A CIDADE E O PROGRESSO PRESENTE NAS OBRAS DE MARIO DE ANDRADE E OSWALD DE ANDRADE

A CIDADE E O PROGRESSO PRESENTE NAS OBRAS DE MARIO DE ANDRADE E OSWALD DE ANDRADE

 

Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.

 

O modernismo trouxe ao Brasil contrapontos importantes da reflexão do nacional e do caráter brasileiro, especialmente em um país que recém libertou seus escravos e vivia um ainda novo sistema político, o progresso vinha como promessa de um futuro que até então era distante daqueles praticados na Europa. O símbolo desse futuro era a cidade, foco principal em São Paulo, que passava por um processo de industrialização e se tornou ponto importante dessa representação do futuro. Muito brevemente o Modernismo entendeu o peso da realidade difícil que aquele progresso trazia e que aproximava de maneira conflituosa parte do Brasil aos espelhos Europeus e que afastava uma outra parte de si deixando de lado naquele momento o histórico do seu o linguajar e a cultura que se formara até então. O país seguia por uma divisão clara que se formou e permeou entre o progresso e o primitivo.

Mario de Andrade, em Macunaíma, extrapola e expõe as relações divisórias desse país separado por uma linha imaginária, onde tinha primitivismo representado pelo rural, e a cidade, que representava o progresso presente na sociedade naqueles anos e tema presente nas diferentes fases do Modernismo. Essa divisão é também externada por Oswald de Andrade em seu livro Pau-Brasil, onde temos um ponto importante sobre a abordagem da linguagem que permeava e que correlacionava com a mesma abordagem que Mario nos direcionava em relação a esse progresso, para seguir com essa correlação analisaremos a temática no poema Pronominais e o capítulo das Cartas a Icamiabas no livro Macunaíma de Mario.

Quando olhamos para a rapsódia de Mário, um dos pontos importantes em Macunaíma é seu conteúdo que de resgata essa linguagem do populário, sendo um livro escrito com um vocabulário vasto contemplando o linguajar indígena e popular. Alfredo Bosi em Situação de Macunaíma diz que “Quanto a dicção complexa de Mario, retoma processos de composição e de linguagem da narrativa oral indígena ou arcaico-popular.”. Em relação a estrutura, pontuado por Gilda de Mello e Souza, o livro é quase uma catalogação daquilo tudo que Mario captou em suas viagens ao Brasil e seu contato com a cultura popular. É um livro repleto da tradição oral e dos símbolos que acompanhavam o popular brasileiro. Porém no decorrer de seus dezessete capítulos essa relação linguística do popular se destoa no que seria o centro do livro, o nono capítulo, no qual com uma linguagem robusta e erudita que se destoa do restante temos a carta de Macunaíma às Icamiabas. Como pontuado por Bosi, carta essa em tom paródico, sendo ela uma sátira com conteúdo antiparnasiana e antiprovinciana, sendo responsável pela dialetização interna dos fatores estruturais da história oral, Macunaíma é a fusão dos códigos popular e erudito.

No capítulo em questão, Macunaíma conta para as Icamiabas sobre a cidade de São Paulo, na qual havia chegado há pouco tempo com seus dois irmãos e se instalara ali para buscar seu tesouro roubado: a muiraquitã. Macunaíma, o herói brasileiro nascido negro e índio narra sua chegava ao símbolo do progresso e conta sobre as diferenças que permeavam entre aquele novo e o antigo mundo do herói. A carta se inicia com a informação sobre São Paulo ser a maior cidade do universo -de acordo com seus prolixos habitantes-, e que lá a erudição permeava por todos os arredores, o que pesou para eles no início de sua jornada. Porém essa erudição torna tudo mais heroico, relembrando assim a tradução e a pureza antiga. Um resgate crítico do clássico uma vez que esse só é possível com o uso de linguajar sofisticado, porém dito por um então herói que até esse momento da narrativa não usa tal linguajar. Pontuo ainda que, sendo o herói nascido no mundo indígena e no rural há um contraste claro dessa afirmação da necessidade de resgate pelo falar erudito, ele inclusive faz uso desse linguajar sofisticado para escrever a carta, porém essa é direcionada para pessoas que possuem uma mesma origem e formação que ele e consequentemente distantes do erudito, o que pode ser entendido como uma crítica dessa imersão erudita. O herói narra então, nesse linguajar, as estranhezas que aquela cidade trouxe a ele, os nomes dados ao que ele conhecia como guerreiros e que ali eram chamados de civis. Contrapontos da diferença e dessa separação que o Brasil sofria. Mas um dos fatos importantes apontado em toda a carta é a questão da imersão da língua lusitana, aquela inclusive é forma da carta e que a destoa de todos os demais capítulos. Macunaíma ainda aponta que a palavra muiraquitã, objeto inclusive pelo ele está ali, é uma “ferida aos ouvidos latinos”. Uma importante referência ao progresso que a cidade trazia e a renegação do linguajar (e a cultura) popular, até então presente no país e que agora era parte apenas do rural, do chamado primitivismo. No decorrer da carta, essa crítica ao linguajar erudita e a renegação daquele populário se faz presente em diversos pontos. Macunaíma diz  ainda que “ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra.”. E essa mesma questão da distância linguista nos leva a Oswald de Andrade e é encontrada no poema Pronominais, onde Oswald crítica a questão da norma culta versus a linguagem o oral, e faz uma crítica em relação à distância, entre o falado e o escrito.

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro.

Schwarz, em A carroça, o bonde e o poeta moderno, apresenta a fórmula de Oswald para a poesia de Pau-Brasil: “A sua matéria-prima se obtém mediante duas operações: a justaposição de elementos próprios ao Brasil-Colônia e ao Brasil burguês, e a elevação do produto-desconjuntado por definição à dignidade de alegoria do país.”. Oswald apresenta no poema a questão gramatical como ponto de divisão e distancia, por um lado a forma erudita e bem aceita da língua que se divide com o linguajar popular, essa justaposição de elementos. No poema os bons negros e bons brancos, ou aqueles do populário, ignoram a questão da erudição e usam do falar popular para se comunicar, o que não altera inclusive qualquer questão de significado no pedido, novamente uma crítica a questão da distância entre o falado e o escrito. Há ainda um resgate do social e das pessoas do popular, o negro, ainda em condições precárias na sociedade, excluído do rótulo de professor ou aluno é apenas um sabido que não necessariamente aprendeu toda a erudição e inclusive a erudição da língua portuguesa, mas que tem um conhecimento importante para a classe social que está presente. Temos ainda em Schwarz a questão da dualidade, presente em Oswald: “Esta dualidade, cujos dilemas remontam à Independência e desde então se impõem inexoravelmente ao brasileiro culto, suscitou atitudes diversas; talvez não seja exagero dizer que ela animou a  parte crucial de nossa tradição literária.”.

O ponto de correlação entre Mario e Oswald se fincam aqui com a importância desse linguajar, essa justaposição e dualidade formadas pela linguagem. Enquanto Macunaíma, que só usava do linguajar popular usa a carta como forma de erudição, de exposição e retorno da civilidade europeia, apresentando de forma crítica a situação, em Oswald temos um sujeito que sendo um bom brasileiro não precisa, ou não quer, seguir essas regalias da erudição da gramática, criticando os mesmos pontos que Mario. Ambos criticam a distância e a exaltação das formas normativas contra a forma popular que se proliferava.

A carta às Icambias traz outros pontos importantes para analisarmos e que também nos expõe a questão da cidade e o progresso, um deles, e ponto importante da carta que nos mostra ainda mais fortemente essa divisão com o primitivismo se faz presente na passagem:

“mas não devemos esperdiçarmos vosso tempo fero, e muito menos conturbarmos vosso entendimento, com notícias de mal calibre”

Macunaíma narra aí os primeiros sinais do progresso que a cidade trazia consigo, a pressa e a inundação impostas pelo capitalismo aos moldes europeus que se fazia presente. O dinheiro, forte símbolo do sistema, também é um contraponto importante para Macunaíma, ele narra sobre a importância que os papeis monetários tem na cidade e o quanto isso vale para eles em outras importâncias. Fica clara a divisão e o uso do dinheiro como poder. Ele inclusive expõe que diferente daquilo que ele tinha gratuitamente no ambiente distante da cidade, em São Paulo, as moças cobravam pelos prazeres carnais do qual ele gostava tanto de disfrutar.

Há ainda a clara referência da influência europeia e da erudição presente nos dois escritores e nas duas obras, onde os moldes europeus eram fonte de importância para diferentes fatores. A crítica à europeização e a importação dos costumes em Macunaíma se faz presente na passagem “Tudo vai num descalabro sem comedimento, estamos corroídos pelo morbo e pelos miriápodes! Em breve seremos novamente uma colônia da Inglaterra ou da América do Norte!”, seguindo ainda por uma crítica clara a essa divisão com a afirmação de que “os paulistas são a única gente útil do país, e por isso locomotivas” onde traz um importante símbolo do progresso: o transporte. A questão da influência europeia sobre o Brasil se faz presente ainda em outras partes importantes da narrativa, como pontuado por Gilda, a europeização se faz presente logo no início do livro com a transformação da aparência do herói para então uma figura bela e aristocrática e esse pontos acontecem não de maneira inconsequente, mas como um símbolo intencional sobre essa nossa flutuação cultural. Depois da transformação física de Macunaíma, o linguajar, exposto na carta, é um passo para a representação dessa civilidade que o herói precisava tomar. A questão da europeização é também presente em Pronominais de Oswald, a divisão clara no poema entre as tonalidades de pele, a separação clara entre negros e brancos. A civilização e o progresso europeus eram marcados pela predominância branca e a dominação negra. Em Oswald eles aparentemente caminham juntos “o bom negro e o bom branco”, mas sua separação é clara e se faz tão mais intensa com a separação entre o aluno, o professor e o negro, como terceiro ponto e não enquadrado aos demais quadros sociais.

Voltando a Macunaíma, temos a descrição da cidade de São Paulo de maneira épica, seguindo alguns dos moldes clássicos, relação direta entre o erudito e o heroico, segundo o que ele próprio aponta no início da carta em referência ao linguajar culto:

É São Paulo construída sobre sete colinas, à feição tradicional de Roma, a cidade cesárea, “capita” da Latinidade de que provimos; e beija-lhe os pés a grácil e inquieta linfa do Tiêtê. As águas são magnificas, os ares tão amenos quanto os de Aquisgrana ou de Anverres, e a área tão a eles igual e salubridade e abundância, que bem poderá afirmar, ao modo fino dos cronistas, que de três AAA se gera espontaneamente a fauna urbana”

A questão da cidade e do progresso se faz presente em capítulos antecedentes ao analisado, com a chegada de Macunaíma à cidade e que dão base para a análise do capítulo em questão. Há um processo análogo nos capítulos antecedentes para nos apresentar São Paulo, de acordo com a Gilda, que aponta ainda a questão de a cidade ser descrita, antes da carta, como “a cidade macota de São Paulo, esparramada à beira-rio do igarapé Tietê”.

A narração de Macunaíma segue trazendo pontos importantes daquela cidade que se contrapunha tanto com os costumes até então. Porém o principal contraponto que afirma essa separação e a traz como nociva é explicitada na passagem:

“Enfim, senhas Amazonas, heis de saber ainda que a estes progressos e luzida civilização, hão elevado esta grande cidade os seus maiores, também chamados de políticos. Com esse apelativo se designa uma raça refinadíssima de doutores, tão desconhecido de vós, que os diríeis monstros.”.

Em Oswald esse ponto narrativo heroico não é presente de forma direta, porém com sua crítica ao linguajar culto e automaticamente ao linguajar heroico apontado por Macunaíma, a crítica ainda assim se faz presente.

Como relação entre as obras de Oswald e Mario, tanto Macunaíma quanto o poema Pronominais abordam o progresso e a cidade, expondo as linhas divisórias entre o que o progresso trazia, fortemente embalado pela linguagem e a expressão normativa e culta em contraponto ao populário, o oral e o primitivo em oposição ao progresso. Ambos, cada qual a sua maneira, expõe e criticam àquela europeização e modelo de civilidade que se demonstravam como padrão e de certa maneira negavam o populário.

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Meu primeiro ano na Letras

Em 2017 um dos meus sonhos se realizou: passei no curso de Letras da USP!

Esse sonho já era antigo, mas só consegui realizar ele nesse ano de 2017. Eu queria estudar literatura, língua e viver disso. Escrever, fazer oficinas de escrita criativa e criar esse blog foi parte desse sonho também. E agora, estudando Letras pude finalmente chegar mais no fundo desse sonho e o post de hoje é pra contar desse primeiro ano estudando Letras.

O primeiro ano é o ano base da Letras, onde temos quatro matérias que nos introduzem a esse mundo. Claro que ainda é tudo introdutório, porém temos uma imersão bem grande nas matérias e leituras (literárias e técnicas) que nos levam de uma maneira bem intensa a começar os estudos. Nunca imaginei que seria tão intenso e maravilhoso como foi.

A primeira matéria que foi pra mim uma surpresa agradável foi a Introdução aos Estudos Clássicos. Imaginei tão pouco sobre ela, mas essa matéria entrou em uma das favoritas da vida. Estudamos basicamente Grécia e Roma e as produções literárias deles. Começamos com Grécia e aqui tem o que já conhecemos (antes de entrar na Letras): Ilíada e Odisseia. Mas não só lemos os livros, que no seu original eram orais e não escritos, mas estudamos um pouco mais a fundo cada um deles, fazendo até ligações e análises de Homero como um todo. Também nessa matéria que lemos, tanto no primeiro quanto no segundo semestre, a Poética do Aristóteles. Tivemos a Poética de Horácio, mas a base dos estudos foi Aristóteles. E por fim no primeiro semestre também tivemos uma épica latina, Eneida. Tivemos alguns outros textos paralelos, mas todos girando em torno da análise poética e a significância delas, além de estudar mais a fundo as suas relações e a imitação. No segundo semestre os ensinamentos do primeiro vieram conosco, principalmente as referencias dos dois grandes nomes de Homero e Vigílio, porém estudamos retórica, comédia, tragédia, oratória e diálogos, focando em autores como Platão, Cícero, Ésquilo, Aristóteles, Górcias e alguns outros mais filósofos e tragediógrafos gregos e romanos. Lemos obras como Em defesa do Poeta Arquias, Fedro, Sete contra Tebas e Édipo Rei. Aqui também estudamos a relação deles, as imitações, os textos e aprofundamos em cada um deles. A importância aqui é entender principalmente as origens, nossas e da literatura que hoje produzimos e lemos. Claro que não são leituras fáceis, porém, esses autores e textos precisam ser estudados por todos nós.

Outra das matérias que me surpreendeu e inclusive me fez querer a formação também em Português foi Introdução aos Estudos de Língua Portuguesa. Diferente do que se imagina, não aprendemos gramática, isso já é algo que deve vir conosco, além disso não é o foco da USP forma apenas gramáticos, mas estudiosos da língua. Aprendemos sobre variação, sobre texto oral e escrito, sobre dialetos e história da língua. É maravilhoso, me fez ver e amar a nossa língua de uma maneira que não imaginei ser possível. Aqui temos contato com autores como Pretti, Castilho, Basso e Jubran. Aprendi muito sobre as variantes e variações da língua, sobre, principalmente, preconceito linguístico. E apesar de não ter gramática, aprendi também sobre gramática e alguns termos técnicos. O mais legal nessas matérias foram os trabalhos, nos dois semestres, onde fizemos transcrição de áudios. Podemos aqui entender muito mais dos processos da língua, fala e organização. Graças aos ótimos professores que tive, optei por seguir na  habilitação em português pra aprender ainda mais sobre nossa língua, que é tão rica e linda.

Já Elementos da Linguística foi uma matéria que me deixou bem desolada. Era a que eu mais aguardava, pois a habilitação de Linguística era a que eu almejava, mas os dois semestres foram bem ruins -pra mim- e me fizeram desistir da habilitação. Mas linguística, a ciência que estuda as línguas, é maravilhosa, e estudamos ela em todos as línguas, só optei por não seguir exclusivamente nesse estudo. Mesmo com a experiência ruim, foi ótimo entender mais de fonética, fonologia, semiótica, semântica, pragmática e todas as outras frentes de segmentação para estudo de línguas. Focamos em 2 livros principais, com textos de vários autores e organizados pelo Fiorin, um dos professores da própria USP. A base que se leva aqui é ótima pra entender de maneira mais técnica todos os precedentes da língua. Você estuda alguns detalhes tão a fundo, que mesmo parecendo óbvios depois, são desapercebidos quando não estudamos.

Por fim, mas não menos esperada ou importante, a matéria de Estudos Literários. No primeiro semestre estudamos poesia, aprendi tanto sobre estrutura de poesia, história e análise. Eu, mesmo envolvida com a literatura, não fazia ideia da imensidão que poesia tinha e sua complexidade. Meu professor focou em Drummond e durante o semestre lemos muitas poesias dele e fizemos 2 trabalhos (estão aqui no Blog também), lemos também algumas outras: Sonetos de Shakespeare, Goethe, Manuel Bandeira e alguns poetas contemporâneos. Para as leituras teóricas tivemos muito Antonio Candido, mas também tivemos Rosenfeld, Jackobson, Bosi, Auerbach, Kayser e Adorno. Tudo isso pra aprender poesia, sua complexidade, suas analises, psicologia, história e estrutura. Já no segundo semestre nós tivemos prosa, mais precisamente conto e romance. Como base e análise para o trabalho final, lemos O Morro dos Ventos Uivantes, que coloquei aqui no blog também. Mas os contos todos foram focados principalmente em Machado de Assis. Em relação aos contos, lemos também Poe, Kafka, Clarice Lispector, Mario de Andrade, Guimarães Rosa e Cortazar. Para os textos técnicos tivemos Antonio Candido, Pamuk, Carpeaux, Eagleton, Franco Moretti, Ian Watt, Claudio Magris, Walter Benjamin, Osman Lins, Friedman, Tomachevski e Modesto Carone. Devo dizer que, até entrar na USP eu achei que entendia de literatura e sabia fazer análises críticas, mas isso mudou radicalmente quando vi uma análise e com os trabalhos que tive que fazer. Senti que amadureci muito com isso, aprendi mais e abri minha cabeça de uma maneira única pra literatura (o que interferiu diretamente na minha escrita também).

Agora em 2018 entro no meu segundo ano, vou seguir com a habilitação em português e decidi como segunda língua Italiano. Um pouco pela literatura, outro ponto pelo meu desempenho nesse primeiro ano (a escolha da habilitação é de acordo com o número de vagas e sua classificação pela média ponderada do ano). Fora isso, inglês eu já sei, alemão estudei e ainda estudo um pouco. E por fim, Italiano é a língua da minha família, então tem um Q especial na escolha. Apesar das escolhas, meu objetivo é fazer como optativa matérias do maior número possível de literaturas (de cada habilitação) e as teóricas. Fora as matérias de tradução, que serão foco pra mim também, quero me aprofundar e fazer tradução literária.

O que posso afirmar é que estou amando adentrar esse mundo, cada aula é uma felicidade sem fim pra mim, cada aprendizado… As aulas e os trabalhos me pegaram uma boa parcela de tempo, e a desatualização do blog são a prova viva disso, mas meu crescimento pessoal e profissional tem sido maravilhosos. Muita coisa boa vem por aí.

A falta que Ama – Drummond

Uma das coisas que mais fiz nesse semestre na faculdade foi analisar poemas. Tivemos aula sobre Drummond durante o semestre todo e o trabalho final não foi diferente. Como faz muito tempo que poema de sábado não vai ao ar, trago hoje A Falta que Ama e a analise que fiz sobre ele.

A FALTA QUE AMA

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

 

O poema A Falta que Ama foi publicado em 1968, sendo parte do livro que recebe o mesmo nome e é composto por 28 poemas nos quais quinze são de verso livre e os outros são metrificados. O livro é preenchido por um lirismo filosófico, realismo social e conotações metafísicas, como pontuado pela análise de Merquior em seu livro: Verso universo em Drummond. O autor diz ainda que de modo análogo, uma parte expressiva de A Falta que Ama celebra a imprevisível epifania do ser. Considerado dentro da dialética do eu x mundo como parte da visão do eu igual ao mundo. As obras de Drummond da fase de 70 e 80 são repletas dessas recordações, A Falta que Ama é inclusive lançado no mesmo ano que Boitempo, livro que traz muito das lembranças do poeta.

Quando analisamos especificamente o poema A Falta que Ama, chegamos a um poema composto em métrica de redondilha maior com sete sílabas poéticas, é um poema longo de vinte e oito versos. Possuí uma rima alternada em esquema A B A B em todas as estrofes, estabelecendo uma consistência sonora de homofonia final toante. Indo mais fundo nessa analise interpretativa do poema, podemos iniciar com uma passagem de Merquior sobre ele:

“Desejo é uma noção-chave no mundo lírico de A falta. O poema titular do livro (FQA, 144) alia precisamente o tema do oferecimento do ser (a “canção”) ao tema da falta que deseja (não é a definição platônica do amor?).”.

A Falta que Ama trata de um desejo, expresso já em seu título de organização sintática forte, e um possível arrependimento, marcado por tudo o que se poderia ter ou não ter vivido. É também uma espécie de aceitação do próprio destino e do fim a que se chegou. O jogo de palavras do título já exprime essa primeira sensação de perda, falta, arrependimento e busca. A dicção do título nos dá em um primeiro momento estranheza, a troca sintática das palavras e uma estranha sensação de falta de complemento.

Drummond rompe de certa maneira as regras sintáticas no título, que poderia ser “o amor que faltou” ou “o amor que se quis e não encontrou” nos dando uma pista mais concreta daquilo que quer dizer, mas ele é “a falta que ama”, e a inversão sintática nos leva a pensar se é a falta de amar ou algum amor que faltou em si. O título em principio nos tem uma sonoridade estranha, dando uma noção de falta de um sujeito que ama. Essa estranheza que nos prende a tentar decifrar quem ama e o que falta, mas esse entendimento só se fará concreto quando terminado o poema. O título também nos remete um sentimento de perda, o amar aquilo que agora entendemos como nos falta ou algo que não foi valorizado enquanto o tinha. Uma possível busca por entender algo que agora nos faz parte, seja factível ou não.

Analisando a primeira estrofe, no primeiro verso encontramos um lugar em que temos a sensação de ser amplo, composto apenas por areia, sol e grama, e apesar da sensação de abertura do lugar pela descrição, ele ainda assim nos remete a algo limitado. A descrição nos leva a um campo aberto, aparentemente sem sombra. Ainda obscuro para o entendimento inicial, mas que como parte do todo do poema pode nos remeter a um cemitério. Ou ainda esse lugar nos leve a um plano interior, um lugar vazio composto apenas de três pilares (talvez essenciais pra sua formação, mas apenas isso). É então seguido por três versos que falam indiretamente sobre o ter e não ter, nos remetendo a uma possível busca. No segundo verso há a afirmação de que nos esquivamos daquilo que damos a outras pessoas, uma constância em um processo de desviarmos de coisas ou sentimentos que não nos é importante ou essencial, mas que damos direta ou indiretamente aos outros em nosso convívio, talvez algo ríspido e que não queremos para nós próprios, mas damos àqueles que são parte de nossa vida. Um ato de egoísmo, onde não queremos algo para nós e nos esquivamos dele, mas entregamos aos demais. Paralelamente, no terceiro verso, complementar ao anterior e posterior nos leva como um todo a falta que o que o poeta tem de um determinado amor está sendo procurada em alguém que não há. Uma possível busca eterna por alguém/algo que não existe. Talvez uma busca por algo distante e não alcançável o que nos faz também ignorar aquilo que nos está dado e próximo, ou a perda de tempo por buscar algo que nos faltou. Aqui temos um desejo precedido por uma esquiva e uma busca aparentemente vazia. Em geral, nos três últimos versos dessa estrofe fala sobre nos esquivarmos daquilo que não nos é importante e isso respingar aos outros, dando a eles o que esquivamos de nós mesmo, enquanto a falta de amar, ou a falta de um amor puro e real nos faz buscar em vão alguém que não existe. Basicamente, buscando algo que achamos querer para complementar nossos próprios sentimentos, ignoramos aquilo que nos está presente e esquivando-nos da rejeição a damos a alguém que está próximo.

Na segunda estrofe somos contemplados com alguém sendo coberto por terra, o que é complementar ainda ao primeiro verso da primeira estrofe, moldando ainda mais o lugar amplo que foi descrito e temos a primeira ideia direta de um sepultamento/cemitério. Essa pessoa é então jogada no vazio do esquecimento, torrado, seco e o nada. O sepultar desse corpo o levará ao esquecimento, jogado o corpo em um lugar que lhe fará ser esquecido para os que ainda vivem. E esse esquecimento é aprofundado nos versos seguintes, onde, a visão daqueles ainda vivos se pegará apenas ao que está na superfície, à vista será focada apenas na flor (dália) depositada e crescendo ali em cima do cimento da sepultura, a única vida que teremos naquele lugar, nos remetendo mais uma vez ao esquecimento. A inexistência –ou a perda da memória- será ainda retomada nos versos à frente complementando aqui o sentido do esquecer.

De certa maneira, esse esquecimento é retomado já na terceira estrofe, mas com um tom diferente, voltado agora para onde todo ângulo obscuro é coberto de uma transparência durante aquele momento, um sentido de esquecimento do que se era quando vivo na hora de sua morte, seja um ângulo bom, mas principalmente um obscuro. Sendo que tudo ou parte do que se foi vivo, se é deixado à deriva no momento em que se está morto, só nos resta aquilo de não obscuro lembrado na hora da morte. No verso onze passamos pelas cantigas, típicas de sepultamentos interioranos, momento em que não há mais saída e consequentemente não se precisa mais implorar por nenhuma coisa praquele morto (perdão, saúde…) e não há também motivos para se rir. Uma estrofe que nos mostra os ritos de morte e o momento do enterro.

Indo para quarta estrofe, chegamos a um vácuo sepulcral do enterro, tendo ali uma visão mais forte do ser em processo de enterro, ele já não escuta mais os sons externos e nem mesmo o da poeira que corre em cima de si, ele é incapaz de ouvir a terra espalhada – pelo gesto de jogar punhados de terra em cima do caixão – que acontece fora dali, sendo essa terra espalhada por cima de si do caixão. E é então no décimo quinto e décimo sexto verso que o resumo da vida é fixado em um epitáfio, quando “A vida conta-se inteira, em letras de conclusão”, de toda uma vida, o que lhe restará será de lembrança será apenas aquelas palavras fixadas ali. Outra referencia ao esquecimento daquilo que quis ser em vida, dos pensamentos jogados à luz e caídos na deriva: só sobrará aquilo que foi colocado nas letras de conclusão, que se remete ao que sua vida foi, sua lembrança pelo que os outros se lembram ou associam a ele: um epitáfio e uma dália enfeitando o túmulo.

Vem então o desejo daquilo que não se viveu, a quinta estrofe trás as indagações ou as melancolias sobre a perda de tempo ou a não cura de muitas das dores que se teve. Em “nunca se escoa o tempo, chaga sem pus?” chegamos a uma dor não física, uma ferida de sentimento e que o tempo agora não mais valioso nunca levou embora. Nos primeiros versos vemos ainda uma indagação sobre os nossos pensamentos, a sua essência, que será jogado à toa. Temos então uma sensação de que o poeta tem medo de que tudo o que construiu através de suas ideias e pensamentos em vida tenham sido em vão, jogado em um vazio do esquecimento. Em sumo temos um desejo, um questionamento, sobre a herança intelectual e a dor que não é física que o tempo não retira, ou escoa, de si. Aqui podemos remeter novamente ao início do poema, em que a procura é por alguém que não há. Chaga é também um termo que remete a uma referência bíblica com “as chagas de Cristo”, e aqui Drummond pode indiretamente fazer uma referência a isso também, será que as chagas que teve em vida o salvariam em morte, apesar de sua chaga não ser física?

A última estrofe, inicialmente tão enigmática na poesia e parecendo, em uma primeira leitura, desligada do poema, mas parte essencial do entendimento, nos trás o renascer a partir da morte, uma última esperança. Inicialmente, temos um inseto petrificado em uma concha, uma referencia ao corpo, petrificado em seu caixão, já sem vida e logo sem movimentos e calor, preso nessa concha. É isso que no fim nos tornamos? O tédio do passado e da lembrança une-se ali ao futuro. No verso vinte e quatro faz referência à energia, que é a vida, no solo em que apesar de abrigar a morte, pode fazer brotar uma semente (passado e futuro), a vida onde se tem morte. Seguida de um questionamento sobre o recomeçar. Uma possível esperança na vida que ficará em seu lugar. Porém, ele ainda se questionada sobre o fato de todo esse sentimento ser a falta de algo vivido ou sobre sentir demais esse verbo amar.

De modo geral, o poema nos leva a um sepultamento, sendo o poeta aquele preso à sepultura e ao fim inevitável de sua vida. Com uma visão de quem está sendo enterrado, e aceitando, em parte, esse destino, ele nos trás seus medos pelo esquecimento de tudo o que suplantou com suas ideias e pode agora ser perdido em uma memória vazia sobre aquilo que foi, está ainda em uma busca final pra entender por ter vivido algo que não se viveu ou amado o que não se amou e sua pontada de fé na vida que nasce pela morte. A Falta que Ama pode ser ainda, assim como essa fase poética de Drummond uma recordação melancólica de tudo aquilo que não fez ou que fez demais. O poema é uma indagação sobre o esquecimento e o vazio daquilo que ele próprio foi. O medo, talvez, de uma lembrança sem importância de tudo aquilo que se é e foi.

Em Inquietudes na poesia de Drummond, de Antônio Candido, um dos temas analisados é justamente esse sufocamento e o sepultamento como parte de uma das inquietudes encontradas nas obras de Drummond, aonde em parte da poesia de Drummond chega a assumir a forma de morte antecipada, que parece não só em A Falta que Ama, mas em outros poemas do mesmo livro. Candido ainda pontua que:

“pode dar lugar à exumação do passado, transformando a memória numa forma de vida ou de ressureição.”.

A Falta que Ama trata justamente dessa memória, do medo dessa perda com os pensamentos jogados à luz, a ausência de som, o vácuo. O poema, e até o livro A Falta que Ama, trata da inquietude do medo, da morte e do vazio. A partir de Claro Enigma, essa aceitação do passado passa a ser parte da poesia de Drummond, e Antônio Candido pontua em seu texto que:

“(…) essa serenidade é também fruto de uma aceitação do nada -, da morte progressiva na existência de cada dia; da dissolução do objeto no ato poético até à negação da própria poesia.”.

Em A Falta que Ama há de certa maneira essa aceitação da morte e seu destino, mas há também a busca pela memória e o questionamento sobre a vida, o que se fez e faz. Retomando Merquior, que se refere ao livro como uma possível definição de amor platônico, pode-se considerar que a Falta que Ama é referente ao amor como virtude e sua vivencia ainda em vida, no seu mais puro amor, sobre aquilo que no fim nos fará falta, gerando então um possível arrependimento sobre aquilo que não foi amado no tempo certo, a falta que ama, talvez o sentir demais, e o buscar eterno pela pureza de um amor, aquela falta de ter vivido e vivenciado mais (ou demais) o verbo amar.

 

Se você chegou até aqui, parabéns! O texto é de fato grande e uma analise bem mais detalhada do que o padrão pra colocar aqui. Mas ela é importante pois consolida muito do que aprendi e de como evoluí nas leituras de poema. Quero voltar com Poema de Sábado, com analises mais profundas e melhor elaboradas, aproveitando tudo o que aprendi nesse primeiro semestre na Letras!

E a vida, como anda?

A galopes!

Há quase um mês as aulas na USP começaram (mais diretamente, dia 13/03). Como eu já imaginava, elas têm consumido bastante da minha energia, uma vez que disponibilizo pouco do que me sobrava de tempo pra estudar e ir as aulas. Mas, pós esse período de adaptação, já posso vir aqui dizer que estou amando e me tem feito um bem não imaginado (na verdade achei que estaria surtando nessa altura). O melhor disso tudo? Não estou apenas me aprofundando em literatura, e indiretamente escrita: estou me afogando nela!

Estou no ano básico, são 2 semestres focados em 4 matérias pra dar a base pra que eu faça uma escolha de habilitação. Quando descobri que era assim, julguei que seria uma certa perda de tempo, mas hoje vejo completamente diferente: essa base tem sido fundamental pra mim. Elas são:

Elementos Linguísticos I (Prof.: Felipe Venâncio)– Estudando a base da linguística, aquisição de fala, fonemas, estrutura de comunicação. É bem complexo todo o sistema, mas muito interligado com o que estudei de teoria da comunicação quando fiz comunicação social. É uma das minhas opções de habilitação, e tenho tido que estudar muito ela.

Introdução aos Estudos de Língua Portuguesa I (Profª.: Mariangela de Araújo) – Aqui, analisamos a história da língua, suas variantes e suas diferentes frentes. Me surpreendi com a matéria e o que tenho aprendido.  Já li muito sobre preconceito linguístico e ele tem se aprofundado aqui, fora que, tenho aprendido tanto sobre minha língua, minha raiz e minha cultura.

Introdução aos Estudos de Literatura I (Prof.: Edu Otsuka) – Essa é de longe a minha matéria favorita. Aprendendo a ler poesia, entender sobre métrica e um pouco sobre teoria literária. O professor leva muita coisa que já vi/li, mas aprofunda no tema de uma maneira que eu não fazia. Tenho aprendido mais do que a ler, é meu aprofundar. Essencial pra minha carreira com a escrita.

Introdução aos Estudos Clássicos I  (Prof.: Alexandre Hasegawa) – Julguei que essa matéria seria “inútil”, mas ela me surpreende a cada aula. Basicamente estudamos Grécia e Roma e suas obras clássicas. Agora estamos nas epopeias e aprendi muito sobre nossa origem, sobre o que e porque somos o que somos hoje. Você entende muito do atual vendo o antigo. Mas essa matéria me fez excluir de vez a opção de fazer Grego ou Latim.

O mais importante disso tudo? Tenho aprendido a ler, escrever e entender melhor todo esse mundo. Se tenho medo de me tornar ainda mais técnica e menos literária? Sim, claro. A academia faz isso conosco, mas não vou deixar isso interferir tanto, pelo contrário. Hoje o que vejo é que o que aprendi tem me afastado do técnico, o “certo” que todos criticavam.

A lista de livros técnicos que estou lendo também é grande (bem grande). E isso tem me ajudado indiretamente em vários aspectos, como  de ler mais rápido. Alguns preciso ler inteiros, outros apenas partes. E vou traze-los como parte do que tenho lido, e eles entrarão na lista de resenhas.

Hoje me sinto dentro daquilo que eu queria muito, que sou eu de verdade. Hoje sinto que valeu deixar de lado muita coisa pra isso estar acontecendo. Aquele fático 2014 e a oficina que deu voz ao blog foram o início disso. Aos poucos as coisas tem voltado ao seu devido lugar, e tempo. Por enquanto, tudo mágico aqui, ainda se ajeitando, mas aos poucos voltando ao que sempre deveria ter sido. Vou dando notícias.

 

Bem-vinda a nova versão de mim mesma.

E as coisas finalmente começaram a se inverter e que agora permaneçam assim. Deixei o blog totalmente ausente em 2016 (acho que posso afirmar que o fiz o mesmo com minha escrita, leituras e carreira literária) pra me dedicar a um sonho: fazer Letras na USP, que se realizou.

Estudar Letras na USP era um sonho. Nessa faculdade em específico pelas opções de habilitação, grade curricular e profundidade da universidade. Queria me envolver com a literatura, linguística, tradução…Eu adiei esse sonho por alguns bons anos, mas na última sexta ele se tornou real. Adiei muitos sonhos nos últimos anos, mas esse blog é a prova viva (digital) de que estou retornando aos poucos.

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Terminei o ensino médio em 2006, na época até tentei (em 2007 também), mas não passei. Em meados de 2008 eu tive a oportunidade de cursar uma universidade através do PROUNI. Não quis “gastar” essa oportunidade com Letras, porque esse curso tinha outro destino. Fui então cursar Comunicação Social. Minha habilitação foi em publicidade e propaganda. Na época desse curso eu pensei em prestar Letras também, mas a vida foi deixando isso de lado. Consegui um estágio, em uma das principais agencias do país (não diria que sorte, mas a vida me levou pra conquistas das quais nem sei dimensionar). Evoluí profissionalmente, ainda na mesma agência. Terminei minha graduação em 2012, mas não tinha condições de seguir pra uma outra em um tempo tão curso. Comecei uma pós-graduação, pra me especializar na área que eu trabalhava, tola, nem imaginava que iria abandonar tudo pra realizar meu sonho. 2013 foi o ano que dediquei pra um intercambio. Em 2014 resolvi que voltaria a tentar, foi o ano que também voltei a escrever, fui fazer uma oficina de criação literária e dela derivou esse blog. E tentei. Fuvest 2015, depois Fuvest 2016. Reprovada em todas. Mas pra Fuvest 2017 eu queria fazer diferente: dediquei a hora do almoço pra estudar, depois o sábado todo pra um cursinho. Não foi um ano fácil, mas eu estudei bastante, e precisava dessa ausência externa e dedicação pra poder realizar isso. E no dia 17/02 o reflexo de tudo isso deu certo: passei! Na última terça me matriculei, hoje acessei o sistema e já vi a minha grade do primeiro semestre.

Felicidade é algo que estou esbanjando sem fim. Os planos? Sinceramente, eu não sei, mas quero aproveitar mais o blog, falar dos meus estudos, aprofundar o que já venho tentando fazer em analises, do que leio, continuar escrevendo… Espero que tudo melhore, evolua e me faça mais presente nesse mundo (agora não preciso mais lembrar o que é diagrama de Pauling!), e claro que eu volte a ativa no blog, na vida e na literatura.

Um amigo (amigão por sinal) deixou-me um texto incrível sobre o momento, e quero deixar ele aqui pra lembrar sempre de que, um novo eu se forma:

“Venha, que a USP não existe mais sem a sua história, sem sua garra, sem as linhas e livros que serão rabiscados com sangue e suor. Sua poesia agora é do mundo. E para isso, não existe ABNT”

Minha poesia, os rascunhos… Tudo isso é pra me fazer melhor e me trazer ainda mais pra perto da literatura que eu gosto, da minha escrita. Minha história deu mais um passo pra próximo daquilo que sonhei pra mim.

Que comece uma nova era em mim.