A invenção de Morel

A invenção de Morel – Adolfo Bioy Casares

Um livro de 1940 quase nunca é tão fácil de descrever, um como A Invenção de Morel, parte essencial da literatura argentina, aclamado e obra mais conhecida de Bioy torna o processo ainda mais complicado. Um livro que carrega consigo a dificuldade de entendimento, uma quase surrealidade e uma responsabilidade grande foi um desafio maravilhoso e que entrou em minha vida para ser parte fundamental do meu desenvolvimento.

Um grande paradoxo. Difícil de entender, de engolir, descer. Apesar das poucas páginas -pouco mais de cem- somos inundados por uma maré de informações, fatos e angustias dentro do livro. Se você assistiu Dark (a série alemã) ou alguns episódios de Black Mirror vai conseguir fazer analogias e ligações claustrofóbicas do labirinto que o livro te leva. Se não assistiu, não tem qualquer problema. O labirinto é o mesmo, aquele que questiona nossa fragilidade perante o mundo e as nossas certezas.

A história é feita em -quase- em um formato de diário, parece mais um caderno de relatos para um futuro. Nele o narrador conta sobre sua chegada na ilha, um fugitivo da justiça venezuelana condenado à prisão perpétua que busca manter sua liberdade e para isso escolhe se prender em uma ilha aparentemente deserta. Os primeiros dias no lugar ele passa sozinho reconhecendo o campo, o lugar e as possibilidades, mas quando menos se imagina surgem pessoas. Se alimentando de raízes, cansado e já um pouco fora de si, ele está certo de que vieram captura-lo e fica confuso sobre como elas chegaram até ali, ele passa a observa-las e a tentar entender quem são. Uma dessas pessoas, Faustine, se torna a paixão daquele solitário homem, que buscando fugir da prisão prende-se a uma ilha vazia e desconhecida. A aproximação é lenta, ocorrida por fatos estranhos que vão percorrendo a história, inexplicáveis situações aparecendo e nos questionamos o que daquilo é loucura e o que é verdade.

A aproximação finaliza com a descoberta da invenção de Morel, uma máquina imortalizadora. Começa um segundo processo, de entender o funcionamento, de se fazer parte daquilo. Se eu contar mais, vou acabar contando o livro todo, então paro por aqui.

Envolto por questionamentos atuais que mexem com nossos conceitos, esse pequeno grande livro merece a leitura. Não uma, inclusive, apesar de não parece, ele tem uma complexidade rica. Já começa com um prefácio de Borges e traz pra nós uma qualidade absurda da literatura argentina.

O autor: Argentino, morto em 1999, é conhecido por sua narrativa em mundos fantasmagóricos, de uma lógico peculiar e marcado por um realismo verossimilhante. Foi um grande amigo de Borges e é parte essencial da literatura argentina.

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Pauliceia Desvairada

Pauliceia Desvairada

Mario de Andrade

A autora: Mario de Andrade é um autor brasileiro, foi um dos pioneiros na literatura modernista e uma grande referência (inclusive, muito estudado nos vestibulares).Nasceu em São Paulo em 1893 e morreu, na mesma cidade, no ano de 1945.

Resenha: Comecei a recomendação de livros pra faculdade desse semestre ainda nas férias. Pauliceia comecei a ler -quase que propositalmente, mas embalado por uma certa coincidência- no dia 25 de Janeiro, aniversário da cidade de São Paulo. Apesar de já ter visto vagamente o livro e o tema na escola, depois de anos fora, precisei dar uma recuperada. Pauliceia foi publicada em 1922, semana de arte moderna e que mudou os padrões a visão brasileira de arte. Mario de Andrade rompeu radicalmente com suas obras anteriores e nessa faz uma analise da cidade e da sociedade paulistana. A cidade começava um processo intenso de industrialização, deixando de lado a vida rural. O cenário é descrito por Mario em seus poemas, descrevendo pessoas, lugares e o movimento que a cidade passava. Além da questão social e crítica dos poemas, ressalto a mudança estética e estrutural da forma poética (e na época de grandes vertentes da arte). Um dos poemas mais conhecidos é Ode ao Burgues.

Eu recomendo a leitura para todos. É um livro de rompimento histórico e social, porém, se você é de São Paulo (ou conhece/mora na cidade), vai ter um encanto diferente por cada um dos poemas. São uma delícia de ler e ainda tem um prefácio maravilhoso cheio de pensamentos e de explicações. Como é pra faculdade a leitura, com certeza precisarei reler e terei novas analises pra compartilhar!

Esses novos anos.

Meu 2018 começou com muitas mudanças. Sinto que uma onda de energias ruins que estavam me bloqueando desapareceu. Uma nova de renovações e retorno apareceu. Depois de um último semestre turbulento (pessoal, profissional e mentalmente), de quase dois anos sem produzir novos textos ou ler muito, eu voltei.

Janeiro já deu inicio a essa mudança, e hoje já me sinto outra. Foi um mês em que escrevi muito (e a mão), voltei com alguns projetos e textos que eu tinha parado. Foi ótimo. Li 5 livros (um recorde na minha vida), que me transformaram de maneira única.

Que 2018 continue assim, mesmo quando os dias não forem tão ensolarados como tem sido.

A filha perdida

A filha perdida

Elena Ferrante

A autora: Elena Ferrante é um pseudônimo e foi usado para preservar o anonimato de quem estava por trás do nome, porém, um jornalista chegou a conclusão que Elena é na verdade Anita Raja, uma tradutora. Ela é casada com Domenico Starnone. Italianos contemporâneos.

Sinopse*:“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” Com essa afirmação ao mesmo tempo simples e desconcertante Elena Ferrante logo alerta os leitores: preparem-se, pois verdades dolorosas estão prestes a ser reveladas.
Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida — e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém.
No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Elena Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode ter na vida de diferentes gerações de mulheres.

Resenha: A filha perdida é repleta de conflitos atuais: a visão real da maternidade, abandono, direitos, vontades. Te faz pensar nos pequenos detalhes, recordar seu passado e meditar sobre o futuro. Muitos pontos importantes de visões atuais são postos à prova depois de ler esse livro. Quando comecei a ler Ferrante foi mais pelo fato de começar a me envolver com literatura italiana, já que minha habilitação na faculdade vem logo aí. Queria também algo contemporâneo do país e me animei bastante com o livro.

Em termos de roteiro e desenvolver da história não temos muitas surpresas, e nem acho que precisava depois do murro que a gente leva com o livro. Nenhuma grande distorção ou mudança nos acontecimentos ao longo da história. No livro conhecemos Leda, uma mulher que se vê livre, já que as filhas (jovem-adultas) foram morar com o pai no Canadá, decide sair de férias e vai aproveitar dias tranquilos na praia. Lá observa uma família bastante expressiva que lembra inclusive sua própria família, mas o destaque de suas observações fica em uma jovem mãe e sua filha que brincam felizes com uma boneca velha, que percorre toda uma frente importante da narrativa e se torna um objeto essencial pro desenrolar da história, mas principalmente, pras aceitações e confissões de Elena.

Elena narra com uma honestidade que te leva a um choque de realidade tão simples e tão presente nas nossas vidas que é até assustador. No fim do livro você fica com o gosto amargo daquelas verdades que ela expõe sem medo ali. Vemos a realidade dura dos sentimentos não expostos da maternidade, aquela dor e raiva que toda mãe deve sentir e aqueles julgamentos tão presentes na sociedade em relação ao parto e a mulher batem na nossa cara. Eu fiquei durante o livro todo numa mistura de entendimento, compartilhamento, medo e realidade perante meus próprios sentimentos e vivencia. Creio que se você é mulher esses sentimentos são mais fortes ainda.

Com uma mistura de presente e lembranças, o livro é um verdadeiro reflexo de verdades e realidade. Eu amei a leitura e vou com certeza ler mais livros dela.

* (sinopse do Skoob)

O carteiro e o poeta

O carteiro e o poeta

Antonio Skármeta

O autor: Skármeta, assim como eu, nasceu em um 7 de novembro. Ele é do ano de 1940. É um escritor Chileno e ganhou diversos prêmios na literatura.

Sinopse*: Sucesso também no cinema, esta novela tem como cenário o refúgio de Pablo Neruda em Ilha Negra, no Chile. Narra a amizade do carteiro Mario Jiménez com o poeta, e como nasce a admiração pelas poesias e a cumplicidade entre os dois, até a morte de Neruda.

Resenha: E 2018 começou repleto de leitura, né? Terceira que eu trago pro blog esse mês e estou muito feliz com isso!  Já fazia muito tempo que eu queria ler esse livro e tomei coragem agora nessas férias. Cheio de poesia e com uma leitura bem fluída, chegamos a vida do carteiro que aos 17 anos consegue o emprego de carteiro (algo que ninguém queria) e se deslumbra com a possibilidade de poder conhecer Neruda (seu vizinho).

Começa em um trabalho de entrega de carta, mas além de se conhecerem, vai fluindo pra uma amizade que Mario – o carteiro- leva para a vida toda. Amizade essa que começa com o pedido de Mario para aprender a fazer metáforas no objetivo de conquistar uma moça. Vemos essa amizade inclusive transformar Mario de outras maneiras, acompanhamos sua evolução pessoal e intelectual ao longo da narrativa. Anos dessa vivência são contados e o envolvimento do poeta -além da história dele também- fazerem parte do todo.

No livro da pra se entender também um pouco da questão política no Chile e como a influência dessa política transforma o local, seus moradores e o próprio poeta. O próprio Neruda é parte dessa política que leva o poeta a ser um possível candidato à presidência do país e transcorre até o momento que ele é cercado dos tanques de exército.

É um livro pequeno, de leitura gostosa e com uma prosa muito bonita. Recomendado!

* (sinopse do Skoob)

Meu primeiro ano na Letras

Em 2017 um dos meus sonhos se realizou: passei no curso de Letras da USP!

Esse sonho já era antigo, mas só consegui realizar ele nesse ano de 2017. Eu queria estudar literatura, língua e viver disso. Escrever, fazer oficinas de escrita criativa e criar esse blog foi parte desse sonho também. E agora, estudando Letras pude finalmente chegar mais no fundo desse sonho e o post de hoje é pra contar desse primeiro ano estudando Letras.

O primeiro ano é o ano base da Letras, onde temos quatro matérias que nos introduzem a esse mundo. Claro que ainda é tudo introdutório, porém temos uma imersão bem grande nas matérias e leituras (literárias e técnicas) que nos levam de uma maneira bem intensa a começar os estudos. Nunca imaginei que seria tão intenso e maravilhoso como foi.

A primeira matéria que foi pra mim uma surpresa agradável foi a Introdução aos Estudos Clássicos. Imaginei tão pouco sobre ela, mas essa matéria entrou em uma das favoritas da vida. Estudamos basicamente Grécia e Roma e as produções literárias deles. Começamos com Grécia e aqui tem o que já conhecemos (antes de entrar na Letras): Ilíada e Odisseia. Mas não só lemos os livros, que no seu original eram orais e não escritos, mas estudamos um pouco mais a fundo cada um deles, fazendo até ligações e análises de Homero como um todo. Também nessa matéria que lemos, tanto no primeiro quanto no segundo semestre, a Poética do Aristóteles. Tivemos a Poética de Horácio, mas a base dos estudos foi Aristóteles. E por fim no primeiro semestre também tivemos uma épica latina, Eneida. Tivemos alguns outros textos paralelos, mas todos girando em torno da análise poética e a significância delas, além de estudar mais a fundo as suas relações e a imitação. No segundo semestre os ensinamentos do primeiro vieram conosco, principalmente as referencias dos dois grandes nomes de Homero e Vigílio, porém estudamos retórica, comédia, tragédia, oratória e diálogos, focando em autores como Platão, Cícero, Ésquilo, Aristóteles, Górcias e alguns outros mais filósofos e tragediógrafos gregos e romanos. Lemos obras como Em defesa do Poeta Arquias, Fedro, Sete contra Tebas e Édipo Rei. Aqui também estudamos a relação deles, as imitações, os textos e aprofundamos em cada um deles. A importância aqui é entender principalmente as origens, nossas e da literatura que hoje produzimos e lemos. Claro que não são leituras fáceis, porém, esses autores e textos precisam ser estudados por todos nós.

Outra das matérias que me surpreendeu e inclusive me fez querer a formação também em Português foi Introdução aos Estudos de Língua Portuguesa. Diferente do que se imagina, não aprendemos gramática, isso já é algo que deve vir conosco, além disso não é o foco da USP forma apenas gramáticos, mas estudiosos da língua. Aprendemos sobre variação, sobre texto oral e escrito, sobre dialetos e história da língua. É maravilhoso, me fez ver e amar a nossa língua de uma maneira que não imaginei ser possível. Aqui temos contato com autores como Pretti, Castilho, Basso e Jubran. Aprendi muito sobre as variantes e variações da língua, sobre, principalmente, preconceito linguístico. E apesar de não ter gramática, aprendi também sobre gramática e alguns termos técnicos. O mais legal nessas matérias foram os trabalhos, nos dois semestres, onde fizemos transcrição de áudios. Podemos aqui entender muito mais dos processos da língua, fala e organização. Graças aos ótimos professores que tive, optei por seguir na  habilitação em português pra aprender ainda mais sobre nossa língua, que é tão rica e linda.

Já Elementos da Linguística foi uma matéria que me deixou bem desolada. Era a que eu mais aguardava, pois a habilitação de Linguística era a que eu almejava, mas os dois semestres foram bem ruins -pra mim- e me fizeram desistir da habilitação. Mas linguística, a ciência que estuda as línguas, é maravilhosa, e estudamos ela em todos as línguas, só optei por não seguir exclusivamente nesse estudo. Mesmo com a experiência ruim, foi ótimo entender mais de fonética, fonologia, semiótica, semântica, pragmática e todas as outras frentes de segmentação para estudo de línguas. Focamos em 2 livros principais, com textos de vários autores e organizados pelo Fiorin, um dos professores da própria USP. A base que se leva aqui é ótima pra entender de maneira mais técnica todos os precedentes da língua. Você estuda alguns detalhes tão a fundo, que mesmo parecendo óbvios depois, são desapercebidos quando não estudamos.

Por fim, mas não menos esperada ou importante, a matéria de Estudos Literários. No primeiro semestre estudamos poesia, aprendi tanto sobre estrutura de poesia, história e análise. Eu, mesmo envolvida com a literatura, não fazia ideia da imensidão que poesia tinha e sua complexidade. Meu professor focou em Drummond e durante o semestre lemos muitas poesias dele e fizemos 2 trabalhos (estão aqui no Blog também), lemos também algumas outras: Sonetos de Shakespeare, Goethe, Manuel Bandeira e alguns poetas contemporâneos. Para as leituras teóricas tivemos muito Antonio Candido, mas também tivemos Rosenfeld, Jackobson, Bosi, Auerbach, Kayser e Adorno. Tudo isso pra aprender poesia, sua complexidade, suas analises, psicologia, história e estrutura. Já no segundo semestre nós tivemos prosa, mais precisamente conto e romance. Como base e análise para o trabalho final, lemos O Morro dos Ventos Uivantes, que coloquei aqui no blog também. Mas os contos todos foram focados principalmente em Machado de Assis. Em relação aos contos, lemos também Poe, Kafka, Clarice Lispector, Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Cortazar. Para os textos técnicos tivemos Antonio Candido, Pamuk, Carpeaux, Eagleton, Franco Moretti, Ian Watt, Claudio Magris, Walter Benjamin, Osman Lins, Friedman, Tomachevski e Modesto Carone. Devo dizer que, até entrar na USP eu achei que entendia de literatura e sabia fazer análises críticas, mas isso mudou radicalmente quando vi uma análise e com os trabalhos que tive que fazer. Senti que amadureci muito com isso, aprendi mais e abri minha cabeça de uma maneira única pra literatura (o que interferiu diretamente na minha escrita também).

Agora em 2018 entro no meu segundo ano, vou seguir com a habilitação em português e decidi como segunda língua Italiano. Um pouco pela literatura, outro ponto pelo meu desempenho nesse primeiro ano (a escolha da habilitação é de acordo com o número de vagas e sua classificação pela média ponderada do ano). Fora isso, inglês eu já sei, alemão estudei e ainda estudo um pouco. E por fim, Italiano é a língua da minha família, então tem um Q especial na escolha. Apesar das escolhas, meu objetivo é fazer como optativa matérias do maior número possível de literaturas (de cada habilitação) e as teóricas. Fora as matérias de tradução, que serão foco pra mim também, quero me aprofundar e fazer tradução literária.

O que posso afirmar é que estou amando adentrar esse mundo, cada aula é uma felicidade sem fim pra mim, cada aprendizado… As aulas e os trabalhos me pegaram uma boa parcela de tempo, e a desatualização do blog são a prova viva disso, mas meu crescimento pessoal e profissional tem sido maravilhosos. Muita coisa boa vem por aí.

Por que fazemos o que fazemos?

Por que fazemos o que fazemos?

Mario Sergio Cortella

O autor: Cortella é escritor, professor, educador e palestrando brasileiro, hoje sua fama vem principalmente da sua participação em programas e discussões sociais ligadas à filosofia contemporânea.

Sinopse*: Dividido em vinte capítulos, ele aborda questões como a importância de ter uma vida com propósito, a motivação em tempos difíceis, os valores e a lealdade – a si e ao seu emprego. O livro é um verdadeiro manual para todo mundo que tem uma carreira mas vive se questionando sobre o presente e o futuro.

Resenha: Um pouco diferente do que costumo ler, esse livro foi um presente de amigo secreto. Li rapidinho (em 2 dias) e resolvi trazer um pouco dele aqui também, afinal, é uma das leituras do ano. Começamos bem esse 2018 né?

Indo ao livro, Cortella traz aqui alguns temas referente ao trabalho e a felicidade. No meu atual momento profissional, foi ótimo ler o livro pra ter um direcional sobre: é o que quero? eu gosto do que faço? por que eu faço? qual meu propósito?

A partir daí, comecei a me questionar em alguns pontos, tentando entender onde quero chegar e até onde quero chegar. No livro também, entendemos até que ponto estamos sendo bons funcionários motivados e até onde somos trouxas. Não é só uma questão de motivação pessoal, mas as empresas também precisam entregar algo além de um salário em troca do nosso tempo. É uma via de duas mãos.

Se você se questiona sobre sua vida profissional, sobre sua empresa, sobre sua dúvida em relação ao que quer ou não, esse livro é super indicado. Inclusive se você tiver em um momento de angustia ou se questionando sobre sua capacidade e motivação.

 

(Sinopse do Skoob)

Neve

Neve

Orhan Pamuk

O autor: Pamuk é um escritor e professor de literatura na Universidade Columbia. Nasceu em Istambul em 1952. Ele venceu o Nobel de Literatura em 2006, o primeiro turco a conseguir o prêmio.

Sinopse*: Neve conta a história de Ka, poeta exilado na Alemanha, que viaja a uma pequena cidade turca sob o pretexto de investigar a onda de suicídios entre jovens muçulmanas que assola o vilarejo. Durante essa visita, uma nevasca bloqueia todas as estradas, insulando a cidade do resto do mundo. É nesse clima de isolamento que um veterano ator e sua mulher aproveitam para liderar um golpe militar. Embora tenha se distanciado da política há muitos anos, Ka é alçado a protagonista involuntário dessa revolução. Nada menos apropriado para um escritor cujos desejos são apenas registrar as poesias que lhe escapam há anos, mas que agora passam a fluir com extrema naturalidade, e se casar com Ìpek, antiga colega de escola. Mas o turbilhão provocado pelo golpe traz à tona a truculência das forças de segurança, antigos ajustes de contas e o radicalismo de alguns militantes islâmicos. Enquanto Ka tenta se equilibrar entre as diversas facções em choque, vê a cidade se tornar um microcosmo dos conflitos raciais, políticos e étnicos da Turquia, além de palco da sua tragédia pessoal.

Resenha: Neve foi o primeiro livro terminado de 2018, foi quase um ano entre começar e continuar sua leitura. Me interessei pelo livro/autor depois de em uma oficina de criação literatura eu descobrir o livro O Romancista Ingenuo e o Sentimental, e depois rever o livro na faculdade de Letras. Pois bem, depois de me encantar um pouco com a escrita e a maneira de ensinar escrita e literatura do Pamuk, corri para ler Neve, mas confesso tristemente, que foi uma pequena decepção. O livro não é de todo ruim, mas talvez minhas expectativas fossem altas demais.

O romance conta a história de Ka, um poeta turco exilado na Alemanha. Ele volta à Istambul devido a morte da mãe e aproveita para ir à Kars, sua cidade natal, para investigar -de maneira jornalistica- os suicídio por jovens muçulmanas. Assim que chega, Ka fica preso na cidade pois a neve bloqueia as estradas. Após começar sua investigação, Ka descobre que a questão do suicídio e a religião está muito mais profunda do que podia imaginar. O livro nos dá uma pequena aula sobre a religião num país que nem sempre temos acesso. São quase 500 páginas entre uma disputa de crenças e a discussão sobre mulheres cobrirem ou não suas cabeças. Há até mesmo um golpe militar na cidade. A neve é algo tão presente na cidade que sentimos o frio e o gelo que acoberta Kars e as pessoas. Até quem nunca viu neve, pode ter a sensação pela narrativa. Durante sua estadia na cidade, Ka volta a escrever poemas, coisa que não fazia há algum tempo, ele retoma suas origens e crenças.

Por fim, Ka também descobre o amor de Ipek, o que o ajuda na questão da escrita, porém, ela e a irmã estão envolvidas com a questão religiosa e política de uma intensa e acima do que ele poderia imaginar.

Apesar de toda a complexidade da história, a narrativa envolvente e o assunto de interesse, talvez as 500 páginas de livro tenham sido um exagero, e me fez chegar ao fim da leitura cansada e querendo que o livro acabasse logo.

Recomendo a leitura, pois o livro é bom, fala das complexidades de ser turco e a distancia com o ocidente, mas minha experiência com ele não foi das melhores.

(Sinopse do Skoob)

O Morro dos Ventos Uivantes

O morro dos ventos uivantes.

Emily Brönte


O autor:
 Inglesa, Emily Brönte viveu de 1818 a 1848. Dentre as irmãs Brönte ela é a que se tem menos informações, e de acordo com a própria irmã era uma pessoa reclusa.

Sinopse*: Na fazenda chamada Morro dos Ventos Uivantes nasce uma paixão devastadora entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino. Mas a união do casal é mais forte do que qualquer tormenta: um amor proibido que deixará rastros de ira e vingança. “Meu amor por Heathcliff é como uma rocha eterna. Eu sou Heathcliff”, diz a apaixonada Cathy.

O único romance escrito por Emily Brontë e uma das histórias de amor mais surpreendentes de todos os tempos, O Morro dos Ventos Uivantes é um clássico da literatura inglesa e tornou-se o livro favorito de milhares de pessoas, incluindo os belos personagens de Stephenie Meyer.

Resenha: O Morro Dos Ventos Uivantes foi um dos romances que li esse ano para fazer uma análise pra faculdade. Depois de um ano nessa luta por absorver e crescer literariamente, o romance foi parte de um trabalho de análise do qual precisei desenvolver esses conhecimentos. E a principal parte de fazer esse trabalho veio na maneira diferente de ler o livro, que depois de muito estudo pude entender. Eu já havia lido o livro há alguns bons anos, e pra mim, nada era muito novo na história e ela em si nem tinha nada demais. Porém, após entender um pouco mais de teoria e crítica literária, ler os textos de apoio e ter uma ajuda do professor, eu vi e reli um romance totalmente novo par mim. Essa resenha se torna especial por causa disso também. Cuidado que tem muitos spoilers a partir de agora.

O livro conta a história de dois lugares e seus moradores, no interior da Inglaterra, o Morro dos Ventos Uivantes e a Granja Thrushcross. A história é inclusive dividida, em tese, em duas partes. Na primeira, temos foco direcionado para a história de amizade e amor de Catherine e Heathcliff. Na segunda, temos alguns desenrolares da história e de certa maneira a finalização de um ciclo intenso. De uma estrutura cronológica linear na contagem da história e principalmente mais pro fim a segunda parte, a história é composta também por outras histórias, que seguem uma cronologia passada, mas linear. Já a narração pode ser comparada a uma caixa e a um jogo parecido com Matrioskas, a cada abertura uma nova narrativa e uma nova história dentro de cada narração. O ponto de vista é principalmente a visão de Nelly, uma das empregadas, então, sempre duvidosa uma vez que é sua opinião em centro. Apesar da inicial simplicidade, a história vem cheia de uma complexidade não só narrativa, mas psicológica. Ela conta a história do que aconteceu nas casas para um inquilino que chega à Granja. Parte da narrativa também é contada por ele.

No Morro, a família Earnshaw recebe -vindo com o pai- uma criança sem família e desemparada vinda de uma cidade portuária. Essa chegada mexe diretamente com a família que vivia até então bem. Os filhos não aceitam o rapaz, a esposa fica revoltada e os empregados ficam sem entender muito bem o papel daquele menino que chegava.  Heathcliff chega para mudar completamente a história daquela família. As coisas se acertam de certa maneira com o decorrer dos dias e a filha mais nova, Catherine, passa a ter uma amizade muito forte com o irmão adotivo. Já o irmão mais velho deixa claro que não o aceita de maneira alguma e inclusive mal trata o garoto. No decorrer das semanas a mãe falece e algum tempo depois o pai também. Com isso, Hindley, o irmão mais velho, assume a direção da casa. A vida de Heathcliff, que apesar de tudo já não era fácil, passa a ser pior. Em uma noite, fugindo do irmão, Heathcliff e Catherine chegam a Granja, a menina é mordida por um cachorro e precisa ficar na casa dos vizinhos. Ao voltar, está mudada. A Granja, casa que representa a calmaria e o “padrão” familiar, molda a menina de uma maneira única, a molecagem da garota ficou no Morro, local de caos e indisciplina. Sua volta é marcada por uma aproximação dos Linton, os moradores da Granja, e essa proximidade gera o segundo ponto de grande impacto na história: Catherine, ou Cathy, é pedida em casamento por Edgar, o primogênito dos Linton. Buscando uma espécie de salvação para Heathcliff pelo dinheiro da família Linton, em um dos diálogos mais enigmáticos da literatura (talvez um dos mais estudados), ela conta a empregada sobre o pedido e a aceitação, para salvar o amigo, que estava no canto ouvindo. Heathcliff foge após ouvir a declaração. Anos se passam e nesse meio tempo Cathy e Edgar casam e Hindley vai se afundando cada vez mais em dívidas e em bebidas. Nesse momento do romance, a Granja se torna ainda mais forte o lugar da boa convivência e das tradições, com a família composta por Cathy, Edgar e Isabela, irmã de Edgar. Enquanto no Morro só restam Hindley, seu filho e um empregado. Heathcliff volta rico, disposto a vingar-se de toda a humilhação que passou. Compra o Morro, faz de Hareton, filho de Hindley, uma espécie de empregado, ajuda no processo de adoecimento de Cathy ao brigar com Edgar e casa-se com a Isabela.

O livro, por si só, já trás personagens de grande impacto social e psicológico. Cathy e Heathcliff são um casal formado não é por circunstancias não aceitas socialmente –no período-, mas ultrapassam até mesmo a morte e invadem o imaginário local. Heahtcliff é um garoto que sofre os diferentes tipos de perturbações sociais, não possuí uma origem certa e vive a humilhação social de sua condição. As casas também são personagens importantes, símbolos de caos e calmaria, elas são essenciais para pontuar os momentos e a história.

O fim é também conturbado, apesar da aparente resolução de problemas. Inicialmente, um lado pode ser escolhido e a aparente paz estabelecida, mas o ponto é questionável.

Por fim, há elementos essenciais na história que nos trazem interpretações diversas, desde a psicologia ao social. O que meu professor pontuou em sala, e que me fez ler o livro de uma percepção diferente é a Janela. Há uma sempre envolvendo o relacionamento e a presença de Cathy e Heathcliff. Essa janela representa essa divisão entre eles. Quando Cathy aceita o pedido de casamento de Hindley a janela é fechada em um dia quente, porém quando Heathcliff volta, a janela é aberta em um da de neve e frio. Cathy morre em direção à janela, Heathcliff também. Depois de ver isso, passei inclusive a contar às janelas que apareciam na história. Mas esse ponto merece um aprofundamento.

Há ainda uma ligação importante sobre o momento histórico inglês, o fim do gótico e a passagem para o realismo, que pode também ser parte de uma leitura. Além é claro, da história da própria Emily.

Os textos de apoio que usamos para a leitura do romance, e esse aprofundamento na leitura, foi um do Terry Eagleton chamado The Bröntes, um da Sandra Gilbert e Susan Gubar chamado Looking Oppositely: Emily Brontë Bible Of Hell. Também tivemos alguns textos teóricos de estrutura de romance como Temática do Tomachévski e o Século Sério do Franco Moretti.

Recomendadíssima a leitura e inclusive a re-leitura, caso você tenha tido a mesma impressão que eu na primeira. Entrou na lista de livros favoritos. O Morro dos Ventos Uivantes é muito mais do que apenas uma história de um amor sem limites.

 

Museu – Wisława Szymborska

Voltando aos poucos com o blog, eis que umas das ganhadoras do Nobel chega para alegar esse fim de sábado chuvoso. De nome quase impronunciável (pra nós, adeptos a língua portuguesa) de uma lucidez poética única.

Ler poesia é essencial pra escrita, é ar, é vida. E volta aos sábados para nos inspirar.

Museu

Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezentos anos.

 

Há um leque — onde os rubores?

Há espadas — onde a ira?

e o alaúde nem ressoa na hora sombria.

 

por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias.

Um bedel bolorento tira um doce cochilo,

o bigode pendido sobre a vitrine.

 

metais, argila, pluma de pássaro

triunfam silenciosos no tempo.

só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do egito.

 

a coroa sobreviveu à cabeça.

a mão perdeu para a luva.

a bota direita derrotou a perna.

 

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

minha competição com o vestido continua.

e que teimosia a dele!

e como ele adoraria sobreviver!

Em 1996, a polonesa ganhou seu Nobel, era quase desconhecida. Teve obras bloqueadas pelo regime comunista. Mas como li em um ensaio da Revista Piauí, a poesia de Szymborska é pura e transparente como a água. E essa pureza nos choca. E temos em Museu uma clara crítica ao excesso e ao vazio que tentamos preencher com objetos. O sobreviver sobrepondo-se ao viver. Museu nos traz a realidade do fútil, tão presente em cada um de nós. Até quanto o ter vencerá o ser?