O romancista ingênuo e o sentimental

O romancista ingênuo e o sentimental

Orhan Pamuk

o-romancista-ingenuo-e-o-sentimentalO autor: Pamuk é um romancista turco que obteve o nobel de literatura em 2006 (o primeiro em seu país). É também professor de literatura da Universidade Columbia.

Sinopse*: Em 1927, o romancista E. M. Forster proferiu em Cambridge as conferências hoje conhecidas como Aspectos do romance, uma resistente obra de referência dos estudos literários. Fazendo a devida justiça a esse pequeno livro, o turco Orhan Pamuk deu, em 2009, seu testemunho pessoal sobre a arte do romance na prestigiosa posição de palestrante das conferências Charles Eliot Norton, em Harvard.
Com o mote do famoso ensaio de Friedrich Schiller, “Sobre a poesia ingênua e sentimental” (1795-6), este livro reúne as seis aulas de Pamuk, e pode muito bem ser lido como uma atualização das lições de Forster. Entre tantos antecessores ilustres, cabe lembrar que, em 1985, a morte impediu Italo Calvino de falar em Harvard. Das Seis propostas para o próximo milênio, a última ficou em esboço.
A exemplo de Calvino, Pamuk desenha um percurso pela cultura do Ocidente, com a diferença de que explicita que o seu lugar é o de um intelectual em país pobre não ocidental. Se, para a audiência de Forster, o romance era ocidental e sobretudo europeu, o gênero chegou plenamente globalizado ao século XXI, e um dos principais tópicos de Pamuk é a apropriação do cânone pelos países periféricos e os papéis que a escrita e a leitura de ficção vêm desempenhando fora dos grandes centros culturais.

Resenha: O livro é mais um dos que fiquei “devendo” no último curso de escrita que fiz. Na época do curso havia lido o último capitulo (o centro) e agora finalizei o livro todo e também reli o capitulo.

Posso dizer que agora fez bem mais sentido tudo. Pamuk, que já é um escritor reconhecido trás no livro um pouco de sua experiência e fala bastante de sua bagagem. O livro começa com algo como uma “resenha” do escritor sobre um ensaio de Schiller, passando por aspectos do que a leitura faz na cabeça de um leitor (e diria que também na vida de um escritor). Pamuk fala já no inicio da concepção dos termos sentimental e ingênuo. Confesso que lendo o título do livro, imaginei que ele classificaria os romancistas e daria então diferentes dicas para seguir o caminho “certo”, e tá aí o grande engano, o próprio Pamuk diz das inúmeras vezes que perguntam a ele qual romancista ele é, e no fim o que ele diz e tenta expressar é que devemos, na medida certa, ser ambos. Ele trás a relação do envolvimento do escritor com seu romance e a influência disso perante aos leitores.

Pamuk compara a leitura (e a escrita) de um romance com a admiração de um quadro. Essa referencia aparece no livro todo, trazendo as diferenças e as semelhanças entre os atos e sua correlação direta. A arte em si como um todo. E por fim, o livro todo fala do ponto principal do texto: o centro. Pamuk trás às claras essa relação e o verdade significado do romance, aquele que muitas vezes não percebemos, mas que é o ponto direto da leitura/escrita.

O livro é fácil de ler, gostoso. Pamuk trás diferentes exemplos e fala muito de outros escritores, o que ajuda a “desenhar” melhor o que está dizendo. Pra quem está iniciando a arte da escrita eu recomendo muito, pros leitores também, mas aqueles que querem se aprofundar na escrita tem aí um material riquíssimo e bem construído.

(Sinopse do Skoob)
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Embebedando-me

Ontem comecei um novo step em minha vida literária. Depois de tantas coisas que aconteceram desde que o blog existe (duas publicações encaixam-se aqui), resolvi também me encaminhar a profissionalização e ontem começou meu curso de Criação Literária na PUC-SP.

Esse ano as coisas estão assim: a busca na profissionalização. Ano passado eu iniciei o primeiro curso de criação literária, o que deu origem a esse blog e mais do que me ensinar a escrever, me ensinou a mostrar e contar o que escrevo. Escrever em si, faço desde os 6 anos, mas por medo vergonha desespero, nunca mostrei nada para ninguém, nunca publiquei, nada… Entrar na oficina com o Marcelino em 2014 me fez evoluir nesse ponto, ser mais, mostrar, aprender, contar… Daí, evoluí para o que me tornei hoje. Conquista sem fim.

E agora, nesse segundo semestre, resolvi me aprofunda e melhorar -sempre- a minha escrita. Comecei com um curso online da Editora Oito e Meio com o tema: Como ser um escritor profissional. Tive então um panorama geral do mercado editorial, algumas dicas e uma ajuda e tanto (desde contatos com editoras até um projeto de publicação junto aos demais alunos). Comecei também um curso na PUC-SP, que iniciou ontem, sobre criação literária. Essa semana também a minha queria amiga (que conheci na oficina de criação literária do Marcelino) me convidou para sua oficina de criação. Por fim, um curso online pela Shakespeare Birthplace Trust: Shakespeare and his World e o curso (também online) Start Writing Fiction pela The Open University, ambos na plataforma da FutureLearn.

Estou simplesmente amando essa fase de aprendizado. Não há nada mais gostoso do que estudar, principalmente quando é algo que gostamos.

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Eu me sinto como que traída todos os dias. Quem me trai é a vida. Ela era pintada de rosa, com balões vermelhos em um dia ensolarado. Se tornou cinzenta, mal humorada e sem esperança.

Um inferno astral constante caminha de dentro do estômago e vaza para a áurea.

O futuro que plantei com tanto cuidado, reguei, cultivei, brotou; uma flor morta. De pétalas enrugadas, caule escuro e mole.

Parafrasear o que nunca foi escrito me fez crer que sonhos podiam ser reais. Não percebi que eles só são reais dentro do possível até sentir que o impossível não era alcançável.

Nem se ficasse na ponta dos pés.

Ser escritor

É aquele que se apodera do que não se sente, do que não se vive. É tomar-se daquilo que não é seu e ser um mentiroso. Repleto de verdades alheia.

É ter o dom de apoderar-se da observação e transformar cada detalhe em letra. Um escritor é quem toma a vida que lhe interessa e transforma-a em eternidade.

É brincar de Deus, criar e matar.

Ter poder de arrancar lágrimas de quem lê, de desesperá-los. É fazer personagens se tornarem pessoas. Poder criar um mundo, fazer dele parte do real. Tornar o inexistente existente fazer maravilhas milagres. E então poder destruir.

Ser escritor é transportar o mundo para palavras. E fazer delas eternas.

O amor acaba.

Que domingo friooo e gostoso né? Eu amo.

Aproveitando essa preguiça que chega em dias assim, vim falar sobre um dos exercícios que tivemos na oficina. Não me lembro exatamente em qual encontro foi, imagino que no décimo, o Marcelino leu um texto lindo do Paulo Mendes Campos que é chamado de O amor acaba. Resolvi postar o texto aqui pra vocês:

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.*

Lindo né? Todos ficamos encantados ao ouvir. Diversas conclusões e análises foram feitas e ficamos um tempinho conversando sobre o texto.

Nossa tarefa foi falar sobre onde, quando o amor acaba. Ou não acaba.

Difícil né? Falar sobre amor é sempre complicado. Passei alguns dias pensando nisso, até chegar nesse mini conto que vocês podem ler aqui.

Aproveitem o domingo 😉

* O texto foi extraído do site: http://www.releituras.com/i_eleonora_pmcampos.asp