A falta que Ama – Drummond

Uma das coisas que mais fiz nesse semestre na faculdade foi analisar poemas. Tivemos aula sobre Drummond durante o semestre todo e o trabalho final não foi diferente. Como faz muito tempo que poema de sábado não vai ao ar, trago hoje A Falta que Ama e a analise que fiz sobre ele.

A FALTA QUE AMA

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

 

O poema A Falta que Ama foi publicado em 1968, sendo parte do livro que recebe o mesmo nome e é composto por 28 poemas nos quais quinze são de verso livre e os outros são metrificados. O livro é preenchido por um lirismo filosófico, realismo social e conotações metafísicas, como pontuado pela análise de Merquior em seu livro: Verso universo em Drummond. O autor diz ainda que de modo análogo, uma parte expressiva de A Falta que Ama celebra a imprevisível epifania do ser. Considerado dentro da dialética do eu x mundo como parte da visão do eu igual ao mundo. As obras de Drummond da fase de 70 e 80 são repletas dessas recordações, A Falta que Ama é inclusive lançado no mesmo ano que Boitempo, livro que traz muito das lembranças do poeta.

Quando analisamos especificamente o poema A Falta que Ama, chegamos a um poema composto em métrica de redondilha maior com sete sílabas poéticas, é um poema longo de vinte e oito versos. Possuí uma rima alternada em esquema A B A B em todas as estrofes, estabelecendo uma consistência sonora de homofonia final toante. Indo mais fundo nessa analise interpretativa do poema, podemos iniciar com uma passagem de Merquior sobre ele:

“Desejo é uma noção-chave no mundo lírico de A falta. O poema titular do livro (FQA, 144) alia precisamente o tema do oferecimento do ser (a “canção”) ao tema da falta que deseja (não é a definição platônica do amor?).”.

A Falta que Ama trata de um desejo, expresso já em seu título de organização sintática forte, e um possível arrependimento, marcado por tudo o que se poderia ter ou não ter vivido. É também uma espécie de aceitação do próprio destino e do fim a que se chegou. O jogo de palavras do título já exprime essa primeira sensação de perda, falta, arrependimento e busca. A dicção do título nos dá em um primeiro momento estranheza, a troca sintática das palavras e uma estranha sensação de falta de complemento.

Drummond rompe de certa maneira as regras sintáticas no título, que poderia ser “o amor que faltou” ou “o amor que se quis e não encontrou” nos dando uma pista mais concreta daquilo que quer dizer, mas ele é “a falta que ama”, e a inversão sintática nos leva a pensar se é a falta de amar ou algum amor que faltou em si. O título em principio nos tem uma sonoridade estranha, dando uma noção de falta de um sujeito que ama. Essa estranheza que nos prende a tentar decifrar quem ama e o que falta, mas esse entendimento só se fará concreto quando terminado o poema. O título também nos remete um sentimento de perda, o amar aquilo que agora entendemos como nos falta ou algo que não foi valorizado enquanto o tinha. Uma possível busca por entender algo que agora nos faz parte, seja factível ou não.

Analisando a primeira estrofe, no primeiro verso encontramos um lugar em que temos a sensação de ser amplo, composto apenas por areia, sol e grama, e apesar da sensação de abertura do lugar pela descrição, ele ainda assim nos remete a algo limitado. A descrição nos leva a um campo aberto, aparentemente sem sombra. Ainda obscuro para o entendimento inicial, mas que como parte do todo do poema pode nos remeter a um cemitério. Ou ainda esse lugar nos leve a um plano interior, um lugar vazio composto apenas de três pilares (talvez essenciais pra sua formação, mas apenas isso). É então seguido por três versos que falam indiretamente sobre o ter e não ter, nos remetendo a uma possível busca. No segundo verso há a afirmação de que nos esquivamos daquilo que damos a outras pessoas, uma constância em um processo de desviarmos de coisas ou sentimentos que não nos é importante ou essencial, mas que damos direta ou indiretamente aos outros em nosso convívio, talvez algo ríspido e que não queremos para nós próprios, mas damos àqueles que são parte de nossa vida. Um ato de egoísmo, onde não queremos algo para nós e nos esquivamos dele, mas entregamos aos demais. Paralelamente, no terceiro verso, complementar ao anterior e posterior nos leva como um todo a falta que o que o poeta tem de um determinado amor está sendo procurada em alguém que não há. Uma possível busca eterna por alguém/algo que não existe. Talvez uma busca por algo distante e não alcançável o que nos faz também ignorar aquilo que nos está dado e próximo, ou a perda de tempo por buscar algo que nos faltou. Aqui temos um desejo precedido por uma esquiva e uma busca aparentemente vazia. Em geral, nos três últimos versos dessa estrofe fala sobre nos esquivarmos daquilo que não nos é importante e isso respingar aos outros, dando a eles o que esquivamos de nós mesmo, enquanto a falta de amar, ou a falta de um amor puro e real nos faz buscar em vão alguém que não existe. Basicamente, buscando algo que achamos querer para complementar nossos próprios sentimentos, ignoramos aquilo que nos está presente e esquivando-nos da rejeição a damos a alguém que está próximo.

Na segunda estrofe somos contemplados com alguém sendo coberto por terra, o que é complementar ainda ao primeiro verso da primeira estrofe, moldando ainda mais o lugar amplo que foi descrito e temos a primeira ideia direta de um sepultamento/cemitério. Essa pessoa é então jogada no vazio do esquecimento, torrado, seco e o nada. O sepultar desse corpo o levará ao esquecimento, jogado o corpo em um lugar que lhe fará ser esquecido para os que ainda vivem. E esse esquecimento é aprofundado nos versos seguintes, onde, a visão daqueles ainda vivos se pegará apenas ao que está na superfície, à vista será focada apenas na flor (dália) depositada e crescendo ali em cima do cimento da sepultura, a única vida que teremos naquele lugar, nos remetendo mais uma vez ao esquecimento. A inexistência –ou a perda da memória- será ainda retomada nos versos à frente complementando aqui o sentido do esquecer.

De certa maneira, esse esquecimento é retomado já na terceira estrofe, mas com um tom diferente, voltado agora para onde todo ângulo obscuro é coberto de uma transparência durante aquele momento, um sentido de esquecimento do que se era quando vivo na hora de sua morte, seja um ângulo bom, mas principalmente um obscuro. Sendo que tudo ou parte do que se foi vivo, se é deixado à deriva no momento em que se está morto, só nos resta aquilo de não obscuro lembrado na hora da morte. No verso onze passamos pelas cantigas, típicas de sepultamentos interioranos, momento em que não há mais saída e consequentemente não se precisa mais implorar por nenhuma coisa praquele morto (perdão, saúde…) e não há também motivos para se rir. Uma estrofe que nos mostra os ritos de morte e o momento do enterro.

Indo para quarta estrofe, chegamos a um vácuo sepulcral do enterro, tendo ali uma visão mais forte do ser em processo de enterro, ele já não escuta mais os sons externos e nem mesmo o da poeira que corre em cima de si, ele é incapaz de ouvir a terra espalhada – pelo gesto de jogar punhados de terra em cima do caixão – que acontece fora dali, sendo essa terra espalhada por cima de si do caixão. E é então no décimo quinto e décimo sexto verso que o resumo da vida é fixado em um epitáfio, quando “A vida conta-se inteira, em letras de conclusão”, de toda uma vida, o que lhe restará será de lembrança será apenas aquelas palavras fixadas ali. Outra referencia ao esquecimento daquilo que quis ser em vida, dos pensamentos jogados à luz e caídos na deriva: só sobrará aquilo que foi colocado nas letras de conclusão, que se remete ao que sua vida foi, sua lembrança pelo que os outros se lembram ou associam a ele: um epitáfio e uma dália enfeitando o túmulo.

Vem então o desejo daquilo que não se viveu, a quinta estrofe trás as indagações ou as melancolias sobre a perda de tempo ou a não cura de muitas das dores que se teve. Em “nunca se escoa o tempo, chaga sem pus?” chegamos a uma dor não física, uma ferida de sentimento e que o tempo agora não mais valioso nunca levou embora. Nos primeiros versos vemos ainda uma indagação sobre os nossos pensamentos, a sua essência, que será jogado à toa. Temos então uma sensação de que o poeta tem medo de que tudo o que construiu através de suas ideias e pensamentos em vida tenham sido em vão, jogado em um vazio do esquecimento. Em sumo temos um desejo, um questionamento, sobre a herança intelectual e a dor que não é física que o tempo não retira, ou escoa, de si. Aqui podemos remeter novamente ao início do poema, em que a procura é por alguém que não há. Chaga é também um termo que remete a uma referência bíblica com “as chagas de Cristo”, e aqui Drummond pode indiretamente fazer uma referência a isso também, será que as chagas que teve em vida o salvariam em morte, apesar de sua chaga não ser física?

A última estrofe, inicialmente tão enigmática na poesia e parecendo, em uma primeira leitura, desligada do poema, mas parte essencial do entendimento, nos trás o renascer a partir da morte, uma última esperança. Inicialmente, temos um inseto petrificado em uma concha, uma referencia ao corpo, petrificado em seu caixão, já sem vida e logo sem movimentos e calor, preso nessa concha. É isso que no fim nos tornamos? O tédio do passado e da lembrança une-se ali ao futuro. No verso vinte e quatro faz referência à energia, que é a vida, no solo em que apesar de abrigar a morte, pode fazer brotar uma semente (passado e futuro), a vida onde se tem morte. Seguida de um questionamento sobre o recomeçar. Uma possível esperança na vida que ficará em seu lugar. Porém, ele ainda se questionada sobre o fato de todo esse sentimento ser a falta de algo vivido ou sobre sentir demais esse verbo amar.

De modo geral, o poema nos leva a um sepultamento, sendo o poeta aquele preso à sepultura e ao fim inevitável de sua vida. Com uma visão de quem está sendo enterrado, e aceitando, em parte, esse destino, ele nos trás seus medos pelo esquecimento de tudo o que suplantou com suas ideias e pode agora ser perdido em uma memória vazia sobre aquilo que foi, está ainda em uma busca final pra entender por ter vivido algo que não se viveu ou amado o que não se amou e sua pontada de fé na vida que nasce pela morte. A Falta que Ama pode ser ainda, assim como essa fase poética de Drummond uma recordação melancólica de tudo aquilo que não fez ou que fez demais. O poema é uma indagação sobre o esquecimento e o vazio daquilo que ele próprio foi. O medo, talvez, de uma lembrança sem importância de tudo aquilo que se é e foi.

Em Inquietudes na poesia de Drummond, de Antônio Candido, um dos temas analisados é justamente esse sufocamento e o sepultamento como parte de uma das inquietudes encontradas nas obras de Drummond, aonde em parte da poesia de Drummond chega a assumir a forma de morte antecipada, que parece não só em A Falta que Ama, mas em outros poemas do mesmo livro. Candido ainda pontua que:

“pode dar lugar à exumação do passado, transformando a memória numa forma de vida ou de ressureição.”.

A Falta que Ama trata justamente dessa memória, do medo dessa perda com os pensamentos jogados à luz, a ausência de som, o vácuo. O poema, e até o livro A Falta que Ama, trata da inquietude do medo, da morte e do vazio. A partir de Claro Enigma, essa aceitação do passado passa a ser parte da poesia de Drummond, e Antônio Candido pontua em seu texto que:

“(…) essa serenidade é também fruto de uma aceitação do nada -, da morte progressiva na existência de cada dia; da dissolução do objeto no ato poético até à negação da própria poesia.”.

Em A Falta que Ama há de certa maneira essa aceitação da morte e seu destino, mas há também a busca pela memória e o questionamento sobre a vida, o que se fez e faz. Retomando Merquior, que se refere ao livro como uma possível definição de amor platônico, pode-se considerar que a Falta que Ama é referente ao amor como virtude e sua vivencia ainda em vida, no seu mais puro amor, sobre aquilo que no fim nos fará falta, gerando então um possível arrependimento sobre aquilo que não foi amado no tempo certo, a falta que ama, talvez o sentir demais, e o buscar eterno pela pureza de um amor, aquela falta de ter vivido e vivenciado mais (ou demais) o verbo amar.

 

Se você chegou até aqui, parabéns! O texto é de fato grande e uma analise bem mais detalhada do que o padrão pra colocar aqui. Mas ela é importante pois consolida muito do que aprendi e de como evoluí nas leituras de poema. Quero voltar com Poema de Sábado, com analises mais profundas e melhor elaboradas, aproveitando tudo o que aprendi nesse primeiro semestre na Letras!

Dois Irmãos

Dois Irmãos

Milton Hatoum

downloadO autor: tradutor, escritor e professor brasileiro, nascido em 1952 em Manaus. Tem quatro romances publicados.

Sinopse*: “Dois Irmãos” é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. É a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino – o filho da empregada – narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar. Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance.

Resenha:  Que livro, minha gente. Decidi ler Dois Irmãos por conta da minissérie exibida na Globo, da qual me encantei, e fui ler o livro que estava na lista de livros à ler e subiu na lista de prioridades. Subiu também pra lista de livros favoritos. Poético, melancólico, pesado, envolvente e lindo.

O livro é narrado por Nael, filho da empregada da família que conta a história a partir do que vê e do lhe contam. A história traz muito da cultura e história de Manaus e do Brasil. Cheia de conflitos sociais, de trama familiar e tabus.

A história de Dois Irmãos conta o conflito entre os gêmeos Yaqub e Omar, filhos de Zana e Halim. Yaqub nasce saudável e forte, mas Omar tem dificuldade respiratórias. Junto do fato vem uma diferença de cuidado que faz Omar, o Caçula, ser o filho mais zelado por Zana, enquanto Yaqub recebe mais cuidados de Domingas, índia que é empregada da família. O casal tem ainda Rania, a filha mais nova. Os gêmeos são completamente diferentes, mas o enredo apresenta um reflexo que vai muito além da personalidade deles e uma diferença entre bem e mal. Foge do clichê de briga de opostos.

O problema entre os irmãos se agrava em uma sessão de cinema no porão da vizinha, quando Yaqub senta-se com Lívia, uma garota que ambos galanteavam. Com ciúme, Omar fica longe, aguardando, e quando a luz é acesa e o casal é visto aos beijos, Omar ataca o irmão com uma garrafa quebrada, atingindo seu rosto, marcando-o com uma cicatriz muito mais profunda que apenas na pele, e que marcaria muito além dos gêmeos. Halim decide mandá-los para o Líbano, pra se entenderem. Zana não permite que Omar vá, mas deixa Yaqub viajar sozinho, acreditam que a distância possa amenizar a rivalidade.

Cinco anos se passaram até a volta de Yaqub, que chega sem lembrar direito como se fala português, com roupas velhas e sem bagagem. Durante o tempo no Líbano não respondeu a nenhuma das cartas da mãe e a família só sabia notícias do filho por meio de amigos ou parentes. O reencontro dos meninos é pesado, doído. Yaqub um moço ainda mais quieto do que quando partiu, sem modos e nitidamente incomodado com todos. Omar, o garoto divertido, escandaloso, mimado e sem responsabilidade.

O decorrer da narração mostra a evolução de Yaqub e a irresponsabilidade de Omar, conta a vida dos gêmeos até a fase adulta, os conflitos, reencontros, separação e angústia.

Esse é um livro que deveria ser obrigatório para todo brasileiro. Leitura mais que recomendada.

 

(Sinopse do Skoob)

Últimas TAG do ano

E mais um ano se vai, esse pra mim, um dos mais corridos e dedicados. Terminei e comecei a semana com boas notícias, e parte do meu projeto caminhando (o mesmo que me fez ficar longe do blog e da escrita esse ano). Tudo para meu bem e evolução. Realizar sonhos é bem difícil.

Mas o post de hoje é pra trazer as 3 últimas TAG que recebi. Eu sei que isso ta parecendo aqueles blogs sobre recebidos do mês, mas gosto de compartilhar o que vem nas caixas misteriosas do projeto.

TAG_Outubro

 

Comecemos com Outubro, com a A louca da Casa de Rosa Montero, que mistura literatura e vida. Um pouco de literatura espanhola pra alegrar o ano.

O brinde foi uma capa de livro, que apesar de lindinha é pouco usual.

 

 

Já em novembro, uma nova edição especial veio na caixa, como fizeram com O vermelho e o negro, trouxeram pra gente agora uma edição especial de A Vitória, o inglês Joseph Conrad. Não o conhecia, mas quando fui ler sua história de vida me encantei.

a-vitoria_tag

E pra terminar o ano, nada melhor que literatura brasileira:

ainda-estou-aqui-tag

Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva. Um livro que conta a história de sua mãe, viúva da ditadura.

Fiquei muito feliz de receber esse livro. Esse ano fui a uma palestra com o Rubens Paiva e o Julian Fuks, e me encantei pelo livro. No dia eu estava sem dinheiro e acabei não comprando. No fim, dezembro me trouxe uma edição que veio, inclusive assinada. De brinde ainda tivemos as letras TAG impressas em uma impressora 3D.

Apesar de ter sido um ano fraco em leituras, minha estante ficou bem recheada e parte disso graças à TAG. Projeto leitura pra 2017 grande e projeto não comprar livro também.

 

 

Carvão Animal

Carvão Animal

Ana Paula Maia


carvao_animal_1303261722bO autor:
Ana Paula carioca, nascida em 1977. Estudou teatro na adolescência. Depois entrou na faculdade de Ciências da Computação e Comunicação Social. Seu primeiro livro foi publicado em 2003. Faz trabalho para o teatro e o cinema.

Sinopse*: O romance conta a história do bombeiro Ernesto Wesley e seu irmão Ronivon, funcionário do crematório da fictícia e cinzenta cidade de Abalurdes. Assombrados por uma tragédia do passado que ao longo da narrativa os persegue, esses dois irmãos que lidam com o fogo, um para combater e o outro para apagar os vestígios da existência física de alguém que morreu, seguem com suas vidas simples e driblam as intempéries de uma cidade que está sempre em chamas.

Resenha: Precisei recuperar o fôlego algumas vezes durante a leitura desse livro. A descrição, o animalismo, o envolvimento… Tudo aqui beira o nosso lado animal, o inferno particular. É uma literatura linda de se ler, cada trecho te leva pro fundo de um balde cheio de água, que quando notamos já não há oxigênio nos pulmões. Apesar da referencia à água, existe muito mais secura na obra do que água. O livro é claustrofóbico.

Um tapa na cada a momento, apesar de a expressão ser bem clichê. Uma crítica social intensa sobre pobreza, simplicidade, trabalho, dores e sobrevivência. Personagens simples, quase animalescos, mas que extraem o humano de cada um de nós. Aquele lugar sem vida, sem cor, sem esperança traz à tona uma solidão dolorida que sentimos a emergência de soltar. A claustrofobia do livro não vem apenas da sua literatura, as personagens também estão presos, sem ar em uma vida dura e com gosto de fuligem.

O livro começa com uma constatação simples e triste: a única coisa que restará de nós são os dentes. Por sinal, dentes e fogo são duas personagens do livro. Carvão Animal vem daí, um derivado dessas duas coisas e que rodeia todo o enredo. Em Abalurdes, por sinal, o carvão é a vida e a morte.

A leitura desse livro faz parte de um objetivo pessoal de ler mais brasileiros contemporâneos. Cheguei até ele por acaso, mas depois do primeiro paragrafo foi difícil largar, e em um ano que tenho focado em outros projetos, foi ótima a sensação de ser presa. O livro não é grande, é uma leitura boa, com associações simples mas de uma intensidade absurda. O livro é pequeno (tem menos de 200 páginas) e com capítulos bem alternados. Fácil e rápido de ler. Aproveita o Natal e pede de presente ou compra pro colega, esse livro sem dúvida vale a pena (um dos melhores desse ano). E apesar de Carvão Animal ser incrível sozinho, ele é parte da trilogia A saga dos brutos. Eu não li os livros anteriores, mas já está na lista de necessitados.

(Sinopse do Skoob)

Maratona Carreira Literária

E no último dia 16 saiu a lista das obras participantes da primeira Maratona Carreira Literária.

Ano passado fiz um curso pela plataforma e ao fim tive um conto publicado na antologia que a editora oito e meio (idealizadora do projeto) publicou. No último mês eles abriram basicamente um concurso. Devido as regras, houve uma primeira seleção e meu livro Enquanto a Chuva Caí está lá participando da categoria Prosa. Vamos aguardar o resultado, que terá como premiação a publicação do livro. A partir de agora seguimos para a fase de julgamento dos originais e dos 500, 8 serão escolhidos para a fase seguinte, e depois a fase final. Dia 15 de Setembro haverá um Webinar para divulgar o primeiro resultado dessa fase.

 

Timidez – Cecilia Meireles

O Poema de Sábado essa semana, pós Dia da Literatura Brasileira é de Cecília Meireles. Além de minha admiração por sua escrita, tive a honra de nascer, assim como ela, em um dia 07 de novembro. Se existe algum orgulho maior? Com certeza não.

Esse poema fala, além de timidez (uma que eu considero mais um aguardar do que no sentido de vergonha), sobre o amor. Talvez não correspondido, pela ausência de atitudes. O poema é carregado de um Eu Lírico particularmente que aguarda, espera aquela chegada, aquelas atitudes. Que ama, mas que aguarda.

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve ,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve …

– mas só esse eu não farei

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi .

Para que tu me adivinhes

entre os ventos taciturnos

apago meus pensamentos

ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei .

E enquanto não me descobres

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo ,

até não sei sabe quando

-mas um dia me acabarei

Retrato do artista quando coisa – Manoel de Barros

Esse sábado tem gosto de Manoel de Barros, poeta brasileiro. Foi por vezes comparado a Guimarães Rosa. Mas criou um universo único. Com uma visão única, um realismo que envolve. Manoel foi vinculado ao modernismo.

Hoje trago o poema Retrato do artista quando coisa, que particularmente diz muito do que eu sinto sobre mim, a nunca satisfação daquilo que sou. Imagino que todos aqueles que vivem dessa angustia identificam-se com o poema, com o poeta.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas

Literatura brasileira

E hoje vamos falar um pouco sobre literatura brasileira.

O assunto veio, e a vontade de falar sobre ele, com essa lista da Revista Bula sobre 15 livros obrigatórios dos 15 anos da literatura brasileira. A lista é ótima, livros muito bons e de escritores ótimos, felizmente dentre eles tive a oportunidade de participar de um evento com o Santiago. Ótima pessoa e escritor.

Mas o ponto principal dessa conversa é outra: o quanto ainda precisamos valorizar os escritores do nosso próprio país. Costumo acompanhar diversos blogs e vlogs sobre literatura e pouco vejo sobre os livros dos nossos conterrâneos, e não é por falta de qualidade, a própria matéria da revista Bula mostra isso. Claro que como em qualquer frente existe aquilo que se pode ser descartado, mas uma boa parte ainda está ali pronta pra ser descoberta, explorada e amada. Nosso maior exemplo é Machado de Assis, a complexidade, sonoridade, poesia e escrita são encantadoras, merecem toda a atenção e estudo que recebe. E claro temos outros diversos bons exemplos: Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Castro Alves, Cecília Meireles, Graça Aranha….

Vergonhosamente devo confessar que pouco li e leio da literatura tupiniquim.  E mais vergonhoso ainda é: como uma escritora (ou aspirante a) brasileira não conhece muito sobre a própria literatura? Triste né?

Imagino que a falta de valorização da nossa própria arte ajude nesse passo. A falta de apoio governamental e empresario faz esse triste cenário ser presente na maioria de nós, brasileiros.

Aprendi a gostar e ver o quão rica nossa literatura era quando iniciei a oficina de criação literária. Lá pude ouvir e ler um pouco de cada beleza da nossa palavra, língua, literatura. De lá pra cá pouco li sobre o que foi produzido no nosso país, mas tenho como objetivo de carreira e vida me aprofundar nesse mundo tão lindo e encantador que é a nossa literatura.

Pra ajudar, em uma rápida pesquisa encontrei essa matéria sobre 100 livros essenciais da nossa literatura. Precisamos (e preciso) aprender mais sobre o que temos de bom no nosso próprio país.

Flipobre – A iniciativa para os escritores pobres.

Vocês conhecem a Flipobre?

Bom, essa é uma feira literária diferente, que nasceu com o idealizador Diego Moraes, que cansado de ser excluído da Flip criou o evento que chama de “os escritores com o nome no serasa”.

O evento aconteceu nesse domingo dia 7, infelizmente não consegui acompanhar devido ao fuso horário em que estou essa semana, mas diversos assuntos foram abordados e podem ser vistos agora pelo canal da Flipobre no Youtube.

As mesas de debate foram em cima de assuntos interessantes e importantes para o meio literário: Lima Barreto, Machismo na Literatura, Número de escritores vs números de leitores no país, Editoras e sua real necessidade, entre outros abordados.

O objetivo do Diego é simples: mostrar que os bons escritores não estão só nas grande feiras.

O projeto teve relevância na rede e ganhou diversas reportagens no país todo, o que é ótimo! Quem quiser acompanhar também a página do Facebook é só clicar aqui.

Da triste nova perda do que nos restou.

Essa semana o mundo literário perdeu mais um nome, grande nome Manuel de Barros. Seu coração parou em um dia 13, depois, do que ele próprio descreveu, de um estado de ruína.

Ano de perdas engloba esse 2014, que chegue logo seu fim, que termine e que pare de levar consigo nossos ídolos. Maré de dor que tem trago.

Ano cruel para as palavras, para o coração literário…

Em sua homenagem, o que de melhor ele deixou para nós.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

 Manuel de Barros.

Manuel de Barros.