Dias de inverno

Nesse agosto chuvoso e frio fez-se 30 anos da morte de Drummond. A data passaria despercebida pra mim em meio a loucura que andam os dias, mas nesse 2017 ela se tornou mais especial do que eu jamais imaginaria.

O primeiro semestre acadêmico terminou, com ele e as aprovações, trouxe de volta Poema de Sábado com Drummond e meu trabalho sobre A Falta que Ama. Despretensiosa que alguém o leria, o julguei longo demais pra um blog, a surpresa viria nessa última quarta, dia 16. Através do formulário de contato aqui do blog uma mensagem chegou, solicitava meu e-mail pra envio de um presente. Fiquei ansiosa com aquilo, no mundo em que blogs e vlogs ganham muitas coisas eu cheguei a pensa: nossa, não achei que alguém fosse querer me dar um presente. Respondi com meu contato pessoal, não imaginando que o presente que ganharia não seria nada comum.

Eis então que durante minha volta do almoço recebo um e-mail. Ele iniciou com o título que dou a esse post: Dias de Inverno. Uma referencia direta ao que viria. Quem me mandou foi a Maga (como ela carinhosamente assina). Nele vinha sua pequena e emocionante história: assim como eu, mas num passado próximo, ela era uma estudante de letras que também precisou analisar A Falta que Ama (mas no seu caso, o livro todo). Nesse tempo, primavera de 1985, Drummond ainda vivo recebeu uma ligação dela (ele morava no Rio e alguns contatos a ajudaram a chegar até ele). Uma primeira conversa quase aula e uma permissão pra enviar-lhe uma carta com suas dúvidas. Foi então que a resposta chegou até ela:Altruísta e maravilhosa, meu presente era a cópia dessa carta. 30 anos após sua morte, era eu quem recebia um presente maravilhoso como esse e que, assim como pra ela, mudou muita coisa em mim. A Maga chegou até esse blog e consequente até mim enquanto preparava uma aula sobre Drummond, e como parte de uma atitude maravilhosa, ela compartilha essa carta com todos aqueles que se envolvem com Drummond. Nesse dia a escolhida fui eu. Nas palavras dela “Penso que essa carta é um documento literário, não posso ser egoísta com ela, sempre passo para as pessoas que por algum motivo se envolvem com o poeta.” .

O motivo pra ela fazer isso? Deixar Drummond cada vez mais vivo. E de fato ela o fez.

Fiquei horas pensando sobre a atitude dela, sobre a carta, sobre a preciosidade do momento. Perguntei, inclusive, se poderia fazer uma publicação sobre essa carta, e cá estou, contando um pouco da incrível atitude que ela toma e da felicidade que ainda sinto quando vejo essa carta. E termino essa postagem com a resposta da Maga:

Semeie Drummond o planeta está carente de poesia. Essa carta só tem sentido circulando, viva!!

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Claro Enigma

Claro Enigma

Carlos Drummond de Andrade


claro-enigmaO autor:
É considerado por muitos o mais influente poeta brasileiros. Foi mineiro e fez parte do modernismo brasileiro (em sua segunda parte).

Sinopse*: Publicado em 1951, Claro enigma representa um momento especial na obra de Drummond. Com uma dicção mais clássica, o poeta revisita formas que haviam sido abandonadas pelo Modernismo (como o soneto, modalidade que fora motivo de chacota entre as novas gerações literárias), afirma seu amor pela poesia de Dante e Camões e busca uma forma mais difícil, mas sem jamais abandonar o lirismo e a agudeza de sua melhor poesia.
O livro abre com a epígrafe do francês Paul Valéry, “Les evenements m’ennuient” (Os acontecimentos me entediam). Embora eloquente, a citação não corresponde perfeitamente à realidade, pois Drummond não vira completamente as costas para a vida mais pulsante. Pelo contrário: a experiência aparece em cada verso do livro, ainda que escamoteada por uma lírica que não se entrega ao fácil graças a uma visão algo desiludida do tempo e dos homens.
Mas há, claro, espaço para o lirismo do amor, como no célebre poema “Amar”, que começa com os versos: “Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”. A lira romântica de Drummond está bem afinada neste livro, como pode ser comprovado pela leitura de poemas como “Rapto” e “Tarde de maio”. A mineiridade também é lembrada no livro, em poemas vazados pela nostalgia ou que recontam episódios antigos da terra natal do autor.
Claro enigma também conta com “A máquina do mundo” – eleito o melhor poema brasileiro do século XX por um grupo de críticos e especialistas consultados pelo jornal Folha de S.Paulo. Escrito em tercetos, é simultaneamente uma meditação profunda e uma espécie de épica íntima sobre a passagem do tempo e o conhecimento da vida como acontecimento breve e muitas vezes fortuito. Um clássico.

Resenha: Claro Enigma foi o primeiro livro de poemas completo que li. Geralmente quando pegava um ia selecionando, lendo um por vez e quase nunca lia todos. Esse livro também entrou inesperadamente na lista de livros de 2016 por conta dos projetos desse ano, mas foi uma surpresa boa.

A primeira coisa que aprendi com esse livro é que tenho que aprender muito sobre poesia ainda. Elas são complexas, bonitas, intensas, envolventes e surpreendentes. Carregam tanta coisa nas até poucas palavras que trazem pra nós. Patinei um pouco em alguns dos poemas.

Eles foram, inclusive, compostos entre 1940 e 1950. Época em que o mundo era assolado pela Guerra Fria. Tudo era oposição e polaridade. E o contexto é muito forte no livro. Ele é cheio de angustia, assim como, o período foi.  Começa pelo título, Claro e Enigma, um contraponto que carrega em quase todos os poemas. Há no texto uma melancolia, denuncia social e uma busca pela politização do homem, pra poder chegar a sua forma boa. São vários poemas que vão sim te fazem refletir.

Os poemas são divididos em seis partes. Temos também alguns sonetos, e um pouco diferente do que vemos em outros poemas, há uma busca pela forma clássica. É quase uma “deixada de lado” da segunda fase do modernismo. Há homenagens a outros escritores e até familiares do Drummond.

É um livro carregado e com poemas até “pesados”, mas importante pra pensarmos. Há também o poema Maquina do Mundo que em algumas vezes foi considerado o melhor poema brasileiro. Há referencias da maquina do mundo em bastante coisa na literatura; além da maquina do mundo, Drummond trás muita coisa da referencia literária mundial. Só por ser do Drummond já seria suficiente pra ler, mas a recomendação vai também por toda a obra, que é incrível.

(Sinopse do Skoobl)

Substantivo Feminino e Bendita Palavra – Maria Rezende

O domingo passado foi daqueles dias que a gente senta, pega um livro de poesia e fica horas se deliciando. Fiz isso com os dois livros da Maria Rezende, poeta que conheci na Oficina de Criação que cursei o ano passado. Além de poeta ela é dizedora de poemas.

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Dos dois livros, Bendita Palavra foi meu favorito. Fala de amor, vida, mundo. Tem um tom de poesia e um ritmo mais gostoso. Tem aquele gostinho de orgulho de ler contemporâneo, aqueles que a gente sabe que ficarão pra sempre na história.

Da triste nova perda do que nos restou.

Essa semana o mundo literário perdeu mais um nome, grande nome Manuel de Barros. Seu coração parou em um dia 13, depois, do que ele próprio descreveu, de um estado de ruína.

Ano de perdas engloba esse 2014, que chegue logo seu fim, que termine e que pare de levar consigo nossos ídolos. Maré de dor que tem trago.

Ano cruel para as palavras, para o coração literário…

Em sua homenagem, o que de melhor ele deixou para nós.

Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

 Manuel de Barros.

Manuel de Barros.

Ainda é penta.

Dos pés a bola lhe escapava.

Um imaginário ímã a repelia.

Uma medonha sensação de perda

a cada rede contra balançada.

Sete vezes a viu assim.

Nem o muro em frente ao gol se safou.

O canarinho se calou.

Os gritos não mais se ouvia,

mas as amarguradas e silenciosas lágrimas eram derramadas

Então se adiantou

o sonho do sexto grito

ainda preso.

Nem pra casa voltou.

Pois lá, infelizmente, já estava.

Sonhos

Pegou o sonho com as mãos

E o espremeu deixando vazar por entre os dedos.

Era um sonho tão significante e inalcançável que preferiu esmagá-lo.

Seu coração sangrava respingando lágrimas para fora de seus olhos.

Mas o que afinal poderia fazer além de esmagar?

Espremeu covardemente com vontade,

até tudo nele ser nada

Na frustrada tentativa de ser tudo.

Uma falha mentira de si mesma.