Ser

Sou um fracasso

Sei que sou pelo gosto amargo que enrola meu paladar.

Sou um fracasso quando não choro, quando digo que não digo. Quando penso ser eu sendo ninguém mais que um ninguém.

Sou um fracasso quando penso que sei.

Sou o fracasso quando eu deixo de ser.

Novidades de sexta

Uma feliz notícia nessa sexta. A Editora Scortecci está com uma antologia em andamento, que virá com o nome de Antologia Rede de Palavras e irei participar com um conto. O livro sairá em Maio desse ano.

Aproveitando, amigos escritores, quem quiser participar as inscrições estão abertas. Mais informações aqui.

Assim que tudo estiver certinho e o livro for sair conto mais novidades para vocês!

Azul

Tons de azul sempre me encantam.

Embebedam me de céu.

Me encanta o tom azul do mar quando sobe e se mistura na imensidão celeste. Torna um, aquilo que parece dois.

Gosto daquele tom azul claro do por do Sol que permeia em um crono de faixas azuladas até o mais escuro, embelezam as tonalidades amarela e laranja de fim de dia. Gosto até do azul europeu que lapida dor.

Sempre gosto de azul porque tem sabor de vida, de pedaço de céu.

É a cor da cor da alma.

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Sem coração.

– Onde está o meu coração? – gritei pela terceira vez com a minha mãe. Ela deveria saber, mães sempre sabem onde tudo está. Só que ela não sabia. Dizia que nem ideia fazia que o problema era todo meu que deixava tudo jogado.

Eu precisava achar logo meu coração! Precisaria dele naquela tarde mesmo, ia sair com o Gabriel e precisava aproveitar aquela oportunidade. Não é sempre que se encontra alguém legal a quem se possa emprestar seu coração.

Saí da cozinha ignorando o restante da falação de minha mãe. Voltei pro meu quarto pra continuar a busca do órgão essencial que me faltava agora. Lá tentei refazer mentalmente a trajetória da última vez que vi meu coração: era uma sexta-feira de inverno, o Marcelo me chamou pra ir a casa dele, e lá me disse que era melhor darmos um tempo. Voltei pra casa, chorei e resolvi que guardaria o coração em algum lugar que ninguém achasse.

Tentei forçar minha mente a lembrar qual lugar era esse? Fora tão bem escondido que nem eu achava agora. Maldita mania a minha!

Abri o guarda-roupa e tirei as roupas que estavam penduradas. Uma a uma pra ver se estava entre elas. Ilusão. Nem nas caixas de sapatos que eu até tinha esquecido que estavam ali. Revirei também algumas gavetas e joguei tudo o que pude para fora delas. Também não estava lá.

Dei uma olhada no quarto da minha mãe, mas também não estava lá. Nem no banheiro, nem na cozinha e muito menos na sala. Voltei pro quarto.

Resolvi mexer então em duas esquecidas caixas que ficavam lá em cima do guarda-roupa. A dificuldade de alcançá-las quase me fez desistir de pegar a bendita, mas insisti comigo mesma. Caixa grande que curiosamente tinha coraçõezinhos desenhados nela, dentro não tinha o meu. Na tentativa da segunda caixa, que não tinha corações desenhados fora, eu achei um saco de pano de cor cru onde dentro felizmente batia o meu coração.

Um alívio. Desci da escadinha enferrujada segurando quase num abraço o coração que retirei de mim meses atrás. Ao abrir o saco no qual guardei o bendito vi que ele ainda estava um pouco machucado. Talvez se eu tivesse deixado ele no peito… mas agora era tarde, por sinal, tarde era o período que eu tinha que me encontrar com Gabriel na sorveteria.

Dei um pequeno trato no coração. Limpei as feridas, verifiquei se as veias estavam todas certinhas no lugar e tentei ver se havia algum resquício antigo nele. Apesar de machucado ainda batia bem, estava forte. Preferi deixá-lo no saco, seria melhor caso o Gabriel merecesse ganhar esse nobre coração.

Assim que terminei de ajeitar as pequenas feridas que ainda tinha no coração vi que tudo estava uma grande bagunça no meu quarto. E apesar da certeza das broncas que tomaria eu deixei tudo ali espalhado, depois eu resolveria.

Banho tomado, vestido colocado, dinheiro e documento na bolsa peguei o saco de pano com o coração. Através da corda em que eu segurava sentia o coração bater lá dentro. Uma estranha sensação de saber que se está vivo.

Saí sem dar tchau pra minha mãe. Lá de fora ouvi ela me chamar de malcriada e mandou que eu voltasse cedo.

Na sorveteria o Gabriel ainda não estava. Ele deveria estar chegando… Deveria, mas dias depois eu vi que não estava. Liguei duas vezes no celular dele e ele nem atendeu. Só depois de quase meia hora é que ele mandou uma mensagem dizendo “perdi a hora, desculpe”. Pedi um sorvete de limão, o azedo ia combinar com a minha irritação. E apesar disso, parecia doce demais. Eu e sorvete ficamos ali por bons minutos até ele todo ir pro estomago. Fiquei feliz de o problema dos amores ser sempre o coração e não o estômago, pelo menos eu sempre poderia comer sem me preocupar.

Resolvi voltar pra casa, no caminho me lembrei exatamente porque eu tinha guardado o coração e porque ele não deveria sair de lá. E minha memória me trouxe de volta o porquê de ele ainda estar machucado. Eu boba, havia esquecido e já tava até querendo entregar ele pra outra pessoa de novo. Deveria pensar também em guardar o cérebro num saco cru.

Em casa peguei a antiga caixa onde o coração ficou por meses e o guardei de volta ali. Lá ele estaria seguro de novo, ninguém o machucaria e só eu saberia onde estava, se é que não esqueceria. Muito melhor.

Depois do coração guardadinho eu ainda tinha um caos inteiro para desfazer no chão.

Deixei meu quarto todo escuro. Nenhuma fresta de luz vinha do mundo externo, nem os números do rádio relógio brilhavam mais. O escuro servia para esconder meu medo de mim.

A angustia ficou espremida pela escuridão. Tão apertada que o desespero vazava em lágrimas. Tudo escuro para esconder-me do meu eu.

O problema era que o escuro despertava o verdadeiro medo.

Eu me sinto como que traída todos os dias. Quem me trai é a vida. Ela era pintada de rosa, com balões vermelhos em um dia ensolarado. Se tornou cinzenta, mal humorada e sem esperança.

Um inferno astral constante caminha de dentro do estômago e vaza para a áurea.

O futuro que plantei com tanto cuidado, reguei, cultivei, brotou; uma flor morta. De pétalas enrugadas, caule escuro e mole.

Parafrasear o que nunca foi escrito me fez crer que sonhos podiam ser reais. Não percebi que eles só são reais dentro do possível até sentir que o impossível não era alcançável.

Nem se ficasse na ponta dos pés.

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Não tão longe ele estava, e de lá me viu. Laranja temperou o momento, tão inocente e juvenil. De mim, as palavras e a voz ele desejou ouvir.

Demorou um tanto ainda, mas os dois caminhos se fizeram encontrar. Já estava destinado. O conhecer, conversar, admirar. E lá estávamos nós, duas quase não mais crianças descobrindo o iniciar do amor.

Do primeiro beijo, do descobrir, do conhecer, da amizade… De tudo o que era novo juntos vivemos e daí tudo construímos.

Ele me encantou com seu jeitinho menino, pintado de calmaria para acalentar minha ansiedade. Adorava desenhar, me desenhar também. Não podia encontrar uma câmera que já ia a me fotografar. Saia até com um boné com nossos nomes.

Me viu crescer, carregou consigo todo o meu medo, me viu virar mulher, me fez sua mulher. Me fez sua vida, fez da minha vida sua. Nos fez ser um.

Com seu amor inflado de paixão me fez entender de fato o que é o amor. Fez-me ser tudo o que hoje sou. Me fez entender que alma gêmea existe, que amor a primeira vista acontece. E que amor eterno não é utopia.

Sempre será o anjo que Deus mandou de presente pra mim, pra cuidar de mim, pra fazer de mim tudo o que eu sou. O maior presente que o universo me deu.

Seu amor me completou, é tudo aquilo que eu não posso ser. Preencheu cada vazio que minha vida tinha, brilhou a noite durante minha cegueira. É a esperança enquanto nada mais resta.

Dizer Te Amo é pouco. Proclamar que é meu ar, minha água… nada disso nunca vai ser suficiente para expressar aquilo que minha alma grita por ele.

Não cito número de anos, meses, dias juntos. Não importa tal data. Nosso amor sempre existiu, sempre foi nosso, único… Não tem data. Não é dessa vida, nem desse plano terreno. É celeste, é eterno, é da alma, é nosso.

Preparados agora estamos, para ser o que sempre sonhamos, aquilo desejamos. Me deixa ansiosa saber que perante Deus seria sua tão logo. Não que eu nunca tenha sido, na verdade sempre fui. E fui desde que Deus me deu-o como presente. Agora seremos uma família. Uma explosão de todo o contemplar, de todo o amor que meu coração carrega.

Felicidade deveria ser meu sobrenome, o que carregarei dele. Pois felicidade foi tudo o que ele sempre lutou para me dar.

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O último trem.

Desci sem pressa as escadas cinza que moldavam o caminho até a plataforma do trem. Passo a passo me dei conta da atmosfera melancólica que aquilo me proporcionava.

O vento frio ia e vinha sem medo, trazia consigo pequenas nuvens escuras de poeira viajante. Também fazia com que as plantas de um outonal vermelho seco abraçadas ao muro branco que protegia a estação dançassem em um espetáculo sem público indo da direita para a esquerda e descansando enquanto se preparavam para o próximo passo.

Sentei em um banco sem cor. Não havia qualquer barulho, o silencio passeava por cada canto do lugar naquele vazio aconchegante.

Engraçado como estações de trem são sempre assim, o nada preenchido por pessoas que vem e vão e deixam as outras irem e virem. Um lugar certo para mim. Havia algumas pessoas aguardando o próximo trem. Nenhuma delas falava. Quase nem se mexiam.

O vento não se cansava de obrigar as plantas a darem o seu pequeno show. Elas também não pareciam incomodadas.

Durante os minutos, incontáveis, que ali fiquei o único barulho que ouvia era do trem se aproximando. A frente da maquina vinha sempre num vermelho vivo que gritava enquanto aproximava. No momento em que as portas se abriam o som de vozes rebatia em mim, aleatórias e agudas.

Demorei um pouco para criar a necessária coragem. Um passo. Dois passos. Ultrapassei a tal faixa amarela. Ninguém se importou. Pude notar treze diferentes e silenciosas pessoas distraídas. Dos infelizes boatos dizia-se que tal cabalístico número trazia azar. Mentira trovada sem amor.

Fechei os olhos, cabeça pra cima. Deixei que toda a energia se concentrasse e o vento frio tomar toda a minha pele. Ouvi o barulho. Preferi não ver. Apenas fiquei, cambaleei de leve, meu peito subia e descia pesado, o sangue percorria dolorosamente meu corpo. Soltei o papel que segurava, deixei o corpo cair. Senti o alivio da paz ser libertado a cada osso que moía. Senti que finalmente vivia.