Últimas matérias do HL

Quem é leitor do blog sabe que além de escrever aqui, também colaboro com matérias mensais no site Homo Literatus, um site-incrível- sobre literatura. Nesse último ano de trabalho lá tenho sempre postado aqui sobre as matérias que publico lá, mas as últimas acabei não comentando antes. Foram 4 matérias:

Foi isso que rolou nos últimos meses. Deem um pulinho lá pra ver as matérias (e as tantas outras que tem por lá).

Otimismo é a arma engatilhada da desilusão

Ouvi por diferentes pessoas e em diferentes momentos ao longo dos anos: pense positivo, seja otimista. Diziam que o positivismo atraí o que é bom, o que se quer. Essa é uma das maiores mentiras que já ouvi. Tive a prova disso no dia em que resolvi acreditar nessa mentira, todo mundo fala né? Deveria dar certo.

Sempre preferi olhar para o lado realista (ou pessimista como a sociedade adepta ao positivo costuma chamar). Minha própria filosofia diz: melhor se surpreender pelo positivo que chegou do que sofrer com o negativo. Quase nunca sofri quando ouvi os nãos da vida, pelo contrário, apesar da desilusão inicial, tinha até um outro animo para ir atrás de uma coisa nova ou tentar de novo… Quando vinha um sim, a vitória tinha um gosto de almoço de domingo em família.

Mas um dia resolvi acreditar na teoria do pensar positivo, usei-a com um sonho específico. E acreditar e pensar positivo não quer dizer que não corri atrás. Dei o melhor de mim pra acontecer e acreditei que realizaria mais aquele sonho. Já tinha até discurso presidencial salvo no bloco de notas do celular. Reprogramei toda a minha vida para viver aquilo. Antes da resposta (sim ou não) eu de fato acreditei. Acreditei que aquilo já era meu, que finalmente ia acontecer, que já era parte de mim. Pensei de maneira otimista. E fiquei de fato dolorosamente ansiosa pra começar, sem nem pensar que a resposta poderia ser diferente da que eu acreditava, era afinal o segredo de dar certo, né? Acreditei a tal ponto, que as nuvens da ilusão fizeram minha queda ser maior do que pensei poder ser. Cair do céu da ilusão é muito pior do que manter os pés firmes na terra do realismo.A queda foi maior. Dói bastante cair. E a altura da queda influência diretamente na sua capacidade de levantar e andar. É a lei da física e do volume da dor. Quando menor a altura da queda, mais fácil a recuperação. CN6MlVaWwAERMiU

O único lado bom nisso tudo é que minha teoria se fez mais forte dentro de mim: não crie expectativas, para NADA. Expectativas são armas carregadas, e quando não sabemos lidar com elas (ou quando a realização está fora do nosso controle) o tiro atinge o alvo errado e o sangue que escorre do próprio erro é mais denso.

Preciso agora me recuperar do tombo. E as cicatrizes me ajudarão a nunca esquecer. Cicatrizes, afinal, servem para isso né?

Lançamento Antologia Rede de Palavras

Ontem, dia 15 de Agosto, foi o lançamento da Antologia Rede de Palavras, no espaço da Editora Scortecci. O evento começou às 15h, uma tarde ensolarada, com clima agradável.

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Cada um dos autores receberam uma edição do livro (cada um no qual fazia parte), e um marca página personalizado. Meu conto esta na página 49 e 50.

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O evento foi bom para trocar experiência com outros escritores, a maioria deles de fora de São Paulo, que vieram apenas para o lançamento. Foi ótimo conhece-los e conversar com cada um. Trocamos contato e autografamos os livros uns dos outros…

Além de toda a experiência de participar de um evento como esse. Pude conhecer um pouco do processo de uma editora, conhecer escritores além dos que participaram da antologia.

Não é possível descrever a realização desse primeiro passo na vida da literatura. É minha primeira publicação impressa. E o conto publicado tem o nome do blog, Enquanto a chuva cai, ele faz parte do livro de contos que deu origem ao blog. Além de ser o conto principal desse aglomerado (nascido na época da Oficina), Enquanto a chuva cai deu origem a um romance, projeto que estou desenvolvendo agora.

Queria também agradecer a cada um de vocês pelo apoio, carinho, pela ajuda de cada um. Ontem foi uma realização única. No Facebook tem um álbum com mais fotos.

Para quem quer conhecer a antologia, conhecer o meu conto, e prestigiar os demais escritores, ela está disponível na loja da Editora Scortecci.

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A/C

De todo o encantamento do mundo, palavras foi sua escolha. Letra a letra pintada em formato de poesia que derruba lágrima e tira sorriso. Vez ou outra gera confusão, reflexão e contorna o mundo em um tom mais belo.

Um dia vou ser como você. Quando eu crescer. Tornar a letra uma magia que transforma.

Quero poder passar ao mundo toda a credibilidade que uma tal de Alice passou, fazer corvos professarem maldições. Expandir assassinatos como os Macbeth. Pintar quadros amaldiçoados. Criar um mundo aonde bruxos vão à escola. E outro onde elfos, duendes e humanos saem em uma jornada.

Rezo para um dia conseguir deixar uma eterna dúvida sobre traição. Fazer toda uma geração perder sua língua e ser dominado por um grande irmão. Fazer dois amantes juvenis se suicidarem. Milionários desabarem. Que um dia eu de uma resposta tão saiba quanto 42. Fazer alguém acordar um inseto. Ou poder pegar o trem e encontrar a morte. Quero que a minha Sofia chegue à ponta do pelo do coelho. Quero fazer alguém beber vinho em crânio. E criar incríveis detetives que possam desvendar o mundo.

Que um dia, minha poesia encante tanto o mundo quanto a sua.

E que um dia, minha palavra seja vida. Quero aprender a fazer do mundo, palavras.

Ausência

Acordei com os pés frios, a ponta de cada dedo já deixara de ser sentida pelo resto do meu corpo. Revirei-me na cama na inútil tentativa de sentir-me melhor. Senti o travesseiro úmido das lágrimas que transbordaram do meu coração. Não pude segura-las na minha alma.

O tique-taque do relógio da sala era ecoado dentro de mim, batia no ritmo do meu coração, quase um martelo em meus ossos. Remexi os dedos dos pés, ainda frios.

Nenhum barulho era ouvido, o que me fez acreditar que ainda era madrugada. Tique-taque, tique-taque o relógio batia sem pressa, com urgência. Resolvi levantar. O frio que meu corpo tomou ao sair da proteção quente do cobertor fez com que toda minha pele ardesse e arrepiasse. Inútil era o veludo que vestia. Caminhei preguiçosamente até a mesa de jantar. Ali me acomodei. Percebi que o frio vinha de dentro, não de fora. Vinha daquele vazio que tinha em mim.

Esperei por um copo de leite quente. Nunca veio. Não viria. Lágrimas novamente cobriram meus olhos e escorreram sem permissão. Os dedos dos meus pés mantinham-se frio.

Resolvi voltar para a cama. Relutei com o cobertor buscando o maior calor possível. Depois de calma e aconchegada, senti que os dedos dos pés ainda estavam frios. Percebi que nunca mais se esquentariam, não sem os seus pés quentes encostados aos meus.

Parasita

Costumo sentir medo.

Irracional, de tudo aquilo que me transporta ao que deveria ser bom. Um sobressalto imaginário daquilo que imagino não existir; ou existir demasiadamente.

Ele transporta-se perante meu corpo como liquido quente implantado em meu sangue. Percorre cada canto de mim, desde os dedos do pé até a cabeça trazendo consigo a desesperada sensação de horror.

Nunca soube quando ele veio de fato se implantar em mim. Parece que sempre existiu, e persistiu em sua pavorosa essência de se manter parasita em mim. É da minha esperança que parece viver, consumindo-a como alimento para o desespero. Afetou até os batimentos do meu coração, fê-lo desregular sem compasso quase gritando.

“Vai passar”, é o que diz aquilo que de ainda racional vive em mim, mas tão pequeno que é fica difícil ouvi-lo. Grito. Na frustrada tentativa de mascarar aquilo que percorre minhas veias. Grito na iludica tentativa de calar.

Costumava mastigar pessoas. Mal esperava que elas acabassem de falar pra começar.

A maioria delas era dura demais, sem gosto. Outras eram moles demais, escorregavam molhadas pelos dentes. Algumas eram insuportavelmente frias, outras quente. Um exagero de detalhes experientes.  Mastigava porque apenas engoli-las era dolorido demais para a garganta.

Mastigar pessoas fez de mim intragável ao paladar humano. Um gosto amargo que não escorrega com facilidade.

Sem coração.

– Onde está o meu coração? – gritei pela terceira vez com a minha mãe. Ela deveria saber, mães sempre sabem onde tudo está. Só que ela não sabia. Dizia que nem ideia fazia que o problema era todo meu que deixava tudo jogado.

Eu precisava achar logo meu coração! Precisaria dele naquela tarde mesmo, ia sair com o Gabriel e precisava aproveitar aquela oportunidade. Não é sempre que se encontra alguém legal a quem se possa emprestar seu coração.

Saí da cozinha ignorando o restante da falação de minha mãe. Voltei pro meu quarto pra continuar a busca do órgão essencial que me faltava agora. Lá tentei refazer mentalmente a trajetória da última vez que vi meu coração: era uma sexta-feira de inverno, o Marcelo me chamou pra ir a casa dele, e lá me disse que era melhor darmos um tempo. Voltei pra casa, chorei e resolvi que guardaria o coração em algum lugar que ninguém achasse.

Tentei forçar minha mente a lembrar qual lugar era esse? Fora tão bem escondido que nem eu achava agora. Maldita mania a minha!

Abri o guarda-roupa e tirei as roupas que estavam penduradas. Uma a uma pra ver se estava entre elas. Ilusão. Nem nas caixas de sapatos que eu até tinha esquecido que estavam ali. Revirei também algumas gavetas e joguei tudo o que pude para fora delas. Também não estava lá.

Dei uma olhada no quarto da minha mãe, mas também não estava lá. Nem no banheiro, nem na cozinha e muito menos na sala. Voltei pro quarto.

Resolvi mexer então em duas esquecidas caixas que ficavam lá em cima do guarda-roupa. A dificuldade de alcançá-las quase me fez desistir de pegar a bendita, mas insisti comigo mesma. Caixa grande que curiosamente tinha coraçõezinhos desenhados nela, dentro não tinha o meu. Na tentativa da segunda caixa, que não tinha corações desenhados fora, eu achei um saco de pano de cor cru onde dentro felizmente batia o meu coração.

Um alívio. Desci da escadinha enferrujada segurando quase num abraço o coração que retirei de mim meses atrás. Ao abrir o saco no qual guardei o bendito vi que ele ainda estava um pouco machucado. Talvez se eu tivesse deixado ele no peito… mas agora era tarde, por sinal, tarde era o período que eu tinha que me encontrar com Gabriel na sorveteria.

Dei um pequeno trato no coração. Limpei as feridas, verifiquei se as veias estavam todas certinhas no lugar e tentei ver se havia algum resquício antigo nele. Apesar de machucado ainda batia bem, estava forte. Preferi deixá-lo no saco, seria melhor caso o Gabriel merecesse ganhar esse nobre coração.

Assim que terminei de ajeitar as pequenas feridas que ainda tinha no coração vi que tudo estava uma grande bagunça no meu quarto. E apesar da certeza das broncas que tomaria eu deixei tudo ali espalhado, depois eu resolveria.

Banho tomado, vestido colocado, dinheiro e documento na bolsa peguei o saco de pano com o coração. Através da corda em que eu segurava sentia o coração bater lá dentro. Uma estranha sensação de saber que se está vivo.

Saí sem dar tchau pra minha mãe. Lá de fora ouvi ela me chamar de malcriada e mandou que eu voltasse cedo.

Na sorveteria o Gabriel ainda não estava. Ele deveria estar chegando… Deveria, mas dias depois eu vi que não estava. Liguei duas vezes no celular dele e ele nem atendeu. Só depois de quase meia hora é que ele mandou uma mensagem dizendo “perdi a hora, desculpe”. Pedi um sorvete de limão, o azedo ia combinar com a minha irritação. E apesar disso, parecia doce demais. Eu e sorvete ficamos ali por bons minutos até ele todo ir pro estomago. Fiquei feliz de o problema dos amores ser sempre o coração e não o estômago, pelo menos eu sempre poderia comer sem me preocupar.

Resolvi voltar pra casa, no caminho me lembrei exatamente porque eu tinha guardado o coração e porque ele não deveria sair de lá. E minha memória me trouxe de volta o porquê de ele ainda estar machucado. Eu boba, havia esquecido e já tava até querendo entregar ele pra outra pessoa de novo. Deveria pensar também em guardar o cérebro num saco cru.

Em casa peguei a antiga caixa onde o coração ficou por meses e o guardei de volta ali. Lá ele estaria seguro de novo, ninguém o machucaria e só eu saberia onde estava, se é que não esqueceria. Muito melhor.

Depois do coração guardadinho eu ainda tinha um caos inteiro para desfazer no chão.