Ausência

Acordei com os pés frios, a ponta de cada dedo já deixara de ser sentida pelo resto do meu corpo. Revirei-me na cama na inútil tentativa de sentir-me melhor. Senti o travesseiro úmido das lágrimas que transbordaram do meu coração. Não pude segura-las na minha alma.

O tique-taque do relógio da sala era ecoado dentro de mim, batia no ritmo do meu coração, quase um martelo em meus ossos. Remexi os dedos dos pés, ainda frios.

Nenhum barulho era ouvido, o que me fez acreditar que ainda era madrugada. Tique-taque, tique-taque o relógio batia sem pressa, com urgência. Resolvi levantar. O frio que meu corpo tomou ao sair da proteção quente do cobertor fez com que toda minha pele ardesse e arrepiasse. Inútil era o veludo que vestia. Caminhei preguiçosamente até a mesa de jantar. Ali me acomodei. Percebi que o frio vinha de dentro, não de fora. Vinha daquele vazio que tinha em mim.

Esperei por um copo de leite quente. Nunca veio. Não viria. Lágrimas novamente cobriram meus olhos e escorreram sem permissão. Os dedos dos meus pés mantinham-se frio.

Resolvi voltar para a cama. Relutei com o cobertor buscando o maior calor possível. Depois de calma e aconchegada, senti que os dedos dos pés ainda estavam frios. Percebi que nunca mais se esquentariam, não sem os seus pés quentes encostados aos meus.

Sem coração.

– Onde está o meu coração? – gritei pela terceira vez com a minha mãe. Ela deveria saber, mães sempre sabem onde tudo está. Só que ela não sabia. Dizia que nem ideia fazia que o problema era todo meu que deixava tudo jogado.

Eu precisava achar logo meu coração! Precisaria dele naquela tarde mesmo, ia sair com o Gabriel e precisava aproveitar aquela oportunidade. Não é sempre que se encontra alguém legal a quem se possa emprestar seu coração.

Saí da cozinha ignorando o restante da falação de minha mãe. Voltei pro meu quarto pra continuar a busca do órgão essencial que me faltava agora. Lá tentei refazer mentalmente a trajetória da última vez que vi meu coração: era uma sexta-feira de inverno, o Marcelo me chamou pra ir a casa dele, e lá me disse que era melhor darmos um tempo. Voltei pra casa, chorei e resolvi que guardaria o coração em algum lugar que ninguém achasse.

Tentei forçar minha mente a lembrar qual lugar era esse? Fora tão bem escondido que nem eu achava agora. Maldita mania a minha!

Abri o guarda-roupa e tirei as roupas que estavam penduradas. Uma a uma pra ver se estava entre elas. Ilusão. Nem nas caixas de sapatos que eu até tinha esquecido que estavam ali. Revirei também algumas gavetas e joguei tudo o que pude para fora delas. Também não estava lá.

Dei uma olhada no quarto da minha mãe, mas também não estava lá. Nem no banheiro, nem na cozinha e muito menos na sala. Voltei pro quarto.

Resolvi mexer então em duas esquecidas caixas que ficavam lá em cima do guarda-roupa. A dificuldade de alcançá-las quase me fez desistir de pegar a bendita, mas insisti comigo mesma. Caixa grande que curiosamente tinha coraçõezinhos desenhados nela, dentro não tinha o meu. Na tentativa da segunda caixa, que não tinha corações desenhados fora, eu achei um saco de pano de cor cru onde dentro felizmente batia o meu coração.

Um alívio. Desci da escadinha enferrujada segurando quase num abraço o coração que retirei de mim meses atrás. Ao abrir o saco no qual guardei o bendito vi que ele ainda estava um pouco machucado. Talvez se eu tivesse deixado ele no peito… mas agora era tarde, por sinal, tarde era o período que eu tinha que me encontrar com Gabriel na sorveteria.

Dei um pequeno trato no coração. Limpei as feridas, verifiquei se as veias estavam todas certinhas no lugar e tentei ver se havia algum resquício antigo nele. Apesar de machucado ainda batia bem, estava forte. Preferi deixá-lo no saco, seria melhor caso o Gabriel merecesse ganhar esse nobre coração.

Assim que terminei de ajeitar as pequenas feridas que ainda tinha no coração vi que tudo estava uma grande bagunça no meu quarto. E apesar da certeza das broncas que tomaria eu deixei tudo ali espalhado, depois eu resolveria.

Banho tomado, vestido colocado, dinheiro e documento na bolsa peguei o saco de pano com o coração. Através da corda em que eu segurava sentia o coração bater lá dentro. Uma estranha sensação de saber que se está vivo.

Saí sem dar tchau pra minha mãe. Lá de fora ouvi ela me chamar de malcriada e mandou que eu voltasse cedo.

Na sorveteria o Gabriel ainda não estava. Ele deveria estar chegando… Deveria, mas dias depois eu vi que não estava. Liguei duas vezes no celular dele e ele nem atendeu. Só depois de quase meia hora é que ele mandou uma mensagem dizendo “perdi a hora, desculpe”. Pedi um sorvete de limão, o azedo ia combinar com a minha irritação. E apesar disso, parecia doce demais. Eu e sorvete ficamos ali por bons minutos até ele todo ir pro estomago. Fiquei feliz de o problema dos amores ser sempre o coração e não o estômago, pelo menos eu sempre poderia comer sem me preocupar.

Resolvi voltar pra casa, no caminho me lembrei exatamente porque eu tinha guardado o coração e porque ele não deveria sair de lá. E minha memória me trouxe de volta o porquê de ele ainda estar machucado. Eu boba, havia esquecido e já tava até querendo entregar ele pra outra pessoa de novo. Deveria pensar também em guardar o cérebro num saco cru.

Em casa peguei a antiga caixa onde o coração ficou por meses e o guardei de volta ali. Lá ele estaria seguro de novo, ninguém o machucaria e só eu saberia onde estava, se é que não esqueceria. Muito melhor.

Depois do coração guardadinho eu ainda tinha um caos inteiro para desfazer no chão.

2803

Não tão longe ele estava, e de lá me viu. Laranja temperou o momento, tão inocente e juvenil. De mim, as palavras e a voz ele desejou ouvir.

Demorou um tanto ainda, mas os dois caminhos se fizeram encontrar. Já estava destinado. O conhecer, conversar, admirar. E lá estávamos nós, duas quase não mais crianças descobrindo o iniciar do amor.

Do primeiro beijo, do descobrir, do conhecer, da amizade… De tudo o que era novo juntos vivemos e daí tudo construímos.

Ele me encantou com seu jeitinho menino, pintado de calmaria para acalentar minha ansiedade. Adorava desenhar, me desenhar também. Não podia encontrar uma câmera que já ia a me fotografar. Saia até com um boné com nossos nomes.

Me viu crescer, carregou consigo todo o meu medo, me viu virar mulher, me fez sua mulher. Me fez sua vida, fez da minha vida sua. Nos fez ser um.

Com seu amor inflado de paixão me fez entender de fato o que é o amor. Fez-me ser tudo o que hoje sou. Me fez entender que alma gêmea existe, que amor a primeira vista acontece. E que amor eterno não é utopia.

Sempre será o anjo que Deus mandou de presente pra mim, pra cuidar de mim, pra fazer de mim tudo o que eu sou. O maior presente que o universo me deu.

Seu amor me completou, é tudo aquilo que eu não posso ser. Preencheu cada vazio que minha vida tinha, brilhou a noite durante minha cegueira. É a esperança enquanto nada mais resta.

Dizer Te Amo é pouco. Proclamar que é meu ar, minha água… nada disso nunca vai ser suficiente para expressar aquilo que minha alma grita por ele.

Não cito número de anos, meses, dias juntos. Não importa tal data. Nosso amor sempre existiu, sempre foi nosso, único… Não tem data. Não é dessa vida, nem desse plano terreno. É celeste, é eterno, é da alma, é nosso.

Preparados agora estamos, para ser o que sempre sonhamos, aquilo desejamos. Me deixa ansiosa saber que perante Deus seria sua tão logo. Não que eu nunca tenha sido, na verdade sempre fui. E fui desde que Deus me deu-o como presente. Agora seremos uma família. Uma explosão de todo o contemplar, de todo o amor que meu coração carrega.

Felicidade deveria ser meu sobrenome, o que carregarei dele. Pois felicidade foi tudo o que ele sempre lutou para me dar.

  988236_10201480007833240_2061140415_n

O último trem.

Desci sem pressa as escadas cinza que moldavam o caminho até a plataforma do trem. Passo a passo me dei conta da atmosfera melancólica que aquilo me proporcionava.

O vento frio ia e vinha sem medo, trazia consigo pequenas nuvens escuras de poeira viajante. Também fazia com que as plantas de um outonal vermelho seco abraçadas ao muro branco que protegia a estação dançassem em um espetáculo sem público indo da direita para a esquerda e descansando enquanto se preparavam para o próximo passo.

Sentei em um banco sem cor. Não havia qualquer barulho, o silencio passeava por cada canto do lugar naquele vazio aconchegante.

Engraçado como estações de trem são sempre assim, o nada preenchido por pessoas que vem e vão e deixam as outras irem e virem. Um lugar certo para mim. Havia algumas pessoas aguardando o próximo trem. Nenhuma delas falava. Quase nem se mexiam.

O vento não se cansava de obrigar as plantas a darem o seu pequeno show. Elas também não pareciam incomodadas.

Durante os minutos, incontáveis, que ali fiquei o único barulho que ouvia era do trem se aproximando. A frente da maquina vinha sempre num vermelho vivo que gritava enquanto aproximava. No momento em que as portas se abriam o som de vozes rebatia em mim, aleatórias e agudas.

Demorei um pouco para criar a necessária coragem. Um passo. Dois passos. Ultrapassei a tal faixa amarela. Ninguém se importou. Pude notar treze diferentes e silenciosas pessoas distraídas. Dos infelizes boatos dizia-se que tal cabalístico número trazia azar. Mentira trovada sem amor.

Fechei os olhos, cabeça pra cima. Deixei que toda a energia se concentrasse e o vento frio tomar toda a minha pele. Ouvi o barulho. Preferi não ver. Apenas fiquei, cambaleei de leve, meu peito subia e descia pesado, o sangue percorria dolorosamente meu corpo. Soltei o papel que segurava, deixei o corpo cair. Senti o alivio da paz ser libertado a cada osso que moía. Senti que finalmente vivia.

Hoje

Acordei com lágrimas insistindo em correr pra fora. Acordei sem vontade de deixar o cobertor pra trás, era como tirar a mínima segurança que me suportava.

Hoje eu não quis acordar, não quis morrer, só não queria sair de casa e enfrentar todas as pedras. Era só ficar deitada, respirar e deixar as teimosas lágrimas saírem um pouco: esvaziar a mente.

Eu só queria que hoje o dia corresse sem hora, nada de pressa.

Que eu pudesse ouvir pássaros.

Só queria sentir a segurança de que viveria e não apenas existiria.

Alaranjado

Ele odiava a mescla de laranja e amarelo formada no oriente. Principalmente quando as nuvens desenhavam no azul celeste para moldar ainda mais aquela cena.

Odiava profundamente.

Cada uma daquelas tonalidades que formava no céu, vez ou outra até rosa aparecia, lembrava a ele os detalhes nos olhos dela. Um castanho levemente pintado de claro que brilhava ainda mais quando o por do Sol se punha.

Odiava, mas não conseguia deixar de admirar a despedida do sol.

Admirava diariamente. E admirava porque era ali que ele lembrava dela. Era através dessa transformação de dia em noite que ela estava. Cada pequeno pedaço dela estava ali. E por isso ele também odiava o por do Sol.

Nada era assim antes daquele dia. Ele nem reparava em nascer ou morrer do Sol ou de Lua. Nunca fez tanta importância ou diferença aquele momento terreno e divino. Nunca até conhecer ela.

Ela tinha cabelos vermelhos esvoaçantes. Lábio pequeno, olhos cor de mel. Nariz modelado no rosto. Algumas pintas na bochecha finalizavam o charme daquele conjunto de detalhes. Ela também tinha uma vontade absurda de sair e conhecer o mundo. Sonhadora demais.

Trocaram o primeiro beijo em meio a um dia chuvoso embaixo da arvore da praça depois de um tempão sendo só amigos.

Ficaram só amigos por muito tempo. Tempo demais.

Mas amigos que se beijavam. Que fugiam escondidos depois da aula e ficavam enroscado em um canto distante pra ninguém ver.

Ela ensinou ele a olhar pro céu no fim do dia e ver o dia indo embora. E ele começou a gostar de olhar aquele eterno fim porque os olhos dela ficavam mais brilhantes.

O que ele não gostava, é que ela sempre dizia que queria ver o Sol partindo de todos os lugares do mundo. Que coisa era aquela de querer ver a mesma coisa de todo lugar? Ele nunca tentou dizer pra ela parar de ser doida com aquelas idéias. Ela era firme com aquilo. Mas sei lá né, vai que ela desistia disso?

Ela não parecia querer ele tanto quanto ele queria ela. Mas ele gostava tanto dela. Gostava de sair da escola, ir pra um lugar escondido, beijar, ver o Sol ir embora.

Até que ele criou coragem, roubou a toalha xadrez da mãe, roubou doce da casa da avó e comprou suco. Tacou tudo na mochila e fui pra escola. Depois que saiu ele e ela foram pra um campo, não tão perto e nem tão longe. Eles namoraram. Depois comeram. Tudo em cima daquela toalha xadrez vermelha e branco. E ela então contou pra ele que ia viajar, ia conhecer o mundo. Ele lembrou de tudo o que já tinha visto em filme romântico, precisava fazer alguma coisa pra ela desistir de tudo e ficarem juntos pra sempre.

Criou coragem, respirou fundo, pegou na mão fina dela e disse em um tom de voz baixo, meio rouco:

– Eu te amo. Quer namorar comigo?

As bochechas repletas de pintinhas nem vermelha ficaram. Mas ela sorriu complacente, deu uma batidinha amigável nas costas dele.

– Eu prefiro o por do sol.

Foram as últimas palavras que ele ouviu ao som da voz doce dela. Palavras essas que saíram como uma brisa, mas acertaram ele como uma chicotada.

Ele nem soube o que responder. O que ela disse ficou ali martelando a cabeça dele, martelando até ele não suportar mais e querer tirar aquilo da cabeça a todo custo. Mas não tinha como tirar aquilo da cabeça.

Ela levantou, ajeitou o vestido e foi embora. Sem dizer nada além daquela história de “prefiro o por do sol”. Ele estava paralisado sentado naquela toalha xadrez. Viu ela indo embora dali, viu sumir. Mas o cheiro dela estava ali e o por do Sol também, pra ele ver, admirar e lembrar para toda a vida as últimas palavras que ela jogou nele.

Ele odiava o por do sol desde aquele dia, odiava porque como ela, o por do sol era sempre a última coisa do dia.

Espectro

Espectro

 “As leis naturais são feitas e relacionadas umas com as outras como se a Faculdade de Julgar as houvesse produzido para o seu próprio uso.” Goethe.

A vingança tem as mesmas cores que o arco-íris. Um espectro completo de vermelho a roxo.

Agora eu tenho certeza disso.

Toda aquela mistura de sensações, de satisfação, o desespero que corria no meu sangue. A arca da aliança de Noé.

Minha respiração era pesada, o peito subia e descia em um compasso ritmado. Minhas mãos estavam mais pesadas, o liquido quente e grosso escorria por entre os dedos e pingava no chão, pintava tudo de vermelho.

O corpo ali embaixo do meu já não respirava mais. O relógio tiquetaqueava alto naquele insano silencio de vitória. Uma contraposição de saciedade e vazio, branco e preto, silêncio e grito, bombados para todo o corpo a cada batida do meu coração.

Aquilo começou na primavera de 92, um parto difícil de uma gravidez indesejada. De lá pra cá tudo desandou monstruosamente. Como um penhasco, sentia que minha vida começara no alto e despencava a cada novo segundo.

Quando ainda enrolada na manta rosa do hospital eu chegara em casa, ela esqueceu de me alimentar, preferiu sair e encontrar os amigos. Por quase um dia, contou a vizinha, chorei. Um grito de desespero por um único gole de leite materno.

Quando completei quatro meses de vida me jogou em uma creche qualquer. Lá eu ficava desde que o dia amanhecia até o inicio da noite. Quando voltava pra casa, era direto pro colchão no chão, já que berço era caro demais.

Como eu me lembro disso? Porque essa rotina se manteve por anos a fio.

Aprendi a andar, a falar e a brincar na escolinha. Pessoas estranhas me ensinaram aquilo que minha própria mãe não fez questão de me ensinar. Foi na escolinha que aprendi a rezar também, e por anos eu rezei todas as noites para que minha mãe que me amasse.

Ainda pequena sem festa de aniversário, sem brinquedos. Repleta de deveres. Aos seis anos me obrigou a lavar minha primeira louça. O inicio de uma escravidão caseira.

As orações nunca funcionaram.

Me recordo durante minha infância que ela preferia passar o dia longe de mim. Apesar da pouca idade, desde os seis anos eu passava a noite sozinha na casa de dois cômodos que morávamos. Antes disso, ficava sempre na casa dos vizinhos.

Eu era magra, vivia com fome. Não tinha qualquer atenção.

Quando completei oito anos parei de chamá-la de mãe. Foi com essa mesma idade que descobri como um Natal era vivido. Pude vive-lo na casa de uma colega. Foi também nessa época que ela começou a trazer homens estranhos pra casa.

Ela me odiava. Eu tive plena certeza disso quando ela estava beijando um deles e percebeu que eu a olhava. Perguntou por que eu não morria logo.

E eu tentei. Um gole de pinga com os remédios estranhos que ela tomava.

Não funcionou.

Pra minha tristeza precisei passar dois dias em um hospital imundo. Ela não me visitou durante os dias, nem se importou com o que os médicos disseram quando foi me buscar. Chegando em casa, aproveitou para me bater. Tirou sangue de mim.

Percebi então que quem deveria morrer logo não era eu.

Junto com minha pré-adolescência começaram as brigas se intensificaram. Eu não queria mais cozinhar, lavar, nem usar os trapos velhos que meus vizinhos me davam.

Passei a odiar aquela mulher asquerosa.

Ela passou a me bater com uma freqüência desleal por motivos espúrios. Queria a todo custo arrancar meus cabelos, cuspia na minha cara o quanto me odiava, o quanto eu havia estragado a vida dela.

Quieta, eu ouvia tudo. Guardava em meu coração cada uma daquelas palavras.

Mas eu ainda tinha esperança.

Foi nessa época que procurei um trabalho, larguei a escola.

Foi também nessa época que percebi o quão desprezível era minha vida.

Passei apenas mais cinco anos ali, e quando completei 18 anos saí de casa. Retomava ai minha esperança, minha cura;

Amarelo

Não foi fácil me estabilizar. Percebi que emocionalmente eu estava desequilibrada. Quando coloquei os pés naquele quarto imundo que eu chamaria de casa minha primeira reação foi desabar em lágrimas.

Passei dois anos em terapia intensiva, dada pelo governo.

E após me acertar comigo mesma eu resolvi voltar e repor a paz com aquela mulher que me trouxe ao mundo. Decisão difícil que me fez sentir um gosto amargo na boca por quatro dias.

Laranja

Bati na porta da casa velha que morei por anos. Ela saiu. Descabelada, com a aparência velha e enrugada. Fumava um cigarro vagabundo.

A primeira coisa que fez foi gritar “puta”. Me arrependi amargamente naquele momento. Ela saiu pra me bater. E me bateu. Com um cabo de vassoura velho, disse que me odiava que não queria me ver de novo. Ai de mim se voltasse ali.

Cuspiu na minha cara, disse que eu fui o maior erro de sua vida.

Tive certeza que a odiava. Senti o amargor daquelas palavras em minha boca por quase seis meses. Fiquei angustiada, desorientada.

Por dois dias eu chorei. Chorei por ser um ninguém. Chorei por odiá-la, por ela me odiar.

Lavei a alma daquela insuficiência e então decidi que o problema nunca fui eu, sempre foi ela. Meu sangue passou a ser substituído por ódio.

Não foi difícil organizar tudo, planejar tudo. Demorei alguns meses planejando.

Até que o grande dia chegou.

Chovia. Um fatídico dia que começou cheirando molhado.

Quando cheguei só conseguia enxergar a casa de paredes alaranjadas.

Entrei sem fazer barulho, sem bater ou me anunciar. Minha roupa molhada pingava marcando o chão empoeirado.

Para minha surpresa, o corpo da mulher que era minha mãe estava caído no chão.

Passei alguns segundos observando até que agachei ao lado dela e tentei sentir a respiração com um dedo próximo ao nariz. Era fraca, mas ainda respirava. Felizmente, para mim, ela estava viva.

Me assustei ao sentir a mão dela segurar meu braço. Com extrema dificuldade, a voz dela saiu pedindo ajuda, sussurrou dizendo que o peito doía demais.

Pedi que acalma-se e vi nos olhos dela, lacrimejados, que realmente precisava de ajuda.

Não pensei duas vezes.

Levantei, peguei a faca de açougueiro que trouxe na bolsa. Sorri e voltei até ela.

Me lembro apenas de ver o vermelho do sangue escorrer do pescoço dela. Ouvi uma tentativa de grito, lembro das mãos dela tentando me segurar.

xxxxxxxx

Não sei quanto tempo passei ali depois de cortar a garganta daquela mulher.

Do penhasco que fui jogada quando nasci eu sentia agora que voltava ao inicio. O topo de onde poderia novamente me jogar.

Quando me retiraram da casa já não chovia mais, estava ensolarado. No céu eu pude então ver as cores da minha vingança, de roxo a vermelho ele brilhava no céu. A minha então, liberdade.

 

João

João.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” – Oscar Wilde

João voltou apressado do refeitório sem nem ter terminado seu café da manhã. Naquela manhã em particular, não estava com vontade de ouvir a costumeira zombaria de seus amigos. Acordara deveras chateado. Foi direto para seu quarto escuro e trancou a porta. A única vantagem de sua deformação era aquela: um quarto exclusivo para si.
Deitou na cama dura e pequena e abraçou as próprias pernas. Aquele era o único lugar no mundo onde se sentia bem consigo mesmo.
Chovia lá fora. Uma garoa fina e barulhenta. Era outono.
João mantinha-se imóvel ainda. A respiração difícil parecia mais pesada que o natural.
“Nesta rua, nesta rua tem um bosque…” começou com a voz rouca “que se chama, que se chama solidããoo”
Sempre cantava aquela cantiga quando estava triste. Isso significava que era cantada quase todos os dias.
E ali, cantarolando baixinho ele ficou até a enfermeira bater na porta.
Tomou os dois comprimidos rotineiros. Ela começou então a examiná-lo.
João ficou ali vendo a mulher de meia idade ouvir seu coração, depois medir sua pressão. Naquela hora era bem provável que os demais garotos estivessem arrumando seus pertences para a ida a escola. João não ia para a escola. Com sua deformidade o padre e as freiras que cuidavam do orfanato preferiam que ele ficasse em casa.
Ele foi abandonado ainda recém-nascido, com a placenta ainda envolta em seu corpo pequeno. Ele não tinha nenhum cabelo, nem sobrancelha. E apesar disso, inicialmente nenhuma pessoa desconfiou de nada. Lhe batizaram de João, mesmo nome do discípulo mais amado de Jesus. Afinal, concluíram as freiras, Jesus amou tanto aquele menino que o colocou ali para ser cuidado. João duvidava um pouco disso, mas nunca questionou.
Já no primeiro ano de vida do menino todos tiveram uma certeza: ele não era normal. A cabeça era muito grande, o maxilar era muito pequeno. Ele era muito pequeno. A pele branca em excesso, fina e enrugada demais. Nenhum cabelo…
Ninguém sabia de fato o que era aquilo. A enfermeira do local começou então a investigar. A primeira atitude foi a de separar o garoto dos demais. Afinal, os garotos normais poderiam machucá-lo. Vai se saber o que João tinha afinal, mas que era frágil, todos sabiam.
Quando completou dois anos, começou a tomar vitaminas. Nunca mais parou.
Só que o pior não era isso. O pior era como os demais garotos gostavam de zombar dele e parecia que ninguém adulto se importava. Todos os possíveis nomes eram cuspidos na cara de João todos os dias.
Ele fingia não se importar. Mas nunca o deixavam em paz.
Depois de medir o punho de João com o próprio punho a enfermeira levantou e abriu a cortina preta.
João fechou os olhos e fez uma leve careta.
– Você precisa tomar Sol. – resmungou guardando os instrumentos médicos em uma bolsa.
O menino não protestou, mas também não entendeu porque a mulher abriu a janela se lá fora não tinha Sol. Estava nublado e garoando.
– Hoje você parece mais cansado.
Fez um sim com a cabeça.
A enfermeira deu os ombros. – Se precisar de alguma coisa, ou se não se sentir bem, me avise. Seu coração parece cansado também.
João fez outro sim com a cabeça e logo que a mulher saiu ele fechou novamente a cortina.
Não gostava muito de luz, pois muita luz significava que veria seu reflexo em alguma coisa. E ele não gostava de se ver em nada. Seu quarto não tinha espelhos e quando ia escovar os dentes ele fazia com a cabeça bem baixa para que não precisasse se olhar.
Aprendera a não gostar de si próprio. Sua cabeça era bem maior do que a dos demais meninos. Seu corpo era bem menor que o dos demais meninos.
Ele voltou à cama, abraçou novamente as próprias pernas e continuou cantarolando.
Meia hora depois, uma das freiras entrou no quarto, acendeu a luz e o chamou para as aulas matinais. Como não ia para a escola, as próprias mulheres do orfanato o ensinavam a ler e escrever.
Teve aulas até a hora do almoço. Ainda assim, ele estava sem fome. Só foi comer porque a freia professora ordenou que fosse comer.
Ela não pareciam notar ou se importar com o fato de ele estar sem fome.
A contra gosto ele foi. E bastou por o pé dentro do refeitório e começou a ouvir os murmúrios e risos de deboche. Ouviu diversos: “Cabeça de elefante”, “Bicho papão”, “mostro do lago” “velho estranho” e outras demais coisas que ele não quis se lembrar.
Pegou apenas purê de batatas, arroz e um pedaço pequeno de carne. Sentou no canto próximo ao banheiro e comeu de cabeça baixa. A comida não parecia tão gostosa como ele podia se lembrar.
Deixou metade do prato ali e saiu enquanto ouvia mais zombarias a seu respeito. Andou cambaleando de leve até chegar ao corredor que dava acesso aos quartos. O ar parecia escasso, mas ele conseguiu respirar fundo e conseguir mais fôlego.
Chegou ao quarto e praticamente jogou seu próprio corpo na cama.
Ficou ali até conseguir recuperar novamente todo o ar que precisava para viver e só se levantou quando percebeu que a comida que acabara de ingerir não iria ficar em seu estomago.
Depois de se libertar daquela comida de gosto azedo ele voltou pra cama. E só saiu de lá no fim da tarde.
Não chovia mais e ele podia ouvir o barulho das crianças correndo lá fora. Olhou por uma fina brecha que abrira na cortina e observou as crianças normais correndo na grama recém molhada.
A enfermeira e as freiras haviam dito durante toda sua pequena vida que ele não era normal, e por isso, ele sabia que não poderia correr lá fora com aqueles que eram normais. Mas dali de seu quarto ele pode sentir a felicidade que era ser um menino normal.
Deixou de observar os garotos lá fora depois de sentir uma dor estranha no peito. Doía demais e o fazia se contorcer deitado no chão frio. A dor o fazia sentir novamente a ausência de ar nos pulmões. As mãos tremiam e suavam.
Ficou ali se contorcendo até aos poucos aquela sensação estranha ir amenizando. Quando notou, suas mãos pequenas estavam juntas em cima do peito.
Depois do ocorrido ouviu a chamada para o jantar. Mas preferiu não sair do quarto. Ficou ali na cama, no mundo escuro que havia criado para si.
Adormeceu.
Ele não viu exatamente que horas eram, mas imaginou que já era de madrugada quando acordou. O sono pesado havia deixado na memória um monte de sonhos estranhos para aquele pequeno velho garoto de 12 anos.
Resolveu tomar um banho morno, mas desistiu quando recordou que se fosse a “hora do banho” poderia encontrar algum dos garotos ali. Preferia evitá-los. Principalmente na hora do banho.
Sabia que já não era tão cedo e que pelo silencio lá fora sinalizava que poderia dormir novamente.
E foi o que fez. Sentiu aquela dor estranha dor no peito voltar enquanto ouvia a chuva voltar a cair lá fora.
Quando amanheceu, o refeitório estava com o espaço próximo ao banheiro vazio.
Naquela manhã os garotos do orfanato não teriam o costumeiro João para rirem. Naquela manhã em especial o velho garoto não acordou.
Nunca mais acordaria.

Amarelo

O dia amanhecera claro naquela manhã primaveril. A luz clara adentrava ao quarto branco e tonalizava de leve aqueles móveis sem cor. A cortina pesada estava propositalmente amarrada, Joana havia deixado assim na noite anterior, pois gostava de apreciar cada novo amanhecer. Sabia que não o veria daquela maneira para sempre.

Ficou na cama nos primeiros 20 minutos em que o Sol erguia-se diante do mundo. Abriu lentamente os olhos de pele engenhada e observou o levantar do astro rei.

Naquela manhã em especial preferiu não sair da cama como costumava fazer depois daqueles minutos de paz. Não sentia vontade de sair dali e deixar de admirar a luz amarelada que entrava por sua janela. Joana não se preocupou em retirar o lençol fino de cima de si. Típico sinal de que não sairia daquela cama tão cedo. Respirou pesado e sorriu enquanto passava seus olhos pelo quarto silencioso. Não era comum aquele silencio naquela hora do dia, a não ser que o Sol tenha nascido mais cedo do que o costume.

Os olhos de Joana passaram pela pequena escrivaninha, depois pela cama ao lado com a qual Maria dormia e depois pela poltrona que ficava atrás da porta, e foi lá que Joana tomou um leve susto. Uma garotinha estava sentada ali. A senhora exprimiu os olhos para tentar ver melhor.

A menina era loira, de um cabelo fino, olhos azulados e pele pálida. Os lábios eram de uma tonalidade rosada que combinava perfeitamente com suas bochechas, também rosadas. Usava um vestido de cor amarela com um lindo barrado bordado, complementava o visual infantil com sapatos brancos com meias cano baixo e que tinham um lindo bordado na barra.

– Bom dia – disse a voz fina e adocicada da garota. Ela se levantou e caminhou até próximo da cama de Joana.

A senhora em um reflexo rápido recolheu-se para trás. Ela não estava necessariamente com medo, mas ainda não havia de fato reconhecido quem era a garota, talvez fosse neta de Maria.

– Quem é você? – perguntou ainda afastada

– A senhora está com medo? – a voz da garota carregava um leve desapontamento. – Eu não ou um monstro.

Joana sorriu da dedução da garota. Era obvio que ela não era nenhum monstro. Não poderia ser com aquele rosto bem desenhado e bochechas rosadas.

– Eu sei que não é um monstro – respondeu com a voz levemente rouca – Mas não sei quem é você, não sabia que já era hora de visitas.

A garotinha deu os ombros e voltou para a poltrona. Sentou e deixou as pernas suspensas balançando em um ritmo infantil.

– Não vai me dizer seu nome? – Perguntou Joana. Ela sentia o corpo pesado e acomodou-se novamente deitada.

– Mas você sabe qual é. – a garota loira pareceu não dar atenção. Algo típico para seus aparentes 5 anos de idade.

Joana ergueu levemente o corpo e forçou os olhos para tentar ver melhor o rostinho daquela garota misteriosa. Sua memória se revirou e lá no fundo ela sentia que sabia quem era.

– Não sei seu nome. – insistiu.

A garotinha suspirou. Deu um leve salto e saiu caminhando em volta do quarto.

Ela olhou os papeis que estavam em cima da escrivaninha, sorriu enquanto olhava um deles em especial. Depois andou até a cama da Maria, que ainda dormia e parecia não ouvir nada daquela conversa. Deu um beijo na testa da outra senhora e a cobriu. Foi até a janela e desamarrou a cortina pesada deixando que o peso encobrisse toda a clareza que vinha de fora.

– Não faça isso. – disse Joana levemente irritada com a garotinha. Queria levantar e tirar aquela pequena intrusa dali, mas seu corpo pesava tanto que desistiu da idéia.

A garotinha não se importou com a lamuria de Joana. Ela apenas andou calma e parou em frente à senhora.

Joana se ajeitou novamente. O corpo parecia não obedecer. Foi então que, apesar da escuridão ela pode observar melhor aquela garotinha, que agora sorria suavemente e transmitia uma paz estranha. Em seus 93 anos jamais imaginou vê-la novamente. Mas ela via. Via a si mesma com apenas 5 anos de idade, usando seu vestido amarelo favorito.

Joana sorriu.

E agora entendia o porquê daquela garotinha estar ali. Ela havia vindo buscar-lhe.

Joana então estendeu a mão e tocou o dedo suave de seu próprio eu. A garotinha sorriu e com a mão livre retirou mechas do cabelo embranquecido que caia sob os olhos. A pequena garota sorriu em resposta ao sorriso da senhora idosa.

Uma lágrima fina escorreu dos olhos de Joana, que não retirou o sorriu sereno do rosto.

E então ambas fecharam os olhos.