essa personalidade ariana é difícil de lidar.

Depois da discussão matinal pelo meu rotineiro atraso saí de casa, correndo, segurando a bolsa meio aberta meio fechada, coisas querendo sair dela, não tinha tempo de arrumar isso. Pra ajudar, o motorista do ônibus ignorou que eu estava correndo até o ponto e foi embora me deixando ali, tenho certeza que como minha mãe, ele só pode ser ariano.

Cheguei ao trabalho exatamente doze minutos atrasada. DO-ZE. Nos outros dias da semana foram vinte e quatro e dezenove. Uma evolução.

Minha mesa estava novamente bagunçada. Nunca entendi porque as mulheres da limpeza adoravam tirar meu potinho de sal grosso do lugar, o olho grego… Ninguém ali entendia que eu precisava daqueles amuletos em seus devidos lugares. Quando eles eram tirados dali tiravam toda a concentração do Feng Shui. Ainda bem que hoje elas não haviam mexido no vasinho trevo da sorte que eu fazia questão de manter ali.

Rosa, a mulher que sentava em frente a minha mesa me olhava por cima dos óculos. Aquele olhar insuportável de “de novo atrasada”. Tentei ignorar, mas a aura daquela sem sal me deixava tensa também. Não bastasse toda aquela aura ruim e negra dela, ainda tinha na mesa um cacto. Aquilo com toda certeza sugava as boas energias que poderíamos ter ali e só deixa espinhos. Mulher estúpida. Eu não sabia exatamente qual era o signo dela, mas tenho certeza que ela era de escorpião. Vingativa, ruim. Eu nem gostava de falar com ela.

Tentei ligar meu computador, mas aquele dia absurdamente ruim tinha que ficar pior, e essa simples tarefa se tornou chatíssima. Mexi na tomada, desliguei e liguei de novo os cabos. NADA.

Liguei pro TI. Quem atendeu foi o Rubens. Voz doce, carinhosa. Ele era de peixes. Combinava tanto comigo. Quando nos encontrávamos por algum corredor eu podia sentir o laço kármico que nos envolvia. Ele ainda não sabia de tudo isso, mas nós com toda certeza namoraríamos, casaríamos, teríamos lindos filhos. E nenhum deles seria ariano. Não queria um filho igual minha mãe.

Disse ao Rubens que não conseguia ligar meu computador, mas ele não veio de imediato, disse que eu esperasse pelo doutor Carlos.

Para esperá-lo eu aproveitei e fui à copa tomei um copo de chá de camomila. Reguei algumas plantas que pareciam ser invisível para os outros que nunca davam água pra elas e depois fui até a mesa da Carolina, minha amiga do RH.

Naquela manhã em especial ela estava estranha: quieta, tentou me evitar, disse que estava com muito trabalho…

Deixei na mesa dela um bombom que havia esquecido no meu bolso. Coisa boba, só para o caso de ela estar brava com comigo.

Às dez horas o Doutor Carlos mandou me chamar. A secretária dele, Carina, com aquela cara de mosca morta veio me avisar. A Rosa olhou mais uma vez por cima dos óculos enquanto digitava. Aquele olhar de desprezo dela.

Sentei em frente a ele. Eu gostava do doutor Carlos. Um geminiano de personalidade. Mas sem nenhuma crença em nada. Tadinho. Se eu não casasse com um homem de peixes, com toda certeza casaria com um geminiano.

Começou a conversa com um bom dia sério, mal olhava na minha cara. Respondi educadamente. Um silêncio absurdo se fez enquanto ele lia um documento.

“Não consegui ligar meu computador hoje” tentei puxar conversa. Ele me olhou por cima dos óculos. Por que as pessoas insistiam em olhar por cima dos óculos? Aquilo era desconfortável!

“Ângela serei rápido” ele começou a conversa ignorando a informação sobre meu computador. “você está demitida”.

Quase cai da cadeira. Quase mesmo. Até me segurei. Como assim eu estava demitida? Eu sabia que era a terceira vez na semana que chegava a atrasada e era a décima quarta no mês, mas eu só tinha três meses de trabalho, eles tinham que considerar isso!

O doutor Carlos me entregou um papel e mandou que eu assinasse. Grosso. Tinha que ser de Gêmeos. Signo traiçoeiro. Tenho certeza que ele era o Gêmeo mal.

Assinei o papel e saí sem dizer nenhuma palavra. Voltei até minha mesa para pegar minhas coisas e então tudo fez sentido: o vasinho com os trevos estava espatifado no chão! Toda sorte jogada ao vento!

Certeza que foi aquela escorpiana vingativa. Certeza. Ela estava com inveja de mim. Só pode.

Arrumei o resto das minhas coisas. Guardei todos os amuletos, meu caderno, a calculadora.

Saí de lá de cabeça erguida, como uma boa canceriana. Confesso que estava com vontade de chorar, mas me segurei. Agora eu tinha que enfrentar mais uma vez a ariana enfurecida que ficaria irritadíssima comigo.

Era de fato um dia de azar. Precisava arrumar meu vasinho de trevo da sorte urgente.

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