Para ler como um escritor e sua influencia em mim.

Nos últimos meses (muitos por puro desleixo) tenho lido um livro bastante interessante, chama-se: Para ler como um escritor. Quem escreveu o livro é a Francine Prose, uma estadunidense que deu muitas oficinas de criação literária, além de ser escritora.

Estou em um dos últimos capítulos (entre os últimos) que chama: Aprender com Tchekhov. Não pensei que falaria do livro antes de termina-lo, mas esse capítulo em especial me deixou bem pensativa e resolvi compartilhar esse momento.

É citada uma das cartas escritas por Tchekhov e alguns pontos me fizeram pensar bastante, o primeiro deles foi:

Que o mundo “fervilha com escória masculina e feminina” é perfeitamente verdadeiro. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a missão da literatura é colher o grão puro no monte de estrume é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. Sua meta é a verdade –in- condiciona e genuína. Um escritor não é um confeiteiro, nem um comerciante de cosméticos, nem um artista do teatro de variedades; é um homem compelido pela necessidade de cumprir seu dever e por sua consciência. Para um químico, nada na terra é sujo. Um escritor deve ser tão objetivo quanto um químico.

Concordei logo de cara quando eu li. Ser objetivo é essencial em um texto, por mais que exista uma “enrolação” não é atoa (quando bem escrito). Objetividade é primordial.  Mas o ponto essencial dessa carta vem a seguir:

Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como as de Deus, do pessimismo etc. Sua obrigação é apenas descrever aqueles que têm falado ou pensado sobre Deus e o pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser o juiz de seus personagens e de suas conversas, mas apenas um observador imparcial.

Objetividade e Imparcialidade. Faz todo o sentido agora. Sério! Acho por tempo demais fui parcial e acabei deixando isso transparecer demais. Um exercício complexo que terei de agora para frente, e o trecho a seguir mantem isso firme:

Você ataca minha objetividade, chamando-a de indiferença pelo bem e o mal, falta de ideias e ideais, e assim por diante. Você gostaria que eu, ao descrever ladrões de cavalos, dissesse: “Roubas cavalos é um mal”. Mas isso é sabido desde sempre, sem que eu precise dizê-lo. Deixemos que o júri os julgue; cabe-me simplesmente mostrar que tipo de gente eles são. Eu escrevo: vocês estão lidando com ladrões de cavalos, portanto permitam-me dizer-lhes que não são mendigos, mas gente bem alimentada, e gente de um naipe especial, e que roubo de valos não é simplesmente roubo, mas paixão. É claro que seria agradável combinar arte com um sermão, mas para mim pessoal isso e impossível, dadas as condições técnica. Você vê, para descrever ladrões de cavalos em 700 linhas preciso falar e pensar o tempo todo em seu tom e sentir seu espírito.

E aqui está tudo o que sempre me disseram faltava em meus textos. Fez todo o sentido: deixe de ser você e seja o personagem. Um colega de oficina me disse que existe uma clara distancia entre meus personagens e eu, acho que entendi agora o que ele dizia. Não é culpar o ladrão de cavalos isso cabe aos leitores; é contar como o ladrão de cavalos faz aquilo é o que pra esse ladrão esse ato. Sempre sem nenhum julgamento de valor. Literalmente: contar histórias.

E uma última citação dessa carta:

É hora de os escritores admitirem que nada neste mundo faz sentido. Só tolos e charlatães pensam que sabem e compreendem tudo. Quanto mais estúpidos são, mais amplos supõem ser seus horizontes. E se um artista decide declarar que não entende nada do que vê – isto por si só constitui uma considerável clareza na esfera do pensamento e um grande passo adiante.

É como se eu tomasse um soco na cara e alguém gritasse “é isso”. Passei algumas semanas pensando muito sobre o que escrevo e meu estilo e por incrível que pareça, as coisas parecem ter feito muito sentido.

Não era minha intenção escrever esse texto, eu pensei em fazer uma resenha sobre o livro, pois fora isso, ele é incrível. Mas no meio do caminho tinha um capítulo sobre Tchekhov. Não dá, obviamente para resumir a obra apenas nesse capítulo, mas para mim ele foi essencial. Também nunca li nada do Tchekhov e me senti tentada, no capitulo a Francine conta como ler sobre esse escritor russo foi essencial para sua formação como pessoa e também como profissional, o quanto abriu sua mente para determinados assuntos.

Espero agora que esse capítulo tenha me ajudado. Creio que sim. Quando comprei o livro era essa a minha intenção: aquela luz no fim do túnel. No inicio, até esse revelador capítulo eu aprendi muito, mas nada que despertasse um Q dentro de mim.

Quem ficou interessado no livro eu recomendo. A Francine ensina como ler atentamente e o quanto isso pode influenciar sua escrita. A obra é dividida em assuntos estruturais de uum texto, como por exemplo: Paragrafo, Personagem, Detalhes… E cada um deles vem recheado de dicas, referencias e exemplos reais de uso, claro que com citações de grandes gênios da literatura, afinal, qual melhor inspiração para alguém que não o gênio? A Francine também enfatiza o quanto é importante ler, detalhadamente, para crescer profissionalmente e cada vez mais chegar um passo mais perto da perfeição.

Se o livro me fez bem? Eu achava, até esse capítulo (que li hoje no trem) não faria tanta diferença, mas Tchekhov chegou e mudou tudo e agora posso afirmar: sim o livro me fez um bem danado como escritora. Vamos ver o quanto eu evoluo agora 🙂

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2 comentários sobre “Para ler como um escritor e sua influencia em mim.

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