Revisão – O primeiro curso de 2016

Meu ano de 2016 começou repleto de coisas boas. Provas animaram as primeiras semanas e logo depois o primeiro curso: revisão de livros e periódicos.

Hoje essa não é minha “área profissional”, mas já realizo alguns trabalhos como revisora no site em que também sou colaboradora: Homo Literatus. Lá descobri o primeiro gostinho dessa parte tão, digamos, trágica na vida da escrita, é de fato o outro lado da coisa. Buscando aprender e me envolver ainda mais, no último sábado fiz o curso sobre Revisão no espaço Scortecci da Escola do Escritor. Quem ministrou o curso foi a Ana Christina Perfetti. Foi abordado bastante do mundo editorial, regras, jeitos e detalhes sobre a revisão. Foi um curso voltado para o trabalho do revisor: obrigações, o que ou não fazer, diferentes jeitos e manias…

guia-do-profissional-do-textoPara quem tiver interesse, e estiver no inicio da carreira, além da opção do curso, a Christina tem também um livro publicado que aborda as regras, explica como é o trabalho e da dicas (não é um “explicativo” ou ensina regras gramaticais, ele é voltado para o mercado de trabalho em si) . Como mencionei, caso seja um iniciante na área é um livro (e o curso) bem bacana para entender como funciona.

Que esse ano continue tão bom e recheado de literatura, assim como 2015.

Eu me sinto como que traída todos os dias. Quem me trai é a vida. Ela era pintada de rosa, com balões vermelhos em um dia ensolarado. Se tornou cinzenta, mal humorada e sem esperança.

Um inferno astral constante caminha de dentro do estômago e vaza para a áurea.

O futuro que plantei com tanto cuidado, reguei, cultivei, brotou; uma flor morta. De pétalas enrugadas, caule escuro e mole.

Parafrasear o que nunca foi escrito me fez crer que sonhos podiam ser reais. Não percebi que eles só são reais dentro do possível até sentir que o impossível não era alcançável.

Nem se ficasse na ponta dos pés.

O último trem.

Desci sem pressa as escadas cinza que moldavam o caminho até a plataforma do trem. Passo a passo me dei conta da atmosfera melancólica que aquilo me proporcionava.

O vento frio ia e vinha sem medo, trazia consigo pequenas nuvens escuras de poeira viajante. Também fazia com que as plantas de um outonal vermelho seco abraçadas ao muro branco que protegia a estação dançassem em um espetáculo sem público indo da direita para a esquerda e descansando enquanto se preparavam para o próximo passo.

Sentei em um banco sem cor. Não havia qualquer barulho, o silencio passeava por cada canto do lugar naquele vazio aconchegante.

Engraçado como estações de trem são sempre assim, o nada preenchido por pessoas que vem e vão e deixam as outras irem e virem. Um lugar certo para mim. Havia algumas pessoas aguardando o próximo trem. Nenhuma delas falava. Quase nem se mexiam.

O vento não se cansava de obrigar as plantas a darem o seu pequeno show. Elas também não pareciam incomodadas.

Durante os minutos, incontáveis, que ali fiquei o único barulho que ouvia era do trem se aproximando. A frente da maquina vinha sempre num vermelho vivo que gritava enquanto aproximava. No momento em que as portas se abriam o som de vozes rebatia em mim, aleatórias e agudas.

Demorei um pouco para criar a necessária coragem. Um passo. Dois passos. Ultrapassei a tal faixa amarela. Ninguém se importou. Pude notar treze diferentes e silenciosas pessoas distraídas. Dos infelizes boatos dizia-se que tal cabalístico número trazia azar. Mentira trovada sem amor.

Fechei os olhos, cabeça pra cima. Deixei que toda a energia se concentrasse e o vento frio tomar toda a minha pele. Ouvi o barulho. Preferi não ver. Apenas fiquei, cambaleei de leve, meu peito subia e descia pesado, o sangue percorria dolorosamente meu corpo. Soltei o papel que segurava, deixei o corpo cair. Senti o alivio da paz ser libertado a cada osso que moía. Senti que finalmente vivia.

Ser escritor

É aquele que se apodera do que não se sente, do que não se vive. É tomar-se daquilo que não é seu e ser um mentiroso. Repleto de verdades alheia.

É ter o dom de apoderar-se da observação e transformar cada detalhe em letra. Um escritor é quem toma a vida que lhe interessa e transforma-a em eternidade.

É brincar de Deus, criar e matar.

Ter poder de arrancar lágrimas de quem lê, de desesperá-los. É fazer personagens se tornarem pessoas. Poder criar um mundo, fazer dele parte do real. Tornar o inexistente existente fazer maravilhas milagres. E então poder destruir.

Ser escritor é transportar o mundo para palavras. E fazer delas eternas.

O amor acaba.

Que domingo friooo e gostoso né? Eu amo.

Aproveitando essa preguiça que chega em dias assim, vim falar sobre um dos exercícios que tivemos na oficina. Não me lembro exatamente em qual encontro foi, imagino que no décimo, o Marcelino leu um texto lindo do Paulo Mendes Campos que é chamado de O amor acaba. Resolvi postar o texto aqui pra vocês:

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.*

Lindo né? Todos ficamos encantados ao ouvir. Diversas conclusões e análises foram feitas e ficamos um tempinho conversando sobre o texto.

Nossa tarefa foi falar sobre onde, quando o amor acaba. Ou não acaba.

Difícil né? Falar sobre amor é sempre complicado. Passei alguns dias pensando nisso, até chegar nesse mini conto que vocês podem ler aqui.

Aproveitem o domingo 😉

* O texto foi extraído do site: http://www.releituras.com/i_eleonora_pmcampos.asp