TAG Março/17

Já estamos em abril, mas antes que a nova edição da TAG chegue, trouxe a de março pra compartilhar com vocês. As edições continuam lindas (mais do que eram no ano passado) superando minhas expectativas, inclusive, faz um ano que participo do clube. Além disso, as edições que estão vindo são todas exclusivas, tem vindo muita coisa e acredito que vai vir muito mais. As edições estão contemplando muitas edições que não chegam ao Brasil em novas edições há um tempo e nos trás autores quase desconhecidos aqui.

Essa edição de março nos trouxe o livro A câmara Sangrenta e outras histórias da Angela Carter. Uma das principais escritoras inglesas do século XX, ela trás nesse livro algumas histórias folclóricas (como chapeuzinho vermelho) contadas na versão das meninas desses livros, a visão da “princesinha”. Junto com o livro, recebemos marcadores de página de ímã lindos de algumas dessas fábulas.

 

Comecei a ler um dos livros que recebi o ano passado, mas não me encantou muito e tive que pausar o livro para começar a ler os livros da faculdade. Uma pena, mas esse livro de março entrou pra lista de livros pra se ler urgente.

2016, o ano em que aprendi a ter foco.

Agora em fins de Dezembro desse ano esquisito que foi 2016, notei que foi meu ano menos produtivo. Em sentido daquilo que me proponho a fazer todos os anos e daquilo que gosto de viver. Foi um ano que, penalizando todos os porém, menos me dediquei ao que me agrada: li pouco, quase não escrevi, abdiquei dos fins de semana, quase não publiquei nos periódicos que me competem, praticamente abandonei o blog, não participei de concursos.

Mas o peso dessa aceitação não me dói pra carregar. Fiz tudo isso por um objetivo antigo. Foram 2 anos de luta em vão, que só me trouxeram experiências e uma dor de desilusão. Quando o 16 apitou no relógio resolvi que faria diferente pra chegar nesse tão aguardado sonho, o que me fez deixar quase tudo de lado. Não foi improdutivo no sentido de que esse ano aprendi que quem quer faz, arruma tempo e para ter tudo isso em prática, esse foi o ano que aprendi a ter foco. Pode parecer papo pra livro de autoajuda, mas não é, é real. Se tem algo que esse dois mil e dezesseis me ensinou, foi foco.

Pequenos escritos, sinistras histórias

Esse ano participei do concurso da Editora Illuminare “pequenos escritos, sinistras histórias”. Não ganhei o concurso, mas fiz parte das listas dos melhores contos enviados e a editora propôs publicar uma antologia com os contos vencedores + 50 bem mais colocados.

E como presente de aniversário, essa semana o livro foi lançado no Amazon e as cópias físicas dos escritores foram enviadas. Aguardo ansiosa as minhas duas. Tem um conto meu lá. Minha segunda publicação física, terceiro conto publicado. Esse 2015 está incrível mesmo.

amazon-pequenos-escritos-sinistras-historias-dayane-manfrere

 

Edgar Allan Poe – Resenhas

A resenha de hoje será composta de dois diferentes livros do mesmo autor, a ideia é falar um pouco das traduções das edições. Os livros são de Edgar Allan Poe, ambos são livros com seus contos, mas cada um de uma editora e uma tradução diferente.

Autor: Poe nasceu em Boston em 1809. Foi autor, poeta, editor e crítico literário. Foi parte do movimento literário Romântico dos Estados Unidos. Foi também um dos primeiros escritores de contos no país. Allan Poe é considerado o pai do terror e mistério devido aos contos do gênero que também envolvem o macabro. Teve uma vida conturbada, foi adotado por uma família, mas nunca foi oficializado como filho deles. Casou-se com sua prima, que tinha apenas 13 anos na época. Morreu em Baltimore em 1849.

edgar-allan-poe-assassinatos-na-rua-morgue

Sinopse: O personagem principal deste conto, o francês Monsieur C. Auguste Dupin, poderia ser Sherlock Holmes e o narrador poderia ser o Dr. Watson. O fascinante personagem de Poe, através de um sistema próprio de dedução baseado na sua profunda capacidade de observação dos fatos, é capaz de ler os pensamentos do seu interlocutor e desvendar um dos mais intrincados e misteriosos casos de assassinato já enfrentado pela polícia francesa: o bárbaro duplo assassinato de mãe e filha num apartamento na rua Morgue.

Detalhes: A tradução do livro é William Lagos e a editora responsável é L&PM Pocket. O livro tem 6 contos e uma cronologia da vida do escritor.

edgar-allan-po-histórias-extraordinárias

Sinopse: ‘Histórias extraordinárias’ é uma coletânea de 18 contos publicados entre 1833 e 1845. São histórias clássicas da literatura de terror e policial, como “Os crimes da rua Morgue” — em que violentos assassinatos sem pistas desafiam o gênio do detetive C. Auguste Dupin — e “O barril de Amontillado” — um dos relatos mais cruéis de Poe, em que a vingança chega ao seu maior grau e é executada com total frieza.

Detalhes: A tradução e adaptação do livro carrega o peso do nome de Clarice Lispector. O livro é composto por dezoito contos e faz parte da coleção Saraiva de Bolso da Editora Saraiva.

Opiniões: Os dois livros são muito bem traduzidos, cada um com sua peculiaridade. Para quem gosta de uma linguagem mais “rebuscada” e detalhada, a tradução de Clarice Lispector é a melhor opção, além disso, como a própria capa já diz, o texto é integral e assim, uma tradução, digamos, mais completa.

Entretanto, a versão de William Lagos também é muito boa, apenas com uma linguagem e uma maneira de expressar diferenciado da maneira como o outro livro ganhou forma.

Espectro

Espectro

 “As leis naturais são feitas e relacionadas umas com as outras como se a Faculdade de Julgar as houvesse produzido para o seu próprio uso.” Goethe.

A vingança tem as mesmas cores que o arco-íris. Um espectro completo de vermelho a roxo.

Agora eu tenho certeza disso.

Toda aquela mistura de sensações, de satisfação, o desespero que corria no meu sangue. A arca da aliança de Noé.

Minha respiração era pesada, o peito subia e descia em um compasso ritmado. Minhas mãos estavam mais pesadas, o liquido quente e grosso escorria por entre os dedos e pingava no chão, pintava tudo de vermelho.

O corpo ali embaixo do meu já não respirava mais. O relógio tiquetaqueava alto naquele insano silencio de vitória. Uma contraposição de saciedade e vazio, branco e preto, silêncio e grito, bombados para todo o corpo a cada batida do meu coração.

Aquilo começou na primavera de 92, um parto difícil de uma gravidez indesejada. De lá pra cá tudo desandou monstruosamente. Como um penhasco, sentia que minha vida começara no alto e despencava a cada novo segundo.

Quando ainda enrolada na manta rosa do hospital eu chegara em casa, ela esqueceu de me alimentar, preferiu sair e encontrar os amigos. Por quase um dia, contou a vizinha, chorei. Um grito de desespero por um único gole de leite materno.

Quando completei quatro meses de vida me jogou em uma creche qualquer. Lá eu ficava desde que o dia amanhecia até o inicio da noite. Quando voltava pra casa, era direto pro colchão no chão, já que berço era caro demais.

Como eu me lembro disso? Porque essa rotina se manteve por anos a fio.

Aprendi a andar, a falar e a brincar na escolinha. Pessoas estranhas me ensinaram aquilo que minha própria mãe não fez questão de me ensinar. Foi na escolinha que aprendi a rezar também, e por anos eu rezei todas as noites para que minha mãe que me amasse.

Ainda pequena sem festa de aniversário, sem brinquedos. Repleta de deveres. Aos seis anos me obrigou a lavar minha primeira louça. O inicio de uma escravidão caseira.

As orações nunca funcionaram.

Me recordo durante minha infância que ela preferia passar o dia longe de mim. Apesar da pouca idade, desde os seis anos eu passava a noite sozinha na casa de dois cômodos que morávamos. Antes disso, ficava sempre na casa dos vizinhos.

Eu era magra, vivia com fome. Não tinha qualquer atenção.

Quando completei oito anos parei de chamá-la de mãe. Foi com essa mesma idade que descobri como um Natal era vivido. Pude vive-lo na casa de uma colega. Foi também nessa época que ela começou a trazer homens estranhos pra casa.

Ela me odiava. Eu tive plena certeza disso quando ela estava beijando um deles e percebeu que eu a olhava. Perguntou por que eu não morria logo.

E eu tentei. Um gole de pinga com os remédios estranhos que ela tomava.

Não funcionou.

Pra minha tristeza precisei passar dois dias em um hospital imundo. Ela não me visitou durante os dias, nem se importou com o que os médicos disseram quando foi me buscar. Chegando em casa, aproveitou para me bater. Tirou sangue de mim.

Percebi então que quem deveria morrer logo não era eu.

Junto com minha pré-adolescência começaram as brigas se intensificaram. Eu não queria mais cozinhar, lavar, nem usar os trapos velhos que meus vizinhos me davam.

Passei a odiar aquela mulher asquerosa.

Ela passou a me bater com uma freqüência desleal por motivos espúrios. Queria a todo custo arrancar meus cabelos, cuspia na minha cara o quanto me odiava, o quanto eu havia estragado a vida dela.

Quieta, eu ouvia tudo. Guardava em meu coração cada uma daquelas palavras.

Mas eu ainda tinha esperança.

Foi nessa época que procurei um trabalho, larguei a escola.

Foi também nessa época que percebi o quão desprezível era minha vida.

Passei apenas mais cinco anos ali, e quando completei 18 anos saí de casa. Retomava ai minha esperança, minha cura;

Amarelo

Não foi fácil me estabilizar. Percebi que emocionalmente eu estava desequilibrada. Quando coloquei os pés naquele quarto imundo que eu chamaria de casa minha primeira reação foi desabar em lágrimas.

Passei dois anos em terapia intensiva, dada pelo governo.

E após me acertar comigo mesma eu resolvi voltar e repor a paz com aquela mulher que me trouxe ao mundo. Decisão difícil que me fez sentir um gosto amargo na boca por quatro dias.

Laranja

Bati na porta da casa velha que morei por anos. Ela saiu. Descabelada, com a aparência velha e enrugada. Fumava um cigarro vagabundo.

A primeira coisa que fez foi gritar “puta”. Me arrependi amargamente naquele momento. Ela saiu pra me bater. E me bateu. Com um cabo de vassoura velho, disse que me odiava que não queria me ver de novo. Ai de mim se voltasse ali.

Cuspiu na minha cara, disse que eu fui o maior erro de sua vida.

Tive certeza que a odiava. Senti o amargor daquelas palavras em minha boca por quase seis meses. Fiquei angustiada, desorientada.

Por dois dias eu chorei. Chorei por ser um ninguém. Chorei por odiá-la, por ela me odiar.

Lavei a alma daquela insuficiência e então decidi que o problema nunca fui eu, sempre foi ela. Meu sangue passou a ser substituído por ódio.

Não foi difícil organizar tudo, planejar tudo. Demorei alguns meses planejando.

Até que o grande dia chegou.

Chovia. Um fatídico dia que começou cheirando molhado.

Quando cheguei só conseguia enxergar a casa de paredes alaranjadas.

Entrei sem fazer barulho, sem bater ou me anunciar. Minha roupa molhada pingava marcando o chão empoeirado.

Para minha surpresa, o corpo da mulher que era minha mãe estava caído no chão.

Passei alguns segundos observando até que agachei ao lado dela e tentei sentir a respiração com um dedo próximo ao nariz. Era fraca, mas ainda respirava. Felizmente, para mim, ela estava viva.

Me assustei ao sentir a mão dela segurar meu braço. Com extrema dificuldade, a voz dela saiu pedindo ajuda, sussurrou dizendo que o peito doía demais.

Pedi que acalma-se e vi nos olhos dela, lacrimejados, que realmente precisava de ajuda.

Não pensei duas vezes.

Levantei, peguei a faca de açougueiro que trouxe na bolsa. Sorri e voltei até ela.

Me lembro apenas de ver o vermelho do sangue escorrer do pescoço dela. Ouvi uma tentativa de grito, lembro das mãos dela tentando me segurar.

xxxxxxxx

Não sei quanto tempo passei ali depois de cortar a garganta daquela mulher.

Do penhasco que fui jogada quando nasci eu sentia agora que voltava ao inicio. O topo de onde poderia novamente me jogar.

Quando me retiraram da casa já não chovia mais, estava ensolarado. No céu eu pude então ver as cores da minha vingança, de roxo a vermelho ele brilhava no céu. A minha então, liberdade.

 

João

João.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” – Oscar Wilde

João voltou apressado do refeitório sem nem ter terminado seu café da manhã. Naquela manhã em particular, não estava com vontade de ouvir a costumeira zombaria de seus amigos. Acordara deveras chateado. Foi direto para seu quarto escuro e trancou a porta. A única vantagem de sua deformação era aquela: um quarto exclusivo para si.
Deitou na cama dura e pequena e abraçou as próprias pernas. Aquele era o único lugar no mundo onde se sentia bem consigo mesmo.
Chovia lá fora. Uma garoa fina e barulhenta. Era outono.
João mantinha-se imóvel ainda. A respiração difícil parecia mais pesada que o natural.
“Nesta rua, nesta rua tem um bosque…” começou com a voz rouca “que se chama, que se chama solidããoo”
Sempre cantava aquela cantiga quando estava triste. Isso significava que era cantada quase todos os dias.
E ali, cantarolando baixinho ele ficou até a enfermeira bater na porta.
Tomou os dois comprimidos rotineiros. Ela começou então a examiná-lo.
João ficou ali vendo a mulher de meia idade ouvir seu coração, depois medir sua pressão. Naquela hora era bem provável que os demais garotos estivessem arrumando seus pertences para a ida a escola. João não ia para a escola. Com sua deformidade o padre e as freiras que cuidavam do orfanato preferiam que ele ficasse em casa.
Ele foi abandonado ainda recém-nascido, com a placenta ainda envolta em seu corpo pequeno. Ele não tinha nenhum cabelo, nem sobrancelha. E apesar disso, inicialmente nenhuma pessoa desconfiou de nada. Lhe batizaram de João, mesmo nome do discípulo mais amado de Jesus. Afinal, concluíram as freiras, Jesus amou tanto aquele menino que o colocou ali para ser cuidado. João duvidava um pouco disso, mas nunca questionou.
Já no primeiro ano de vida do menino todos tiveram uma certeza: ele não era normal. A cabeça era muito grande, o maxilar era muito pequeno. Ele era muito pequeno. A pele branca em excesso, fina e enrugada demais. Nenhum cabelo…
Ninguém sabia de fato o que era aquilo. A enfermeira do local começou então a investigar. A primeira atitude foi a de separar o garoto dos demais. Afinal, os garotos normais poderiam machucá-lo. Vai se saber o que João tinha afinal, mas que era frágil, todos sabiam.
Quando completou dois anos, começou a tomar vitaminas. Nunca mais parou.
Só que o pior não era isso. O pior era como os demais garotos gostavam de zombar dele e parecia que ninguém adulto se importava. Todos os possíveis nomes eram cuspidos na cara de João todos os dias.
Ele fingia não se importar. Mas nunca o deixavam em paz.
Depois de medir o punho de João com o próprio punho a enfermeira levantou e abriu a cortina preta.
João fechou os olhos e fez uma leve careta.
– Você precisa tomar Sol. – resmungou guardando os instrumentos médicos em uma bolsa.
O menino não protestou, mas também não entendeu porque a mulher abriu a janela se lá fora não tinha Sol. Estava nublado e garoando.
– Hoje você parece mais cansado.
Fez um sim com a cabeça.
A enfermeira deu os ombros. – Se precisar de alguma coisa, ou se não se sentir bem, me avise. Seu coração parece cansado também.
João fez outro sim com a cabeça e logo que a mulher saiu ele fechou novamente a cortina.
Não gostava muito de luz, pois muita luz significava que veria seu reflexo em alguma coisa. E ele não gostava de se ver em nada. Seu quarto não tinha espelhos e quando ia escovar os dentes ele fazia com a cabeça bem baixa para que não precisasse se olhar.
Aprendera a não gostar de si próprio. Sua cabeça era bem maior do que a dos demais meninos. Seu corpo era bem menor que o dos demais meninos.
Ele voltou à cama, abraçou novamente as próprias pernas e continuou cantarolando.
Meia hora depois, uma das freiras entrou no quarto, acendeu a luz e o chamou para as aulas matinais. Como não ia para a escola, as próprias mulheres do orfanato o ensinavam a ler e escrever.
Teve aulas até a hora do almoço. Ainda assim, ele estava sem fome. Só foi comer porque a freia professora ordenou que fosse comer.
Ela não pareciam notar ou se importar com o fato de ele estar sem fome.
A contra gosto ele foi. E bastou por o pé dentro do refeitório e começou a ouvir os murmúrios e risos de deboche. Ouviu diversos: “Cabeça de elefante”, “Bicho papão”, “mostro do lago” “velho estranho” e outras demais coisas que ele não quis se lembrar.
Pegou apenas purê de batatas, arroz e um pedaço pequeno de carne. Sentou no canto próximo ao banheiro e comeu de cabeça baixa. A comida não parecia tão gostosa como ele podia se lembrar.
Deixou metade do prato ali e saiu enquanto ouvia mais zombarias a seu respeito. Andou cambaleando de leve até chegar ao corredor que dava acesso aos quartos. O ar parecia escasso, mas ele conseguiu respirar fundo e conseguir mais fôlego.
Chegou ao quarto e praticamente jogou seu próprio corpo na cama.
Ficou ali até conseguir recuperar novamente todo o ar que precisava para viver e só se levantou quando percebeu que a comida que acabara de ingerir não iria ficar em seu estomago.
Depois de se libertar daquela comida de gosto azedo ele voltou pra cama. E só saiu de lá no fim da tarde.
Não chovia mais e ele podia ouvir o barulho das crianças correndo lá fora. Olhou por uma fina brecha que abrira na cortina e observou as crianças normais correndo na grama recém molhada.
A enfermeira e as freiras haviam dito durante toda sua pequena vida que ele não era normal, e por isso, ele sabia que não poderia correr lá fora com aqueles que eram normais. Mas dali de seu quarto ele pode sentir a felicidade que era ser um menino normal.
Deixou de observar os garotos lá fora depois de sentir uma dor estranha no peito. Doía demais e o fazia se contorcer deitado no chão frio. A dor o fazia sentir novamente a ausência de ar nos pulmões. As mãos tremiam e suavam.
Ficou ali se contorcendo até aos poucos aquela sensação estranha ir amenizando. Quando notou, suas mãos pequenas estavam juntas em cima do peito.
Depois do ocorrido ouviu a chamada para o jantar. Mas preferiu não sair do quarto. Ficou ali na cama, no mundo escuro que havia criado para si.
Adormeceu.
Ele não viu exatamente que horas eram, mas imaginou que já era de madrugada quando acordou. O sono pesado havia deixado na memória um monte de sonhos estranhos para aquele pequeno velho garoto de 12 anos.
Resolveu tomar um banho morno, mas desistiu quando recordou que se fosse a “hora do banho” poderia encontrar algum dos garotos ali. Preferia evitá-los. Principalmente na hora do banho.
Sabia que já não era tão cedo e que pelo silencio lá fora sinalizava que poderia dormir novamente.
E foi o que fez. Sentiu aquela dor estranha dor no peito voltar enquanto ouvia a chuva voltar a cair lá fora.
Quando amanheceu, o refeitório estava com o espaço próximo ao banheiro vazio.
Naquela manhã os garotos do orfanato não teriam o costumeiro João para rirem. Naquela manhã em especial o velho garoto não acordou.
Nunca mais acordaria.