Dois anos.

Amanhã completa dois anos que decidi mudar minha vida: viver de literatura, de escrever, de ser quem eu sempre quis ser. Durante esse tempo um mundo aconteceu, inclusive minhas primeiras publicações.


Sei que ainda tenho um mar de coisas a aprender, fazer, evoluir… Mas está aí, os primeiros três livros nos quais tem contos meus.

Olhar para eles me passa uma sensação única, de inicio e renovação. A força que preciso pra acreditar no meu futuro.

Anúncios

Lançamento Antologia Rede de Palavras

Ontem, dia 15 de Agosto, foi o lançamento da Antologia Rede de Palavras, no espaço da Editora Scortecci. O evento começou às 15h, uma tarde ensolarada, com clima agradável.

lancamento-antologia-rede-de-palavras

Cada um dos autores receberam uma edição do livro (cada um no qual fazia parte), e um marca página personalizado. Meu conto esta na página 49 e 50.

antologia-rede-de-palavras-dayane-manfrere antologia-rede-de-palavras-dayane-manfrere

 

O evento foi bom para trocar experiência com outros escritores, a maioria deles de fora de São Paulo, que vieram apenas para o lançamento. Foi ótimo conhece-los e conversar com cada um. Trocamos contato e autografamos os livros uns dos outros…

Além de toda a experiência de participar de um evento como esse. Pude conhecer um pouco do processo de uma editora, conhecer escritores além dos que participaram da antologia.

Não é possível descrever a realização desse primeiro passo na vida da literatura. É minha primeira publicação impressa. E o conto publicado tem o nome do blog, Enquanto a chuva cai, ele faz parte do livro de contos que deu origem ao blog. Além de ser o conto principal desse aglomerado (nascido na época da Oficina), Enquanto a chuva cai deu origem a um romance, projeto que estou desenvolvendo agora.

Queria também agradecer a cada um de vocês pelo apoio, carinho, pela ajuda de cada um. Ontem foi uma realização única. No Facebook tem um álbum com mais fotos.

Para quem quer conhecer a antologia, conhecer o meu conto, e prestigiar os demais escritores, ela está disponível na loja da Editora Scortecci.

dayane-manfrere

E então serei publicada (e com direito a convite oficial).

Essa quinta recebi o convite oficial da minha maior felicidade: a publicação de um dos meus contos junto à uma antologia.

A publicação será da Editora Scortecci e já falei disso aqui, mas agora, com tudo prontinho e saindo do forno, o gosto de felicidade ficou maior. Fiz os últimos processos nas semanas passadas: revisei, autorizei, confirmei presença no evento (que acontece junto ao aniversário da editora).

Pronto, tudo feito. Até que chegou o convite personalizado. Orgulho? Transbordando. O mais divertido é que o conto leva o nome do blog, depois de um ano e quase meio, consegui levar o primeiro conto pra uma editora.

Quando estiver mais perto da publicação, o convite será oficializado a todos os leitores, que sem o apoio, não teria conseguido.

Projeto Rede de Palavras – Primeira publicação

Olá pessoal, quanto tempo não venho aqui contar novidades! Há algum tempo eu comentei com vocês sobre a Antologia Rede de Palavras, uma antologia da qual a Editora Scortecci está produzindo e eu participarei!

Será a primeira publicação oficial da qual eu participo. Serão produzidos dois livros com em média 75 escritores em cada um deles. Eu terei 2 páginas como participação. Os direitos autorais estão direcionados a cada um dos autores!

O lançamento foi adiado (inicialmente havia comentado que seria em Março) para Agosto. Mais precisamente dia 15 de Agosto, quando a editora completará 33 anos. O evento de lançamento será na própria editora (que fica em Pinheiros em São Paulo, no site da editora tem o endereço certinho) e acontecerá das 16h às 19h.

Quando estivermos mais perto do evento eu posto novamente o convite. O conto que será publicado ainda não foi postado no Blog, mas ele é o conto base, que carrega consigo o nome Enquanto a Chuva Caí. É um dos contos que, além de carregar o nome do Blog, leva o nome do projeto e do futuro livro de contos que estou montando e nasceu junto oficina literária que fiz há um ano.

São essas as novidades de Abril, que confesso, estão percorrendo todos os processos da felicidade. Próximo à Agosto eu posto um convite oficial para o evento de lançamento.

Ótimo mês à todos!

Lembro do eclipse da época em que era criança. Nome difícil de dizer.

Me disseram que o Sol sumiria; meu pequeno coração doeu de tanto medo da escuridão que chegaria. Tive certeza que nunca mais veria luz.

Alguém trouxe uma espécie de óculos especiais para ver o fenômeno, pra mim, uma espécie de fim do mundo. Paramos todos no corredor largo de piso de cacos vermelhos, estávamos todos na casa de minha avó.

Na exata hora eu não quis ver, “para de ser tonta” ouvi. Preferi admirar a escuridão total chegar, pavorosamente como uma sombra no mundo. Não quis entender o encontro da lua e Sol. Minha alma parecia ter ficado tão escura quanto o dia.

Ouvi aplausos e jamais entendi a felicidade de ver um encontro impossível, nem perto Sol e lua estavam. Só se propuseram em posição reta e apagaram o mundo. Um amor mentiroso e longe que apenas me trouxe medo da sombra.

Um ano de Enquanto a Chuva Caí.

E hoje é aniversário do blog. Um ano que o projeto ganhou vida digital, um ano em que aprendi e cresci, amadureci e mudei.

Como vocês que acompanham sabem, o projeto Enquanto a Chuva Caí é um um livro de contos, que já tem 26 páginas, 8 contos (alguns postados aqui já) e muita história ainda pra ser contada. Nesse meio de caminho o blog cresceu, ganhou seguidores, leitores (que foram do Brasil a Finlândia), ganhou conselhos, publicações diferentes… Hoje o blog se tornou um diário pessoal dessa carreira tão linda que deu só o primeiro passo, aqui eu conto meus problemas, conquistas, falo sobre os livros que estou lendo e influências. Junto ao blog a página do Facebook também ganhou vida.

Nesse um ano o projeto passou por tanta coisa: concorreu a uma publicação, ganhou seu conto principal em uma antologia…

Um muito obrigada a cada um que lê, comenta, aconselha. Feliz um ano de Enquanto a Chuva Caí, que muitos infinitos anos ainda se façam presente.

Enquanto-A-Chuva-Cai

Um ano de vida nova.

Domingo de chuva, preguiçoso, dia internacional da mulher…

Hoje faz também um ano que resolvi me aprofundar nesse mundo literário que tanto amo. Há exato um ano eu iniciava meu curso na oficina de criação literária no b_arco, que deu origem a esse blog e o projeto.

Em um ano acho que fiz pouco, poderia sim ter me dedicado e feito mais. Mas em um ano consegui evoluir, perder um medo bobo, amadureci literariamente e o melhor: conheci pessoas e escritores que mudaram pra sempre minha vida. Hoje faz um ano que fiz o melhor curso dos últimos tempos e amanhã faz um ano do projeto e do blog e em um ano me tornei colaboradora de um site literário. E pra comemorar esse um ano em Maio publico oficialmente meu primeiro conto que carrega consigo o título do blog. Quanta coisa pra agradecer esse inicio de vida.

Hoje aproveitei a manhã e finalizei um livro que iniciei no fim da semana passada, Ray Bradbury me ajudou essa semana festiva a entender melhor sobre minha escrita e me deu dicas importantes para seguir em frente. Resolvi então compartilhar o último poema do livro que de certa maneira me envolveu; ficou como representação desse um ano:

Temos nossas artes

Então não morreremos de verdade*

Só conhece o real? Caia morto.

Assim disse Nietzche.

Temos nossas artes, então não morreremos de verdade.

O mundo é exagero conosco.

A inundação dura mais que quarenta dias.

O gato que pasta em pastos distantes são lobos.

O relógio que faz tique-taque na sua cabeça é o tempo de verdade.

E que  de noite vai enterrar você.

De madrugada, as crianças cálidas da cama vão partir

E tomar seu coração e seguir para mundos que você desconhece.

E, sendo assim,

Precisamos de nossas artes para aprender a respirar

E bombear o nosso sangue; aceitar a vizinhança do diabo,

E a época e a escuridão e os carros que nos abusam,

E ser palhaço com a cabeça da morte em si,

Ou o crânio vestido com a coroa do tolo

E tocar sinos da cor de sangue e murmurar chocalhos

Que causa terremotos nos ossos no porão tarde da noite

Tudo isso, isso, isso, tudo isso – é demais!

Parte o coração!
Então? Encontre a arte.

Apanhe o pincel. Posicione-se. Sapateie de mentira. Dance.

Corra a corrida. Tente o poema. Escreva uma peça.

Milton faz mais do que pode fazer um deus bêbado

Para justificar o jeito do homem para o homem.

E Melville, divagando, assume a tarefa

De encontrar a máscara por debaixo da máscara.

E o serão de Emily D. mostra a anomalia do homem.

Lixo.

E Shakespeare envenena o dardo da morte.

E que a escavação de uma cova afia uma arte.

E Poe, adivinhando ondas de sangue,

Constrói uma arca de ossos para navegar o dilúvio.

A morte, então, instrumento doloroso de sabedoria,

Com fórceps da arte, puxa a verdade,

E solda o abismo onde ela estava

Escondida profundamente na escuridão e no tempo e na causa.

Embora a larva devoro o nosso coração,

Com a boca de Yorick gritamos “Obrigado!” à arte.

O que tenho a dizer nesse um ano? Obrigada. Obrigada a todo o apoio de vocês, obrigada a cada crítica, obrigada a cada pessoa da oficina que me aconselhou, obrigada a cada escritor que me influencia a cada nova página. Feliz um ano de Enquanto a Chuva Caí que venha os próximos todos anos de vida.

borboletas_livro

* Retirado do livro O Zen e a Arte da Escrita.

Costumava mastigar pessoas. Mal esperava que elas acabassem de falar pra começar.

A maioria delas era dura demais, sem gosto. Outras eram moles demais, escorregavam molhadas pelos dentes. Algumas eram insuportavelmente frias, outras quente. Um exagero de detalhes experientes.  Mastigava porque apenas engoli-las era dolorido demais para a garganta.

Mastigar pessoas fez de mim intragável ao paladar humano. Um gosto amargo que não escorrega com facilidade.

Sem coração.

– Onde está o meu coração? – gritei pela terceira vez com a minha mãe. Ela deveria saber, mães sempre sabem onde tudo está. Só que ela não sabia. Dizia que nem ideia fazia que o problema era todo meu que deixava tudo jogado.

Eu precisava achar logo meu coração! Precisaria dele naquela tarde mesmo, ia sair com o Gabriel e precisava aproveitar aquela oportunidade. Não é sempre que se encontra alguém legal a quem se possa emprestar seu coração.

Saí da cozinha ignorando o restante da falação de minha mãe. Voltei pro meu quarto pra continuar a busca do órgão essencial que me faltava agora. Lá tentei refazer mentalmente a trajetória da última vez que vi meu coração: era uma sexta-feira de inverno, o Marcelo me chamou pra ir a casa dele, e lá me disse que era melhor darmos um tempo. Voltei pra casa, chorei e resolvi que guardaria o coração em algum lugar que ninguém achasse.

Tentei forçar minha mente a lembrar qual lugar era esse? Fora tão bem escondido que nem eu achava agora. Maldita mania a minha!

Abri o guarda-roupa e tirei as roupas que estavam penduradas. Uma a uma pra ver se estava entre elas. Ilusão. Nem nas caixas de sapatos que eu até tinha esquecido que estavam ali. Revirei também algumas gavetas e joguei tudo o que pude para fora delas. Também não estava lá.

Dei uma olhada no quarto da minha mãe, mas também não estava lá. Nem no banheiro, nem na cozinha e muito menos na sala. Voltei pro quarto.

Resolvi mexer então em duas esquecidas caixas que ficavam lá em cima do guarda-roupa. A dificuldade de alcançá-las quase me fez desistir de pegar a bendita, mas insisti comigo mesma. Caixa grande que curiosamente tinha coraçõezinhos desenhados nela, dentro não tinha o meu. Na tentativa da segunda caixa, que não tinha corações desenhados fora, eu achei um saco de pano de cor cru onde dentro felizmente batia o meu coração.

Um alívio. Desci da escadinha enferrujada segurando quase num abraço o coração que retirei de mim meses atrás. Ao abrir o saco no qual guardei o bendito vi que ele ainda estava um pouco machucado. Talvez se eu tivesse deixado ele no peito… mas agora era tarde, por sinal, tarde era o período que eu tinha que me encontrar com Gabriel na sorveteria.

Dei um pequeno trato no coração. Limpei as feridas, verifiquei se as veias estavam todas certinhas no lugar e tentei ver se havia algum resquício antigo nele. Apesar de machucado ainda batia bem, estava forte. Preferi deixá-lo no saco, seria melhor caso o Gabriel merecesse ganhar esse nobre coração.

Assim que terminei de ajeitar as pequenas feridas que ainda tinha no coração vi que tudo estava uma grande bagunça no meu quarto. E apesar da certeza das broncas que tomaria eu deixei tudo ali espalhado, depois eu resolveria.

Banho tomado, vestido colocado, dinheiro e documento na bolsa peguei o saco de pano com o coração. Através da corda em que eu segurava sentia o coração bater lá dentro. Uma estranha sensação de saber que se está vivo.

Saí sem dar tchau pra minha mãe. Lá de fora ouvi ela me chamar de malcriada e mandou que eu voltasse cedo.

Na sorveteria o Gabriel ainda não estava. Ele deveria estar chegando… Deveria, mas dias depois eu vi que não estava. Liguei duas vezes no celular dele e ele nem atendeu. Só depois de quase meia hora é que ele mandou uma mensagem dizendo “perdi a hora, desculpe”. Pedi um sorvete de limão, o azedo ia combinar com a minha irritação. E apesar disso, parecia doce demais. Eu e sorvete ficamos ali por bons minutos até ele todo ir pro estomago. Fiquei feliz de o problema dos amores ser sempre o coração e não o estômago, pelo menos eu sempre poderia comer sem me preocupar.

Resolvi voltar pra casa, no caminho me lembrei exatamente porque eu tinha guardado o coração e porque ele não deveria sair de lá. E minha memória me trouxe de volta o porquê de ele ainda estar machucado. Eu boba, havia esquecido e já tava até querendo entregar ele pra outra pessoa de novo. Deveria pensar também em guardar o cérebro num saco cru.

Em casa peguei a antiga caixa onde o coração ficou por meses e o guardei de volta ali. Lá ele estaria seguro de novo, ninguém o machucaria e só eu saberia onde estava, se é que não esqueceria. Muito melhor.

Depois do coração guardadinho eu ainda tinha um caos inteiro para desfazer no chão.