Stratford

O trem chegou pontualmente às 14h20. O vagão já estava praticamente vazio naquela altura da viagem. Demorei duas horas e dez minutos para chegar.

Ventava. O ar frio trazia consigo a sensação de cortar a pele exposta. Na estação apenas a lojinha de doces, com a porta fechada, tinha movimento. As escadas pareciam um portal para aquele lugar tão sonhado. A placa com o nome da cidade balançava rangendo.

O céu estava de um azul limpo e com poucas nuvens. As folhas pintadas de outono encantavam o caminho, iam de amarelo ao vermelho escuro. Parecia um pouco vazio o caminho até o centro.

Tudo era envolto em seu nome, das lojas de roupas usadas às livrarias, por estátuas eternizando sua história. Não havia mapas à venda, o caminho tinha que ser seguido pelo próprio instinto. Um homem com piano andarilho alegrava o frio. De lá já se via a casa reluzente.

Pisar naquele chão me fez estremecer. Senti ali toda a presença literária que podia ter sido deixada. Da sala ao quarto, uma cozinha bagunçada. O amor de quem ali estava pra contar a história já conhecida.

Mas não era ali ainda que buscava o querer.

Já estava quase escurecendo. O vento úmido de chuva estava mais forte. O chão lamacento, o rio aparentemente calmo correndo devagar ao lado. Os barcos com poucas pessoas aventurando arriscar o frio. Corri mais rápido. Passo a passo sem querer perder o desconhecido caminho. Atento ao rumo da igreja, pontuda por cima das arvores. Era só ali que queria chegar. Os esquilos correndo, os estudantes voltando pra casa. A companhia de teatro no meio. Parecia um caminho sem fim, que me atormentava pelo tempo, que pouco tinha até o fim.

O muro não tinha portão, era amarelo. Bastou os primeiros passos para entender: havia túmulos em toda a volta. Poucas epígrafes resistiram aos séculos. De cruz celta a retângulos, alguns gastos, caídos. Poucos firmes. Do pó dos ossos poucos devem ter sobrevivido. Respirei fundo pra recuperar do susto. A volta toda da igreja tinha deles. Fora e dentro. Dos mais velhos que já pude ver, nenhum era desse século, nem do anterior.

Quando entrei um senhor, de muita idade, estava lá sentado. Me permitiu entrar. Ali não tinha altar, não um dos que se reza. Me direcionei direto a ele. No chão o túmulo estava demarcado no mármore claro. Respirei fundo. Estava ali, com o que de mais mortal restou de Shakespeare. Sentei perto, toquei o chão. Li ali a maldição, aquela que quis quebrar, meus ossos já exaltavam pela ideia. Rezei, pela alma que ali queria tomar pra mim. Que de alma nada ali tinha.

Quis deitar, me apoderar, deixar que aquela paixão e perfeição tomasse a mim. Mas de mim nada fez. Sai então em busca daquilo que o formou, os detalhes da igreja, os documentos oficiais. Toquei cada possível pedaço pra se apoderar de mim.

Percebi que mais do que ter estado onde nasceu, viveu, andou e comeu; estar ali com sua morte, com o cheiro de sua morte fez de mim querer ser poeta, querer ter e ser como a ti. Uma certeza daquilo que me estremecia. Dalí não resgatei suas memórias, mas fez o sangue percorrer diferente.

Durou apenas horas. Trouxe as poucas lembranças que pude. Soneto foi um deles. Mas comigo veio à melhor experiência: a ter estado com ele, a de ter tocado e admirado aquilo que fez Shakespeare ser Shakespeare.

Túmulo de Shakespeare na igreja Holy Trinity em Stratford-upon-avon
Túmulo de Shakespeare na igreja Holy Trinity em Stratford-upon-avon
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