Museu – Wisława Szymborska

Voltando aos poucos com o blog, eis que umas das ganhadoras do Nobel chega para alegar esse fim de sábado chuvoso. De nome quase impronunciável (pra nós, adeptos a língua portuguesa) de uma lucidez poética única.

Ler poesia é essencial pra escrita, é ar, é vida. E volta aos sábados para nos inspirar.

Museu

Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezentos anos.

 

Há um leque — onde os rubores?

Há espadas — onde a ira?

e o alaúde nem ressoa na hora sombria.

 

por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias.

Um bedel bolorento tira um doce cochilo,

o bigode pendido sobre a vitrine.

 

metais, argila, pluma de pássaro

triunfam silenciosos no tempo.

só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do egito.

 

a coroa sobreviveu à cabeça.

a mão perdeu para a luva.

a bota direita derrotou a perna.

 

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

minha competição com o vestido continua.

e que teimosia a dele!

e como ele adoraria sobreviver!

Em 1996, a polonesa ganhou seu Nobel, era quase desconhecida. Teve obras bloqueadas pelo regime comunista. Mas como li em um ensaio da Revista Piauí, a poesia de Szymborska é pura e transparente como a água. E essa pureza nos choca. E temos em Museu uma clara crítica ao excesso e ao vazio que tentamos preencher com objetos. O sobreviver sobrepondo-se ao viver. Museu nos traz a realidade do fútil, tão presente em cada um de nós. Até quanto o ter vencerá o ser?

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Minha Boêmia – Arthur Rimbaud

Poema de sábado de hoje tem Rimbaud, poeta que conheci através do projeto Rambo Rimbaud do finlandês Ville Valo (vocalista da banda HIM) e devido a fascinação que tenho pelas letras e músicas da banda, fui conhecer um pouco do poeta. Rimbaud foi um poeta francês, o “jovem Shakespeare”.

Hoje trouxe o poema Minha Boêmia, para deixar esse sábado mais poético.

Lá ia eu, de mãos nos bolsos descosidos;
Meu paletó também tornava-se ideal;
Sob o céu, Musa, eu fui teu súdito leal,
Puxa vida! a sonhar amores destemidos!
O meu único par de calças tinha furos.
– Pequeno Polegar do sonho ao meu redor
Rimas espalho. Albergo-me à Ursa Maior.
– Os meus astros no céu rangem frêmitos puros.
Sentado, eu os ouvia, à beira do caminho,
Nas noites de setembro, onde senti qual vinho
O orvalho a rorejar-me a fronte em comoção;
Onde, rimando em meio a imensidões fantásticas,
Eu tomava, qual lira, as botinas elásticas
E tangia um dos pés junto ao meu coração!

Tecendo a Manhã – João Cabral de Melo Neto

E o Poema de Sábado está de volta, depois de dois meses sem postagens. Hoje trouxe um poema e um autor que estudei um pouco na PUC, nessa nova oficina que estou participando: João Cabral de Melo Neto – Tecendo a Manhã.

O poema é sonoro, com uma ritma parecida com uma teia. Uma descrição muito bonita sobre o amanhecer:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

O bacana de Cabral é sua divisão de assunto, muito marcada entre os parágrafos. Particularmente, consigo ver o amanhecer surgindo ao ler o poema.

Pressagio – Fernando Pessoa

O poema de hoje é de Pessoa, representa a fase mais intensa que tenho vivido: o amor.

Não há muito o que falar sobre amor, amor se sente, se vive. Amor é poesia, e poesia é o que faz o amor.

Presságio

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

Elegia – Alexander Pushkin

A Rússia invade nosso poema de sábado. Talvez, culpa da leitura atual. Talvez por conta da encantabilidade (existe?) da literatura russa.

Trouxe, e li, Pushkin essa semana. Considerado um dos maiores poetas de seu país, ele é inclusive, orgulho dos russos, é considerado o criador da literatura russa moderna.

O poema escolhido foi Elegia. Que trás algo como a ressaca moral. Bem atual, por sinal. E ressaca essa, que vem cheia de medos, principalmente o de morrer e não viver tudo aquilo que se queria.

ELEGIA


Dos anos loucos a alegria extinta
Ressaca vaga, faz que eu mal me sinta.
Mas, como o vinho, é o remorso meu
Que mais forte ficou, se envelheceu.

É triste minha estrada. E me anuncia
O mar ruim do porvir dor e agonia.
Mas não desejo, amigos meus, morrer;
Quero ser para pensar e sofrer.

E sei que há gozos para mim guardados

Entre aflições, desgostos e cuidados:
Inda a concórdia poderei cantar,
Sobre prantos fingidos triunfar,

E talvez com sorrir de despedida
Brilhe o amor no sol-pôr de minha vida.

Se cada dia caí – Pablo Neruda

Neruda vem nos encantar essa noite de sábado. Se cada dia caí, tem pra mim um gostinho diferente, me faz refletir um pouco sobre essa louca vida que vivemos, principalmente em grandes cidades. Me mostra o sufoco de dias perdidos, trancafiados.

Como costumeiro, Neruda soa encantador e de uma sonoridade única.

Se cada dia caí.

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência

A Terra Devasta – T. S. Eliot

Muito tenho lido sobre a influência e a magnitude de T. S. Eliot. Confesso que não conhecia o escritor, e buscando mais sobre ele, encontrei uma poesia intensa e um texto de profundidade do qual me encantou bastante. Resolvi então trazer algum texto dele no Poema de Sábado, veio então: A Terra Devasta, mas, por ser um poema longo (são 5 partes extensas), trouxe aqui a parte 4. Como um reflexo sobre todo o poema, que particularmente vi como morte e vida, muito mais profundo na morte, com referencias que a morte é responsável pela vida.

Pesquisando, descobri as claras referencias a outros escritores e também o forte apelo de Shakespeare na inspiração de todo o poema, existem diversas partes das peças do bardo no poema. A atmosfera criada é carregada de melancolia, o que deixa o poema pesado, e diria, até sombrio.

Ainda  não conheço muito sobre Eliot, mas confesso que depois de tantas referencias boas e ter lido A Terra Devasta, fiquei bastante curiosa para entender mais sobre ele.

MORTE POR ÁGUA

Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,

Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas

E os lucros e os prejuízos.

Uma corrente submarina

Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia

Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude

Até que ao torvelinho sucumbiu.

Gentio ou judeu

Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,

Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.

Poema – Mario Quintana

O Poema de Sábado dessa semana vem embalado com recordações. É Mario Quintana quem aparece dessa vez.

Li esse poema a primeira vez em um grupo de estudos literários da época do ensino médio, foi um grupo montado para estudar para um concurso da Nestlé. O ano foi 2005.

O poema de nome Poema fala sobre os sonhos, as realizações. Foca também na persistência, e na busca do que se acredita. O poema também é de uma sonoridade gostosa e musical.

Poema

O grilo procura
no escuro
o mais puro diamante perdido.

O grilo
com as suas frágeis britadeiras de vidro
perfura

as implacáveis solidões noturnas.

E se o que tanto busca só existe
em tua limpida loucura

-que importa?-

isso
exatamente isso
é o teu diamante mais puro!

Livros e Flores – Machado de Assis

O poema de sábado saiu numa terça à noite. Culpa dos olhos, que me fogem ao anual controle de sensibilidade. Dilatei a pupila, arte maldosa de médicos que me fizeram só hoje postar aqui.

Como recompensa, Machado. Com suas flores e livros. Comparando o amor físico por palavras com o carnal e encantador. Mistura poética e doce para hidratar a seca da solidão.

Livros e Flores

Teus olhos são meus livros.

Que livro há aí melhor,

Em que melhor se leia

A página do amor?

Flores me são teus lábios.

Em que melhor se beba

O bálsamo do amor?

Livros e Flores

Teus olhos são meus livros.

Que livro há aí melhor,

Em que melhor se leia,

A página do amor?

Flores me são teus lábios.

Onde há mais bela flor,

Em que melhor se beba

O bálsamo do amor?

Para Sempre – Carlos Drummond de Andrade

Neste sábado o poema que embala é de Drummond: Para Sempre. Um poema gostoso de ler e com uma poesia simples e envolvente. O tema é Mãe, propositalmente escolhido devido o dia de amanhã. O poema reflete o amor e a perda. A morte é o argumento principal.

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho