Sem coração.

– Onde está o meu coração? – gritei pela terceira vez com a minha mãe. Ela deveria saber, mães sempre sabem onde tudo está. Só que ela não sabia. Dizia que nem ideia fazia que o problema era todo meu que deixava tudo jogado.

Eu precisava achar logo meu coração! Precisaria dele naquela tarde mesmo, ia sair com o Gabriel e precisava aproveitar aquela oportunidade. Não é sempre que se encontra alguém legal a quem se possa emprestar seu coração.

Saí da cozinha ignorando o restante da falação de minha mãe. Voltei pro meu quarto pra continuar a busca do órgão essencial que me faltava agora. Lá tentei refazer mentalmente a trajetória da última vez que vi meu coração: era uma sexta-feira de inverno, o Marcelo me chamou pra ir a casa dele, e lá me disse que era melhor darmos um tempo. Voltei pra casa, chorei e resolvi que guardaria o coração em algum lugar que ninguém achasse.

Tentei forçar minha mente a lembrar qual lugar era esse? Fora tão bem escondido que nem eu achava agora. Maldita mania a minha!

Abri o guarda-roupa e tirei as roupas que estavam penduradas. Uma a uma pra ver se estava entre elas. Ilusão. Nem nas caixas de sapatos que eu até tinha esquecido que estavam ali. Revirei também algumas gavetas e joguei tudo o que pude para fora delas. Também não estava lá.

Dei uma olhada no quarto da minha mãe, mas também não estava lá. Nem no banheiro, nem na cozinha e muito menos na sala. Voltei pro quarto.

Resolvi mexer então em duas esquecidas caixas que ficavam lá em cima do guarda-roupa. A dificuldade de alcançá-las quase me fez desistir de pegar a bendita, mas insisti comigo mesma. Caixa grande que curiosamente tinha coraçõezinhos desenhados nela, dentro não tinha o meu. Na tentativa da segunda caixa, que não tinha corações desenhados fora, eu achei um saco de pano de cor cru onde dentro felizmente batia o meu coração.

Um alívio. Desci da escadinha enferrujada segurando quase num abraço o coração que retirei de mim meses atrás. Ao abrir o saco no qual guardei o bendito vi que ele ainda estava um pouco machucado. Talvez se eu tivesse deixado ele no peito… mas agora era tarde, por sinal, tarde era o período que eu tinha que me encontrar com Gabriel na sorveteria.

Dei um pequeno trato no coração. Limpei as feridas, verifiquei se as veias estavam todas certinhas no lugar e tentei ver se havia algum resquício antigo nele. Apesar de machucado ainda batia bem, estava forte. Preferi deixá-lo no saco, seria melhor caso o Gabriel merecesse ganhar esse nobre coração.

Assim que terminei de ajeitar as pequenas feridas que ainda tinha no coração vi que tudo estava uma grande bagunça no meu quarto. E apesar da certeza das broncas que tomaria eu deixei tudo ali espalhado, depois eu resolveria.

Banho tomado, vestido colocado, dinheiro e documento na bolsa peguei o saco de pano com o coração. Através da corda em que eu segurava sentia o coração bater lá dentro. Uma estranha sensação de saber que se está vivo.

Saí sem dar tchau pra minha mãe. Lá de fora ouvi ela me chamar de malcriada e mandou que eu voltasse cedo.

Na sorveteria o Gabriel ainda não estava. Ele deveria estar chegando… Deveria, mas dias depois eu vi que não estava. Liguei duas vezes no celular dele e ele nem atendeu. Só depois de quase meia hora é que ele mandou uma mensagem dizendo “perdi a hora, desculpe”. Pedi um sorvete de limão, o azedo ia combinar com a minha irritação. E apesar disso, parecia doce demais. Eu e sorvete ficamos ali por bons minutos até ele todo ir pro estomago. Fiquei feliz de o problema dos amores ser sempre o coração e não o estômago, pelo menos eu sempre poderia comer sem me preocupar.

Resolvi voltar pra casa, no caminho me lembrei exatamente porque eu tinha guardado o coração e porque ele não deveria sair de lá. E minha memória me trouxe de volta o porquê de ele ainda estar machucado. Eu boba, havia esquecido e já tava até querendo entregar ele pra outra pessoa de novo. Deveria pensar também em guardar o cérebro num saco cru.

Em casa peguei a antiga caixa onde o coração ficou por meses e o guardei de volta ali. Lá ele estaria seguro de novo, ninguém o machucaria e só eu saberia onde estava, se é que não esqueceria. Muito melhor.

Depois do coração guardadinho eu ainda tinha um caos inteiro para desfazer no chão.

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