Retroceder

Nasci 3 anos pós o fim da ditadura militar. Foram anos de um país governado por um poder opressor que deixou uma cicatriz incurável na história e nas pessoas (fora os outros anos antes, de batalhas políticas desonestas e opressivas); eu não os vivi, mas pude sentir indiretamente o reflexo desse erro no Brasil através da minha educação. Demorei pra notar que a cicatriz também existia em mim, apesar de já ter nascido em um país livre. E só demorei pra ver minha própria cicatriz por causa da mesma ditadura, que educou a geração que me educou a não educar politicamente, nem debater, nem questionar. Política, futebol e religião não se discutem, afinal de contas. Mas há exceções (sempre há), graças!

Em anos tentando digerir as opiniões tão enraizadas em mim aprendi a ver a política como essencial e o principal: a mudar minha própria opinião. Eu já tive visões distorcidas também, já acreditei no que me disseram pra acreditar. Defendi as pessoas erradas, sem perceber que os argumentos que eu usava eram apenas decorados do discurso de outros. Já fui marionete. Aprendi a diferenciar a esquerda da direita, o liberal do extremista. Demorou bastante. É difícil se desprender da mídia. É o teorema de Platão enraizado em nós, dói ver a luz quando estamos acostumados ao escuro.

Quando comecei a entender as coisas passei também a tentar ensinar aqueles que amo a também abrirem seus olhos. É difícil também. Você passa a ser o estranho, vagabundo. Todos conceitos empregados pela ditadura e um governo opressor que ensinou praqueles com menos acesso ao estudo que os que pensam diferente eram. Cansei de ouvir “na ditadura é que era bom”, por diferentes motivos. A cicatriz dói quando escuto.

E apesar de tudo isso, imaginei que durante os bons anos seguintes manteríamos um estado democrático, tão duramente conquistado. Imaginei que assim como alguns, a luta pelo verdadeiro conhecimento faria essa minha geração pós ditadura ser também revolucionária, e boa parte aquelas que viveram todo o horror ditatorial, também fossem pensar diferente. Ah, nossa ainda bebê democracia. Mas em trinta anos, hoje, foi carimbado em nossos direitos (batalhados com tanto sangue, tortura e dor) uma tomada de poder, exaltada por uma população que parece cega aos próprios direitos, e não por pensarem diferente de mim, mas por pensarem como dizem a elas pensar.

Um presidente indireto, finalização de investigações, exclusão de mulheres na política, nenhum negro ou homossexual nos ministérios, demonstrações claras de fascismo, a bancada religiosa juntamente com ministros corruptivos que estavam em investigação e advogado de criminosos e facções ganhando mais poder.

Retrocesso.

Não sou petista, nunca fui. Nem serei. Vale lembrar aqui que ser contra tudo o que está acontecendo no país não é ser petista. Sou a favor da liberdade, da democracia, da justiça.

Sair na rua em protesto é incrível, parar o país, gritar por melhoras; mas precisamos ter consciência política. Pintar o rosto de verde e amarelo e chamar de burro quem tem uma opinião diferente da sua não é mudar o país. Derrubar a democracia não é salvar os brasileiros. Excluir minorias não é solução. Dar poder a quem foi o primeiro a barrar uma reforma política (necessária para nosso momento), não é lutar por reforma política. Acabar com a corrupção não é abrir oportunidade para mais corrupção.

Nunca imaginei que estaria viva pra ver o próprio povo, detentor do poder supremo, comemorar uma derrota como quem comemora vitória. Eu não participei disso, e sinto orgulho. Desejos podem ser realizados. O que realmente muda o mundo é conhecimento e liberdade.

Quando você não discute política, alguém discute por você.

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